Direita ou esquerda?

2010 janeiro 28
por Paulo Ghiraldelli Jr.

Direita ou esquerda? Há quem diga que nem uma nem outra posição é válida agora. Todavia, essa posição para além da divisão clássica não existe. As pessoas se comportam de determinado modo na política e, enfim, isso é facilmente identificável como direita e esquerda, bem mais hoje do que há dez anos.

A direita e a esquerda democráticas respondem a ideais postos na Revolução Francesa, os de igualdade, liberdade e fraternidade. Ambos concordam em tese com a fraternidade, mas divergem sobre igualdade e liberdade. Na tradição européia, que ainda é a nossa, apesar de nossa crescente tendência ao bipartidarismo que lembra os Estados Unidos, a direita diz que a igualdade que a esquerda prega precisa demais da ação do Estado e, por isso, vai terminar por sufocar as liberdades individuais. A esquerda retruca que a liberdade que a direita quer é retórica, pois ninguém consegue ser realmente livre em uma sociedade em que a distância social é excessiva.

Leia mais…

Jabor no terremoto do preconceito

2010 janeiro 25

Transformar a linguagem é mudar o mundo – sabemos disso. Desde sempre trabalhamos sob essa perspectiva. Talvez isso tenha começado desde o momento que, ainda peludos e em cavernas, balbuciamos os primeiros sons comunicativos. Todavia, só ao final do século XIX e principalmente no século XX ganhamos a consciência desse nosso poder. Foi só então que fizemos a guerra semântica vir propositalmente adiante de qualquer outro tipo de ação. Falar de modo “politicamente correto” se tornou, ao final do século XX, algo importante em todo o Ocidente.

Nos Estados Unidos o “politicamente correto” se espraiou de tal modo e se ampliou de tal maneira que logo provocou a reação – às vezes correta – dos mais conservadores. Alguns conservadores mais inteligentes combateram o “politicamente correto” por meio do humor. Ao final, até mesmo a esquerda mais liberal aderiu. Foi o tempo dos engraçados “contos de fadas politicamente corretos”, em que o Lobo Mau tinha de ser chamado de “Animal de Instintos Excessivamente Unidirecionados” e o Pinóquio não podia ser adjetivado de mentiroso e, sim, de “Sujeito Propenso à Conduta Anti-social” e assim por diante. Todavia, a reação não venceu. Ela foi batida pelas novas leis que foram incorporando o “politicamente correto”. Esse debate está bem minguado nos Estados Unidos. Trinta anos depois, ele esquenta nossa imprensa.

Leia mais…

Sandy, Antoine, Lula e Serra na terra do vírus de Boris

2010 janeiro 15

Nem terminou o mês de janeiro e o vírus solto por Boris Casoy na virada do ano se manifesta em outros brasileiros. A já não mais adolescente Sandy usou o twitter para criticar a ajuda humanitária do Brasil às vítimas do terremoto no Haiti. Um dia depois, o cônsul brasileiro do Haiti, sem saber que estava sendo gravado, disse que a desgraça lá estava sendo boa para “nós aqui”, ou seja, ele, pois estava ficando “conhecido”. E não foi só isso, ele também acrescentou que onde “há africano” que “mexe com candomblé e macumba” tudo pode acontecer porque isso atrai mesmo o mal. (veja aqui)

Ambas as declarações, a de Sandy e a do cônsul George Samuel Antoine, refletem uma formação em que os princípios do iluminismo e do humanismo foram vencidos de modo fácil pelo senso comum do senhor dono de escravos. É como se a odiosa mentalidade dos velhos proprietários de terras do Brasil Colônia e Império jamais tivesse sido fustigada por Pombal. Ou pior, é como se o odor do chá dos Jardins da cidade de São Paulo, que ainda exala a determinação do bandeirantismo assassino de índios, comandasse nossa sociedade.

Leia mais…

Lula, o filho da política

2010 janeiro 7

Lula de barba branca e aparada, fingindo falar errado, com reputação internacional como presidente e com a aprovação interna de mais de 80% do eleitorado é bem diferente do Lula do início da década de 80. Aquele Lula tinha uma barba preta horrorosa, olhos esbugalhados, tentava falar corretamente e buscava a todo custo entender de salários e de relações políticas. Tinha aprovação interna também – interna aos sindicatos.

