CÉREBROS IRRECUPERÁVEIS?
“Não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”. Durante muito tempo essa frase valeu tanto no seu sentido jocoso ou meramente expressivo quanto, às vezes (ainda que raramente), em um sentido literal. No Brasil de hoje, dado o fracasso do ensino médio associado ao avanço das religiões sem tradição histórica, isso se perdeu. A juventude de hoje não vê nada engraçado na frase. Não são poucos universitários que não sabem dizer o que indica a palavra “milagre” ou o que realmente diz a palavra “mágica”.
Não é difícil encontrar hoje um jovem que faz o curso de filosofia (até mesmo em uma boa universidade!) e que não sabe as três leis de Newton. Alguns também não sabem dizer quantos satélites Marte possui. Outros não sabem mostrar que figura poderia aparecer num gráfico cartesiano a partir da função f(x) = x-1. A cultura científica básica, que deveria ser adquirida no ensino médio, não lhes é comum. E o pior: eles não podem entender filosofia por uma razão simples; pela falta de cultura do ensino médio, não são poucos os que não sabem o que é uma relação causal e uma relação racional. Explicar Hume para eles? Nem pensar! Quine e Davidson? Só um professor maluco tentaria (ai de mim!).
A ditadura do amor
As ditaduras são vistas como regimes de ódio. Mas a pior ditadura é a ditadura do amor. Entre as ditaduras do amor, a mais perversa é a que abocanha a mulher, condenada a amar sua prole.
Uma mulher que cai na prisão por qualquer crime só é unanimemente molestada pelas outras caso sua falta seja a de abandonar um filho. Jogadas ao azar da vida, as mulheres na prisão, barbarizadas, enxergam que devem fazer justiça com as próprias mãos se uma outra mulher não cumprir sua “função de mãe”. A sociedade fora das grades faz a mesma coisa. A mãe que mostra qualquer gesto visto como o do não-amor ao filho só tem equivalente em monstruosidade ao homem que é acusado de pedofilia. Essa moral das cavernas é reproduzida no lar, na manicure, no trabalho e na universidade. A mulher pode não mais saber cozinhar e pode falar com gosto que “cuidar do marido” é coisa do passado. Mas, ser mãe e amar os filhos, ou ela faz isso e, mais importante, diz que faz, ou será posta para escanteio. A mulher não perdoa a mulher por não viver a ditadura do amor à prole.
Professor, teacher e coach
Para os colegas e alunos da Pedagogia e Licenciaturas da UFRRJ
O professor professa. Talvez este seja o grande problema técnico do campo de formação de professores no Brasil. Professar é fazer profissão de, é declarar. Eis aí o drama da língua portuguesa. Nossos mestres professam. Eles têm de professar – são professores. Ora, não se pode negar que a origem do professar tem a ver com os primeiros cristãos: os que professavam a fé em público, os que declaravam publicamente terem determinadas crenças. Essa situação tinha, sim, a ver com ensinar. Quem declarava sua fé em público, ou seja, dava o testemunho da fé, podia então ensinar a outros do que se tratava ser cristão. Declarar é uma forma de contar, de ensinar. Ensinar é declarar.
O interessante é que no mundo de língua inglesa, o professor é apenas o professor universitário, o que lida com adultos. Quem lida com crianças e jovens não é o professor, e sim o teacher.
A Devassa na boca do professor de Ética
Felizmente os professores de ética atuais não são os filósofos éticos gregos que, com seu comportamento, faziam a filosofia se espraiar e criavam discípulos. Caso fossem, correríamos o risco de ver não só um grupo de estudantes de filosofia saindo às ruas contra a cerveja, mas, talvez, todo um partido de militantes dessa nova postura ascética. Então, uma boa parte da indústria de bebidas entraria em colapso, causando desemprego. Talvez fosse a revolução anti-capitalista, tão esperada por alguns!
Esses estudantes seriam os discípulos do professor de ética Renato Janine Ribeiro. Para comentar a proibição da propaganda da cerveja Devassa, ele iniciou fazendo profissão de fé na sua aptidão para o gosto sofisticado quanto à bebida e ao sexo. Ele poderia ter iniciado seu texto falando da proibição, mas não, ele precisou, antes, falar de como perdeu o gosto, de uma vez, pela cerveja Devassa, quando a viu associada ao nome de uma atriz pornô. Cito a passagem que, confesso, achei um tanto engraçada:
“Provei a cerveja Devassa num dia no aeroporto. Mas, quando vi na TV sua propaganda com uma norte-americana rica que deve a fama a um vídeo pornô que circulou na internet, achei de mau gosto e perdi a simpatia pela bebida. Ponto. Agora, quando o Conar retirou a propaganda do ar, vale a pena discutir um pouco o assunto”. (Folha de S. Paulo, 07/03/2010)
Cota racial é política, cota social é esmola
A pior defesa que conheço das cotas para negros e índios na Universidade brasileira é a dos que dizem que isso se insere em uma política educacional de compensação. Em geral, essa defesa é feita pela esquerda. O ataque mais perverso que conheço contra as cotas raciais é o dos que dizem que defendem, ao invés destas, as cotas sociais. Em geral esse ataque é o da direita, em especial o que é dito pelos parlamentares do PSDB e DEM.
