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As Idéias Pedagógicas historiadas por Saviani

09/02/2008

 O veterano estudioso da educação brasileira, Dermeval Saviani, termina seu massudo e informativo livro História das Idéias Pedagógicas no Brasil (Campinas: Autores Associados, 2007, 473 páginas) concluindo que os professores e as escolas no Brasil do início do novo milênio estão sob a cobertura do que denomina de “concepção neoprodutivista” em educação. Os professores estariam sendo incentivados a um trabalho máximo com salários bem diminutos. Os “dirigentes esperam que o professor exerça um conjunto de funções com o máximo de produtividade e o mínimo de dispêndio, isto é, com modestos salários”.[1] Isso é verdade? 

Meia verdade. Ou, melhor dizendo, uma verdade no âmbito da superfície. O que faz SavianiSaviani aderir a essa exposição ainda é o seu marxismo. Acostumado à idéia de ligar movimentos da economia, representados pela produção de teses a respeito da organização do trabalho e da sociedade como um todo, ao aparecimento de determinadas concepções pedagógicas, Saviani desemboca em uma conclusão pré-anunciado.  Pela sua conclusão, a pedagogia vigente no Brasil funcionaria como uma expressão das formas reelaboradas da “Teoria do Capital Humano”, que comandou a visão sobre administração de empresas nos anos setenta e oitenta.  

Não vejo os períodos dos governos FHC e Lula como em continuidade, como Saviani.[2] Muito menos os tomo como alimentados, no plano das idéias em pedagogia, como a época de vigência do que seria uma diretriz voltada para a produtividade da escola e do professor – seja esta produtividade séria ou apenas requisição vazia. Saviani liga produtividade à “pedagogia da qualidade total”[3], o que em parte é correto, mas ao imaginar que é isso que vigora nas escolas ou mesmo na cabeça dos dirigentes de ensino de vários níveis, mostra que seu estudo, ao final, descola do material empírico à nossa disposição atualmente.

O movimento da “qualidade total” atingiu poucas escolas, quando muito particulares, e não se espraiou pelas escolas públicas de modo a se tornar uma pedagogia capaz de realmente ser uma boa candidata para cair nas graças do professorado. Além disso, não é verdade que exista uma efetiva exigência por parte dos dirigentes da educação brasileira, em alguma etapa do período democrático aqui analisado, isto é, entre 1985 e 2008, no sentido de tornar a escola “produtiva”. Ao contrário, ideais de busca de rendimento escolar foram abafados pela vigência de teorias e práticas que apenas querem manter as crianças na escola, estando tais crianças aprendendo algo ou não. Tais práticas determinaram no estado mais rico da Federação, São Paulo, um longo período de vigência da idéia da “progressão continuada”, uma política educacional levada adiante por parte do PSDB.

Na prática, a “progressão continuada” fez valer a “aprovação automática” de alunos de uma série para outra, com ou sem “produtividade”, tendo ou não aprendido algo. Não foram poucos os que disseram – com alguma razão – que tal falha não era só um problema de prática, mas de concepção, pois, no limite, é fácil ver que tal política, sem o apoio necessário, iria favorecer apenas a maquiagem de resultados estatísticos. Os dados apresentados seriam o de contenção da evasão escolar, não de aprendizado. Foi o que ocorreu. Aliás, no Brasil todo – e não só em São Paulo – a alfabetização passou a ser desenvolvida em mais anos do que era o corriqueiro até mesmo para crianças pobres que, em princípio, requisitariam mais tempo de aprendizado. E isso não pela razão do conteúdo da alfabetização ter se tornado mais rico, mas simplesmente pelo fato de que os professores foram incentivados à manutenção da criança no local físico da escola “a qualquer preço”.

Saviani não deu atenção a este fato. Seu trabalho diz chegar até 2001, então, formalmente ele está realmente fora do período em que o debate sobre o programa da “progressão continuada” mobilizou muitos educadores. Todavia, a influência do programa não lhe poderia ser estranha, uma vez que a própria LDBN de 1996 volta-se para tal.

Quando da crítica de José Serra (PSDB), então candidato ao governo do Estado de São Paulo em 2006, ao programa de “progressão continuada”, que havia sido implantado pelo governo do partido dele, a reação de vários professores universitários foi esquisita. Alguns deles, do PT, foram para a imprensa defender o programa, dizendo que a sociedade não o havia compreendido. A “progressão continuada” seria tudo, menos automatismo na aprovação. Ora, mas qual a razão de terem ficado quietos durante tanto tempo, enquanto o ensino se deteriorava aos olhos de todos? Na verdade, muitos desses professores universitários, inclusive os ligados ao PT, tinham algum apreço pela política educacional do PSDB em relação a tal questão. Em São Paulo, essa política veio pelas mãos do governo de Mario Covas (PSDB) e foi transmitida a Geraldo Alckmin (PSDB). Talvez Serra a tenha rechaçado apenas para ganhar votos. Mas, o que importa aqui, é notar que vários professores da Faculdade de Educação da USP quiseram repreender a população, dizendo que esta não havia entendido a essência do programa. O fato de não terem, antes, repreendido o governo, já que era o caso de assim agir, pois disseram que o problema foi “na prática” (na falta de recursos), mostra o quanto o programa havia conquistado esses professores universitários. Fosse ou não esse programa apenas facilitador da manutenção da criança na escola, ele contava positivamente na mentalidade dos que lêem livros de pedagogia – e até os escrevem.[4]

