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O Gostoso do Estupro

25/06/2008

Coloquei na net um vídeo com uma cena anunciada de estupro. Seria uma cena em que o próprio estuprador teria filmado. O título: Estupro: cenas reais . O subtítulo: “Chocantes cenas feitas no local”.  Mesmo alojado em um lugar que não indica sexo ou notícias escandalosas, o vídeo atingiu mais de 22 mil visitas em pouco mais de dois meses. Outros vídeos com matérias chamativas, que inclusive foram noticiadas pela grande imprensa, não chegaram nem à metade em tão pouco tempo. Não é sexo que “dá ibope”. O sexo com violência, sim. Ou melhor, a violência é que “dá ibope”. Qual a razão disso?

Você pode simplesmente dizer: “gosto de sexo e, se vem com violência, melhor ainda”. Sexo e aventura? Uma fórmula infalível quando se trata de chamar a atenção? Só isso?

Diferentemente das ciências e, mais ainda, da religião, a filosofia tem uma via própria para abordar o caso. Uma das vias da filosofia é a chamada “abordagem da modernidade”. Todavia, cuidado! “Modernidade” é uma palavra que tem de ser entendida aqui no sentido que Foucault comentou Kant, quando este falou do Iluminismo; a idéia foucaultiana de que Kant viu a modernidade não como uma época, mas como uma disposição comportamental. Ser moderno não é viver nos “tempos modernos”, mas é adotar um determinado modo de pensar e agir. Nisso, a filosofia funciona não de modo a-histórico, mas trans-histórico. Podemos ver modernidade em Sócrates e não vê-la em Lênin, por exemplo. No assunto em questão, a “modernidade” se abre com uma disposição clara: o tédio.

O tédio é um parente próximo do niilismo? Seria, então, um inimigo de Nietzsche? De certo modo, sim. Mas o tédio que comento é ligado ao que Adorno chamou de “apatia burguesa”, ou seja, aquela maneira de ser que não vê mais nada que possa ser admirado. Nada é para se espantar. No limite, essa apatia burguesa é aquela que se instaura em situações totalitárias modernas – o nazismo e o comunismo conheceram situações assim. O marasmo, a falta de ar, o sufoco sentido e não assumido. O dia-a-dia pesado – todos os ingredientes que aqueles que viveram na Alemanha nazista e na URSS souberam bem o que era. Não é a opressão. Não é o peso da polícia política. É apenas a idéia de que “o mundo é assim-e-assim”. As sociedades modernas, mesmo as sociedades democratas que colocam tudo em movimento, ainda carregam um pouco do tédio, do marasmo. Em alguns casos, elas podem ser tão entediantes quanto as sociedades totalitárias. O tédio é a anti-filosofia.

Foi dessa aproximação do totalitarismo com sociedades de democracia de massas que Adorno e Horkheimer tiraram a idéia de que a modernidade é algo amplo, trans-histórico, e que a sociedade moderna, esteja ela sob regime democrático ou totalitário, é uma “sociedade da total administração” ou “sociedade administrada”. Nessa sociedade que, de fato, é uma construção teórica e não uma realidade empírica em todos os seus detalhes, o que impera é o tédio. Não é o silêncio. É o tédio como resultado da regra geral de banalização do cotidiano. Bandas e desfiles nazistas e comunistas cumprem o mesmo papel da “música ambiente” em jantares de sociedades democráticas; são todos eventos, nesse sentido, que se dirigem para o mesmo fim: nada pode quebrar a cadência, o ritmo.

O problema desse tipo de sociedade é que ela pode ir morrendo aos poucos na sua eficácia. A sociedade se mantém eficaz, mas nada nela pode surgir de realmente novo. Todos os inventos e “novidades” são bonecos já inventados. Tudo é uma grande fábrica de brinquedos em Taiwan. Em determinados momentos, então, é preciso dar um choque nessas populações de pessoas eficazes e ao mesmo tempo presas ao entorpecimento. Adorno lembra que os nazistas diziam que eles não deveriam censurar as notícias de que perdiam batalhas. Pois, em alguns momentos, era necessário dar um choque na população. Aliás, alguns nazistas diziam, na conta de Adorno: “quando tudo isso acabar, poderão nos acusar de tudo, menos de que éramos provocadores do tédio”.

Na verdade, eles não eram os provocadores do tédio. Eles quiseram sair dele. Mas não puderam, pois eram o cume do tédio.