Cota racial advém de uma política contemporânea, em geral de cunho social-democrata ou, para usar a terminologia americana, mais apropriada ao caso, liberal. A cota social é esmola, tem o mesmo cheiro da ação de reis e padres da Idade Média, e aparece no estado moderno travestida de política.
A Culpa é do Corpo
Quando Descartes montou sua metafísica, distinguiu o que chamou de corpóreo, o que ocupa espaço, do que chamou de pensamento, o que não ocupa espaço. Instituiu o que os historiadores da filosofia chamam de “dualidade cartesiana” de corpo e mente. Uma das noções metafísicas de substância, vinda de Aristóteles, era a de “sujeito de predicados”. Os filósofo modernos uniram isso: se a substância é sujeito de predicados e uma das substâncias é o pensamento, lhes pareceu mais ou menos correto dizer que o sujeito é o pensamento. Daí para dizer que a mente e o sujeito são uma e mesma coisa, bastava menos que um passo. Foi assim que a noção de identidade individual se fez. O sujeito filosófico ou, em termos sócio-políticos, o indivíduo, passou a ser caracterizado pelos seus pensamentos – o que se expressa na sua linguagem e atos.
Feios, gordos, dessexualizados e infelizes
“Quem ama
o feio, bonito lhe parece”. Sim, mas o difícil é amar o feio. Arthur Danto tem insistido que a arte não se relaciona mais com o belo. Talvez até ocorra o contrário, há objetos em galerias que visam arrancar todo tipo de expressão dos visitantes, menos a de prazer com belo. Umberto Eco, diferentemente, acredita que há, sim, um belo em nosso tempo, mas que não está mais na arte e sim na mídia, algo voltado para o que ele chama de “consumo”.
Hoje, mais do que em qualquer outra época, o que consideramos belo está profundamente ligado a nós mesmos. Nossa cultura atual é narcísica – certamente! Mas não devemos notar isso para colocar dedos em riste. É bom aqui apenas tomar distância tendo consciência histórica. O narcisismo é apenas o desdobramento do processo, marcadamente moderno, de surgimento do sujeito como peça importante de nossos discursos e de culto do indivíduo como elemento produtor e produto da política – exatamente uma das facetas da boa doutrina liberal. Isto tem empurrado o belo na direção de nós mesmos. É tão verdade isso que quando falamos em belo, para a maioria de nós, não vem à mente algo como uma obra arquitetônica ou uma paisagem, mas a figura do corpo humano. Aliás, nem mesmo o corpo humano representado no mundo das artes plásticas, mas o corpo, em nosso imaginário, como já se apresenta no mundo da mídia. Um mundo que se funde, é claro, com o mundo do consumo estratificado.
Direita ou esquerda?
Direita ou
esquerda? Há quem diga que nem uma nem outra posição é válida agora. Todavia, essa posição para além da divisão clássica não existe. As pessoas se comportam de determinado modo na política e, enfim, isso é facilmente identificável como direita e esquerda, bem mais hoje do que há dez anos.
A direita e a esquerda democráticas respondem a ideais postos na Revolução Francesa, os de igualdade, liberdade e fraternidade. Ambos concordam em tese com a fraternidade, mas divergem sobre igualdade e liberdade. Na tradição européia, que ainda é a nossa, apesar de nossa crescente tendência ao bipartidarismo que lembra os Estados Unidos, a direita diz que a igualdade que a esquerda prega precisa demais da ação do Estado e, por isso, vai terminar por sufocar as liberdades individuais. A esquerda retruca que a liberdade que a direita quer é retórica, pois ninguém consegue ser realmente livre em uma sociedade em que a distância social é excessiva.
Jabor no terremoto do preconceito
Transformar a linguagem é mudar o mundo – sabemos disso. Desde sempre trabalhamos sob essa perspectiva. Talvez isso tenha começado desde o momento que, ainda peludos e em cavernas, balbuciamos os primeiros sons comunicativos. Todavia, só ao final do século XIX e principalmente no século XX ganhamos a consciência desse nosso poder. Foi só então que fizemos a guerra semântica vir propositalmente adiante de qualquer outro tipo de ação. Falar de modo “politicamente correto” se tornou, ao final do século XX, algo importante em todo o Ocidente.
Nos Estados Unidos o “politicamente correto” se espraiou de tal modo e se ampliou de tal maneira que logo provocou a reação – às vezes correta – dos mais conservadores. Alguns conservadores mais inteligentes combateram o “politicamente correto” por meio do humor. Ao final, até mesmo a esquerda mais liberal aderiu. Foi o tempo dos engraçados “contos de fadas politicamente corretos”, em que o Lobo Mau tinha de ser chamado de “Animal de Instintos Excessivamente Unidirecionados” e o Pinóquio não podia ser adjetivado de mentiroso e, sim, de “Sujeito Propenso à Conduta Anti-social” e assim por diante. Todavia, a reação não venceu. Ela foi batida pelas novas leis que foram incorporando o “politicamente correto”. Esse debate está bem minguado nos Estados Unidos. Trinta anos depois, ele esquenta nossa imprensa.