Leia mais…

Boris Casoy, o filho do Brasil

2010 janeiro 1

Uma parte da nossa esquerda política imagina que os ricos não são brasileiros. Pensam que eles ainda são os filhos de uma elite que estudou na Europa e que, se o Brasil for mal, irá embora daqui. Imagina que são pessoas completamente por fora da vida cotidiana do Brasil. Essa visão da esquerda pouco ajuda. Enquanto não entendermos que um homem de direita como Boris Casoy é tão “filho do Brasil” quanto Lula, não vamos descrever o Brasil de um modo útil para os nossos propósitos de melhorá-lo.

Creio que o vídeo (aqui) que mostra Boris ridicularizando de maneira odiosa os garis, com o qual iniciamos o ano, deveria valer de uma vez por todas para compreendermos algo que, não raro, há vozes que querem negar: “o ódio de classe” permanece entre nós – sim, nós os brasileiros. Deveríamos levar em conta isso, sem medo, ao descrever o Brasil.

Leia mais…

Jornalismo com fraldas comete fraudes

2009 dezembro 30
por Paulo Ghiraldelli Jr.

Ou eu fiquei melhor ou o jornalismo ficou burro. Quando jovem, eu lia o Claudio Abramo na Folha e me deliciava. Que maravilha de dignidade e que texto saboroso. Agora, abro a Folha ou o Estadão na Interner e não consigo terminar nenhum texto, eles me expulsam. Para não jogar farpas ao vento, dou exemplos.

Bruno Yutaka Saito, do Blog Cinema da Folha, começa o seu texto:

  • Ontem levei minha mãe para ver “Sempre ao Seu Lado”, “o” filme de cachorro da temporada. Do mesmo jeito que nesta época temos a Xuxa na telona ou filme francês com o Mathieu Amalric, o gênero filme fofo com bichinhos tá aí para nos fazer debulhar em lágrimas. (30/12/09)

Ao ler isso, exclamo quase que involuntariamente: piedade Senhor, ele não sabe o que faz! O estilo do Bruno é insuportável: que coisa mais desagradável a fórmula “levei minha mãe”! Ora, fui ao cinema com minha mãe e ponto final, acabou. Achar que mãe é um pedaço de carne boba, que é necessário ser levado para lá e para cá, é irritante. Além disso, que coisa mais chata isso de ir trabalhar com a mãe, ou seja, ir ao cinema para escrever a coluna da Folha e, então, dar a desculpa de “levar a mãe” ou usar do serviço para sair com a mãe. A colônia nipônica se reúne para ver filmes japoneses e eu, o jornalista descendente de japoneses, levo também a minha mamãe lá, e sabe-se lá se ela quer ir! Tinha de fazer o serviço e ao mesmo tempo “dar atenção” para minha mãe no final do ano – é assim que soa o texto (ao menos para mim, ora, eu sou um leitor só, mas sou leitor). Feito isso, cometo o erro terrível de colocar no mesmo saco, ou seja, na mesma frase e de modo equalizador, filmes como “Sempre ao seu lado” e a feiurinha da Xuxa. Aí já não estou mais no erro de estilo, mas no tropeço do resumo forçado. Isto é, tenho de dizer para o dono do jornal que não trabalhei só um dia, mas que assisti muito outros filmes, então, numa frase só eu embrulho três filmes para dar a impressão que vi todos e pincei um. Essa ânsia de escrever para o dono do jornal, de modo burocrático, e não para o leitor, gera o monstrengo do destaque acima. Há dezenas de outros exemplos desses dois problemas em outros textos dos grandes jornais. Peguei o do Bruno porque ele reunia no mesmo texto dois dos problemas que queria comentar.

Leia mais…

O braço armado do CQC

2009 dezembro 22
por Paulo Ghiraldelli Jr.