Outro ponto a ser repensado no livro de Saviani: também não é verdade completa que, em conjunto com a tal “pedagogia da produtividade”, haveria o predomínio, ao longo dos anos noventa e no início do século, do ideário escolanovista. A implicância de Saviani com as doutrinas da Escola Nova e sua insistência em tomar tal movimento apenas por slogans captáveis aqui e ali, novamente criam uma verdade de superfície.

Todos nós temos apreço por um slogan do ideário da Escola Nova que é o “aprender a aprender”. Quem conseguiria dizer que não é válido? Isso não indica que o ideário da Escola Nova perdure, e que o que fazemos é, sempre, apenas reformulá-lo, mantendo sua hegemonia enquanto ideário. Seria preciso muito mais que isso para falar em escolanovismo no Brasil como sendo uma pedagogia com muitos adeptos.

O crescimento da literatura piagetiana no setor educacional, rebatizada de “construtivismo”, seria uma prova da vigência do escolanovismo, como quer Saviani?[5] Até poderia ser, mas do modo como ele faz, há exageros. É possível perceber que tal literatura cresceu por outras razões, que tem pouco a ver com a filosofia da educação. Sabemos que a educação moderna e contemporânea é menos herdeira da filosofia do que da psicologia, e o debate “Piaget versus Vigotsky”, em todos os lugares, foi altamente psicologizante. E foi pela introdução desse debate que o construtivismo fincou pé no Brasil, ao menos na literatura pedagógica. Tal debate esteve sempre muito distante do escolanovismo. O ideário da Escola Nova foi um ideário ligado principalmente aos trabalhos de John Dewey e, no Brasil, ao legado de Anísio Teixeira. A ênfase era na democracia fora e dentro da escola. Ora, a democracia no âmbito do debate “Piaget versus Vigotsky” nunca foi um tema importante (aliás, de modo estranho, Saviani em uma passagem rápida diz que sua pedagogia está articulada à doutrina de Vigotsky.[6] Isso eu não sabia, e imagino que se é verdade, é um retrocesso, uma perda para a filosofia da educação).

Assim, essa tendência em esgarçar o termo escolanovismo já era um problema nos trabalhos anteriores de Saviani, e então, no novo livro, isso se repete. Tudo vira escolanovismo e, se reclamamos, ele apenas altera o termo para “neoescolanovismo”, sem dar a devida atenção ao que é central e o que é periférico no escolanovismo. Descuidando desse detalhe, e então desconsiderando o centro do escolanovismo, o uso do “neo” não pode ser aplicado.

Claro que posso defender o ponto de vista de Saviani quando reduzo o escolanovismo, para então chamá-lo de “neo”, a alguns preceitos didáticos tirados de livros que se dizem baseados em Piaget. Mas, nesse caso, há mais uma “história da didática” do que uma história das “idéias pedagógicas no Brasil”. É essa a intenção? Ora, não no início do livro e, é claro, no título. Em alguns capítulos iniciais Saviani parece querer se fixar no campo tradicional de um historiador das idéias gerais em educação. Mas, ao criar “neos”, ele realmente faz a didática dar diretriz ao “pensamento pedagógico” – ora, não é o caso. Nem mesmo Piaget, que atuou como psicólogo, quando escreveu sobre pedagogia desconsiderou que o escolanovismo era, antes de tudo, uma proposta centrada na democracia fora e dentro da escola. Ou seja, Piaget também enfatizou o ideário escolanovista como uma proposta política – a da política democrática – e não um conjunto de procedimentos “para dar aula”.

Outros levariam a crítica ao livro para o campo metodológico da história. Por exemplo, Saviani oscila entre fontes secundárias, terciárias e primárias sem dizer ao leitor como pode caminhar dessa maneira. Em geral, quando escrevemos um livro “para-didático”, realmente usamos fontes secundárias e, em alguns momentos, quando a literatura existente não fornece boas pistas ou é mesmo insuficiente, avançamos para as fontes primárias. No entanto, pelo tipo de enfoque que Saviani deu ao texto e, inclusive, pelas suas explicações iniciais, o livro não tinha pretensões paradidáticas e, sim, o de ser um trabalho pioneiro e inédito. Mas não é. Em alguns lugares Saviani requentou textos de outra época. Isso não é um pecado. Todavia, o não-requentado nem sempre se harmoniza com o novo e com o requentado. Os capítulos sobre Lauro de Oliveira Lima e Paulo Freire parecem enfiados ali a fórceps, quase que como uma obrigação. Teria sido uma obrigação vinda da literatura dos manuais existentes, que, ao contrário dos textos de Saviani, não deram tão pouca importância a esses educadores como ele nos seus escritos dos anos 80?

Senti também um incômodo ao ver que Saviani escreveu de forma um pouco medrosa, digamos assim. Ou melhor, de forma polida demais para um historiador. Em determinados momentos ele omitiu críticas a José Mario Pires Azanha; e o silenciou fez barulho! Ficou esquisito aquilo. Azanha havia escrito em um de seus últimos livros duas ou três páginas colocando a “dialética de Saviani” como uma forma confusa de pensar – um erro. Ora, Saviani pula essas páginas do livro de Azanha e, então, de um modo superficial, luta desesperadamente para encontrar ao menos um fio de concordância e, dali, tece sua redação. Teria Saviani algo contra a crítica aos mortos? Ora, mas não é com bons modos que um historiador chega à verdade. Trabalhos historiográficos em que bons modos abafam a investigação estão mais para o equívoco do que para o bom senso.

O que leva o leitor a ficar um pouco cansado, às vezes, é que em vários trechos, quando esperamos de Saviani uma novidade, ele retoma velhos textos e repete argumentos em demasia, já expostos em outros livros. Tudo bem, isso poderia ser um mérito, caso a interpretação da história não tivesse sido modificada. A sensação que um leitor como eu tem é que, neste aspecto, Saviani acabou sendo atropelado pela profissão de acadêmico. Ou seja, tendo nas mãos teses de seus ex-alunos de mestrado e doutorado, ele alinhavou essas teses e lhes deu um contorno historiográfico geral, mas não ficou atento para o fato de que em outros lugares e, inclusive, fora da academia, outras teses foram produzidas. Parece que Saviani não notou que, desta vez, ao escrever esse novo livro, ele não podia usar o procedimento de quando era professor na PUC-SP. Naquela época, é fato, o que se fazia ali na PUC era algo  “de ponta”. E isso para o mal e para o bem. Ora, o que se faz na Unicamp, por melhor que seja, não é único e exclusivo. Outros centros produziram textos básicos.  Tudo se passar como se Saviani não tivesse se preocupado em abrir arquivos ou verificar bibliotecas. Ele manteve a idéia, que obteve êxito na década de oitenta, de ficar com aquilo que caía às suas mãos por dever de ofício. E só. E isso realmente enfraqueceu o texto em determinadas partes, e o colocou em desacerto consigo mesmo em outras. Penso que valer a pena Saviani recuperar o fôlego e reelaborar essas partes “com pontas” para uma nova edição do livro.

Esses problemas apontados, que são somente os que cabem aqui, não tiram o mérito do livro ode Saviani – é claro. O livro era necessário e, como de outras vezes, penso eu (posso estar enganado!) minha crítica serviu para ele refazer alguns pontos de sua compreensão geral da educação – como é o caso da parte em que ele tenta ser mais detalhado nas relações entre “filosofia analítica” e “tecnicismo” –, imagino que posso novamente colaborar nesse projeto que, há muitos anos, Saviani vem trabalhando. Em muitas situações, inclusive, ele e eu temos trabalhado como a onça e a raposa: temos construído uma mesma casa em turnos diferentes, e nem sempre sabemos qual de nós realmente fez as paredes da cozinha ou da sala. Aliás, ainda este semestre, tenho a promessa para a Ática de um livro que exponha exatamente o período em que Saviani deixou de lado, que são os anos mais recentes e alguns anos abordados por ele. É o livro que vai enfocar o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), de Fernando Haddad. E aí será a vez de Saviani tecer as criticas.

Paulo Ghiraldelli Jr. – o filósofo da cidade de São Paulo – pgjr23@gmail.com


[1] Saviani, D. História das idéias pedagógicas no Brasil. São Paulo: Autores Associados, 2007, p. 448.

[2] Conclusão que Saviani chega ao final do seu livro: pag. 449.

[3] Idem, ibidem, pp.423-40.

[4] Uma entrevista de um professor da Faculdade de Educação da USP, Vitor Paro, mostra essa tentativa de defender a “progressão continuada” – apenas um exemplo de uma “gritaria geral” não dos professores e pais, mas dos que estão em cursos de pós-graduação em educação e ministram aulas em cursos de pedagogia no Brasil. <http://www.forumeducacao.hpg.ig.com.br/vamos/vamos.htm&gt;

[5] Idem, ibidem, pp. 429-32.

[6] Idem, ibidem, p. 419.

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  1. susigan permalink
    15/02/2008 3:17

    obrigado professor pelas explicações VIdeos, mesmo que alguns em sua palvra parece m tanto quanto sombrios e ou parados, acho que pode desenvolver muito mais , algo bom que pode vir a melhorar ainda mais.

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