Há um número grande de jovens fascinados com a TV para além do que já se teve no passado recente. Para eles, o senso comum dos mais altamente escolarizados, que é a crítica da TV como veículo ideológico, não faz sentido.  O que alunos de ciências sociais e de grupos do pensamento de esquerda advogam, a saber, a idéia de que as TVs fazem quase que uma “lavagem cerebral” em muitos de nós, não é sequer vislumbrada pelos jovens. Claro que esses jovens não dizem que os programas não influenciam as pessoas, mas eles estão bem longe de imaginar o que, por outro lado, já se tornou pouco útil, que é o julgamento da TV como um órgão da ditadura do gosto e da reiteração do senso comum.

Leia mais…

O que é adultério?

2009 dezembro 14

1975Os homens ainda traem mais que as mulheres, mas as estatísticas estão caminhando para uma situação igualitária de maneira rápida. Além disso, o número de pessoas que traem também cresce de modo contínuo e veloz. Não tardará o dia em que todos nós, ao menos uma vez, não só será corno (ou corna), mas saberá disso de modo bem claro. E isso não em situações de namoro ou casamentos pouco sugestivos, mas mesmo em casamentos promissores ou efetivamente duradouros.

Leia mais…

O Vale-Namoro

2009 dezembro 11
por Paulo Ghiraldelli Jr.

O Senador Mário Couto (PSDB-PA) é um entre os que se insurgiram contra o “vale cultura”. No discurso contra o governo disse que do modo que iam as coisas logo o governo daria a “bolsa-namorada”. Não acho que o governo de Lula tenha cogitado isso, mas, pensando bem, o Senador deu uma boa idéia.

Vários governos, no mundo todo, têm criado incentivos que à primeira vista parecem esquisitos, mas que logo se mostram úteis. Devido ao aumento populacional a China já fez uso de inúmeras maneiras de desmotivar os casais a terem filhos ou mesmo de aumentar a idade das uniões. Já chegou a dar rádio portátil e guarda-chuvas para homens que fizessem operações para não terem mais filhos. O Canadá, ao contrário, tem inventado várias estratégias para se conseguir o aumento populacional, até mesmo a idéia de importação de casais com propensão a terem filhos e ficarem no país. Há também o programa de incentivo para o namoro pela Internet, com vantagens para quem vier encontrar seu parceiro no Canadá e ali iniciar um relacionamento mais sério.

Leia mais…

Playboy é cultura, mas Dimenstein, certamente, não é.

2009 dezembro 7
por Paulo Ghiraldelli Jr.

Maria ZildaO governo Lula quer fazer o chamado “vale cultura”. Um dinheiro a mais na bolsa das pessoas, especial para a compra de revistas, CDs, jornais etc. O governo ficou contente com o aquecimento do mercado via bolsas e, então, imagina que pode continuar nessa linha. Tentando obstruir essa linha de atuação que, enfim, por populismo ou não, dá êxitos ao governo, a oposição busca argumentos técnicos. Aparece em cena, então, a questão de se saber “o que é cultura”. Para se dar o “vale-cultura”, dizem os oposicionistas, nós devemos dizer ao governo (e talvez ao povo), o que é cultura. Um jornalista da Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein, preocupadíssimo em saber se a revista Playboy vai ou não poder ser comprada pela ajuda governamental ao cidadão, lançou a frase “mulher pelada não é cultura”. Junto com isso, de subproduto, atacou também o que chamou de “gibis” (ele não usou, parece que propositalmente, o nome HQ), que também não seriam cultura.

Leia mais…

A vida sexual do operário Lula

2009 novembro 30

Uma determinada tradição em filosofia começa com o “conhece a ti mesmo”. Antes de Sócrates trazê-la para o campo da filosofia, esta frase havia ficado por anos somente como uma das expressões inscritas no Templo de Apolo. Os filósofos, até então, estavam antes preocupados em olhar para o cosmos que para a vida humana na cidade. A preocupação com o ethos – os costumes e comportamentos – era caudatária de uma visão cosmológica. Sócrates se decepcionou com esse tipo de investigação, abandonando o que teria aprendido de Anaxágoras. Levando muito a sério o que as divindades diziam, fez da inscrição posta no interior do espaço ocupado pelo Oráculo de Delfos um guia para o seu filosofar. A partir daí, ainda que Aristóteles e outros tenham recriado a fusão entre física, metafísica e moral, a diretriz de Sócrates nunca mais deixou de ecoar pelo Ocidente. Cícero comemorou esse feito socrático dizendo que a Mosca de Atenas havia trazido a filosofia dos céus à terra.

Leia mais…

O garoto que fugia da filosofia

2009 novembro 28
por Paulo Ghiraldelli Jr.

 

Quando eu era criança me veio o temor de eu não enxergar a mesma cor, que eu denominava verde, que a cor que outros denominavam também de verde.  Dávamos o adjetivo “ verde” a um objeto que tinha a cor verde. Concordávamos: aquilo que apontávamos era verde. Mas, será que o “meu verde” era o mesmo que o “verde do outro”? Eu era um filósofo e não sabia. Eu cresci um pouco e achei que perguntas desse tipo não eram sérias, e que era coisa de criança. Quis largar a filosofia, e isso antes mesmo de chegar à adolescência.

Leia mais…

Amor e sexo

2009 novembro 27
por Paulo Ghiraldelli Jr.

“Amor é isto, sexo é aquilo”. Rita Lee acerta em cheio quando canta esse tipo de coisa. Amor é isto aqui, o que eu faço, mas o sexo é aquilo lá, o que eles fazem. Mesmo os de conduta mais aberta, não raro, acabam por utilizar de uma frase como esta. No entanto, na mesma música, Rita Lee diz que “amor sem sexo é amizade”. Amor é o que eu faço, sexo é o que o outro faz e, no entanto, se eu amar e não fizer sexo nunca poderei dizer que amei, sempre terei de dizer que desenvolvi uma boa amizade. Abre-se aí, em nossa sociedade, um canal para a infelicidade e para a perversa jocosidade. Os que são só capazes de amizade, nunca de amor, são tidos como infelizes e, ao se apresentarem como insatisfeitos sexuais ou mesmo frígidos, são objetos de piada.

Leia mais…

O apagão do ensino médio

2009 novembro 24
por Paulo Ghiraldelli Jr.

Já não chamam mais o professor da escola média de professor. No Brasil, quando a imprensa fala de professor, já se pressupõe no texto o professor universitário. A semântica cria o mundo, é certo, mas a semântica do dinheiro cria as terminologias em alta ou baixa, e também isso é algo que certamente acontece. Falta salário digno para os professores e essa situação não se resolveu nos últimos 15 anos, com os presidentes Fernando Henrique e com Lula. Ao contrário, é uma situação que só piora.

Leia mais…

O caso Geisy-Janine no ar

2009 novembro 20
por Paulo Ghiraldelli Jr.

Todos nós sabemos que o ensino da Uniban deixa a desejar em várias de suas unidades, e que é bem ruim em outras. Caso não soubéssemos isso, os RHs de todas as empresas estariam procurando formados vindos de lá. Mas, não é o caso, a ordem velada ou mesmo escancarada sempre foi a de não pegar profissionais ali formados.

Todos nós sabemos que Geisy não estava com um “micro-vestido” no dia da agressão. Sabemos bem por uma coisa simples: mesmo sentada, nas fotos que apareceu, o vestido não passava muito dos joelhos. E mais: Geisy tirou várias fotos, que saíram em capas de revistas, com o mesmo vestido, e realmente nem chegava a ser uma mini-saia. Leia mais…

Olgária Matos e a aurora dos criadores

2009 novembro 19

Em uma fita italiana dos anos 70 há uma cena em que os alunos universitários estão discutindo sobre o que o professor deveria lhes ensinar. O velho professor chega e, vendo aquilo, se reúne com eles e passa a participar da discussão. Eles não chegam a consenso algum e terminam por devolver ao professor o comando da classe. O professor, então, retoma seu lugar junto à lousa e diante de todos, anuncia: ‘Estou aqui para ensinar a vocês a beleza de um verso de Petrarca’.

Leia mais…

Collor foi o inventor do twitter de José Serra

2009 novembro 7
por Paulo Ghiraldelli Jr.

twitandoOs partidos são elementos próprios das democracias. Os populistas e os tiranos, tanto na esquerda quanto na direita políticas, odeiam os partidos. Eles fazem tudo para eliminar os partidos, pois estes obrigam as coisas a funcionarem por discussões, acordos, comissões e negociações. Os populistas e tiranos, se puderem, encerram os partidos. Caso não possam, tentam mantê-los sob seu domínio completo. A idéia do populista e do tirano é falar diretamente com “o povo”. Ele e o “povo” são irmãos, e o resto é interferência que “retarda” as realizações “necessárias para a nação”.

Leia mais…

O “conhece a ti mesmo” e o pecado original do filósofo

2009 novembro 6
por Paulo Ghiraldelli Jr.

nb_pinacoteca_daumier_socrates_and_aspasia“Você viu isso com seus próprios olhos?” – a toda hora fazemos cobranças desse tipo, quando as pessoas falam de coisas, situações e acontecimentos que temos dificuldade em acreditar.  Damos uma enorme importância para o testemunho direto dos sentidos e, em especial, ao da visão. O olho é o privilegiado. Uma boa parte das metáforas que usamos na nossa linguagem são metáforas visuais ou ligadas ao olho. Falamos em “visão” para concepção ou para perspectiva. Falamos em “um olhar” para um tipo de interpretação. Ficamos muito satisfeitos quando o testemunho é direto dos olhos e, se usamos algum aparelho, é para potencializar os sentidos. Desse modo nos agarramos a microscópios e telescópios.

Leia mais…

Você é um candidato a fascista?

2009 novembro 5

1958. Hanna Schmitz (Kate Winslet) volta para casa após mais um dia exaustivo de trabalho. Caminha rápido pelo escuro corredor que dá para a escada de sua kitnet, mas não sem perceber que havia pisado em uma poça de vômito. Ela se volta e localiza em um banco, no corredor, um adolescente que ali havia parado por se sentir mal no caminho entre a escola e sua casa. Hanna limpa o chão e, em seguida, o acolhe. Cuida dele. O garoto, meses após, ao melhorar de saúde, volta ao local para agradecer. Ele é Michael Berg (Ralph Finnes), um bom menino de classe média alta, culto, e inicia com Hanna um romance de verão. Algo fantástico e sedutor para ele, uma vez que Hanna não é só uma linda mulher, mas é também mais velha. O que Hanna mais gosta é de sexo e de ouvir Michael ler livros para ela. Uma vez com ela, Michael ganha confiança em todas as suas atividades – torna-se “o homem” rapidamente. Hanna é mais velha, sim, mas, para ele, tem a sensibilidade de uma criança. Todavia, um dia após uma promoção no serviço de ajudante de cobrador em uma companhia de bonde, Hanna desaparece sem deixar aviso. Este é o resumo esquemático e grosseiro da primeira metade de The Reader[1].

Leia mais…

Da (falta de) etiqueta de Deus

2009 novembro 2
por Paulo Ghiraldelli Jr.

god“Quando um burro fala o outro murcha a orelha” – esta era a forma pela qual meu avô, um bom rábula, tentava reforçar o a admoestação de minha mãe sobre a minha conversação na mesa do jantar. Ela dizia: “quieto que seu avô está conversando com seu pai, não interrompa”. Meu pai nada dizia. Mas meu avô, para me dar atenção e, ao mesmo tempo, poder retomar a conversa com genro, utilizava desse expediente. Não era para que eu abaixasse a orelha como um burro isolado, solitário, mas sim acompanhado por ele mesmo, que se punha como um igual a mim na condição de burro. Eu era tão pequeno que não entendia direito a brincadeira dele, mas ela funcionava. Anos mais tarde tentei isso com meus filhos. Devo ter feito algo errado ou, talvez, aquilo só pudesse funcionar dentro do triângulo eu-mãe-avô, pois com meus filhos as coisas foram muito diferentes.

Leia mais…