A busca pelo vídeo de estupro está nesse contexto. Ela é o choque que o indivíduo precisa dar a si mesmo, como a sociedade nazista ao não censurar as notícias das derrotas. Você pode tomar pílulas para dormir, ou um uísque para relaxar. Mas, na manhã seguinte, tem de tomar pílulas para voltar a funcionar, ou um café forte. Em outras palavras: nada em você funciona mais, tudo precisa ser “estimulado”, ou para desligá-lo ou para ligá-lo. Aliás, a linguagem o trai: “se liga” – é um lema de nossa atualidade. Ora, mas o que “liga”, nesse sentido, não é o interruptor? A busca pelo estupro é exatamente isso: vamos unir o ato de amor com o ato de barbárie, para ver no que dá. Para ver se algum interruptor em nós pode fazer o clique que esperamos. Talvez isso nos faça acordar – é mais ou menos assim que pensam todos aqueles que, mesmo fingindo não gostar, dão uma olhadela no vídeo que coloquei na net. O vídeo é longo. A cena de estupro não aparece nunca e, no entanto, ele é assistido até o seu final. São dez longos minutos que aquele que assiste fica ali, preso, na busca que eu possa lhe proporcionar o encontro com seu interruptor perdido.

Há muitas meninas e até mesmo mulheres maduras que ficam completamente envolvidas e seduzidas pela fantasia do estupro. Outras, perdem os limites e chegam a ir além da fantasia. Há homens que só conseguem fazer sexo no contexto – fantasiado ou não – do estupro. As sociedades vão testando o que podem permitir, e até o que devem incentivar, quanto à violência. A aceitação da sociedade em relação a coisas desse tipo variam, e as regras para a atividade sexual, definindo o que é delito e o que não é, acompanham tal variação. Isso é o de menos. O problema filosófico é outro. O problema filosófico é o de como fomos entrar para a “sociedade administrada”. Fizemos isso quando aceitamos buscar Helena dos troianos? Já ali queríamos aventura, morte, honra, glória, sangue e, enfim, Helena?

Não sabemos quando começamos a adotar o tédio como regra. Mas sabemos bem que ele está presente, pois, caso contrário, não teríamos colocado como pílula para nos curarmos dele a busca pela violência ou, no caso, a busca da violência associada ao sexo.

É claro que a atividade sexual, por si só, é uma atividade que depende de “gana”. Homens e mulheres cujo tônus muscular não demonstra gana são péssimos na cama. Então, a violência associada ao sexo é um dos graus da objetificação do sexo, algo necessário para que a atividade seja prazerosa. Todavia, e se não temos mais prazer algum? Então, temos de aumentar a dose da droga? Se assim é, temos de criar uma indústria que nos mostre, em doses homeopáticas ou em doses alopáticas – segundo nossos médicos – que tipo de sexo-com-violência deve ser administrado para cada caso.

Estamos nesse barco. E nossos médicos estão tão doentes quanto nós. Ficamos insensíveis, e então precisamos da administração do estimulante para voltar a acreditar que podemos sentir alguma coisa. O problema que a filosofia devolve para nós mesmos é o seguinte: e se a dose que precisamos é maior do que a que dispomos? Ou seja, e se os “recursos naturais” para a administração de um plus de violência-com-sexo não tiveram nenhuma ONG que os protegesse e, então, se esgotaram? Como faremos?

 

Paulo Ghiraldelli Jr. “o filósofo da cidade de São Paulo”

 

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2 Comentários leave one →
  1. 26/06/2008 19:25

    Estou lendo “A insustentável leveza do ser”, do Kundera. Seu texto me fez lembrar de uma passagem que diz assim:

    “Existem coisas que só podem ser conseguidas com violência. O amor físico é impensável sem violência”.

    outra:

    “O que excita a alma é justamente ser traída pelo corpo, que age contra a sua vontade, e assistir a essa traição”.

    :)

  2. pmoicosta Link Permanente
    14/07/2008 4:09

    Acho um tanto quanto arriscado associar a violência sexual ao tédio.
    Sabe-se que a idéia de dominação masculina sobre o feminino, no campo sexual, é quase um arquétipo. Na natureza, de modo geral, os machos dominam fisicamente as fêmeas durante o ato sexual. Isso é uma demonstração instintiva de força e territorialismo, importante para provar-se merecedor da prole que a fêmea lhe oferecerá, e capaz de prover-lhe a segurança almejada.
    A atração pelo estupro, por parte de quem o comete, é uma exacerbação deste desejo de dominação. Assim como o prazer obtido, nestas condições, por quem sofre o estupro. É bem verdade que esta exacerbação pode ser resultado do tédio. Mas pode ser, também, que seja resultado da desvinculação dos valores sociais.
    Os ímpetos violentos, inclusive os que incluem o sexo, são inerentes ao homem. Para viver em sociedade, entretanto, é necessário que os instintos não interessantes ao coletivo sejam sufocados.
    Os valores que constituem os alicerces da sociedade fundamentam as regras sociais e determinam o comportamento dentro desse âmbito. Entretanto, não há nenhum “dever-ser” necessário nestes valores. Eles não existem fora da sociedade, só fazem algum sentido dentro do contexto social. E, em muitos casos, tratam-se de uma negação dos instintos naturais do homem. Isso leva ao sentimento de ausência de liberdade. A violência, portanto, é proveniente da “libertação” destes instintos.
    A partir do momento que valores morais são instaurados, gera-se os conceitos de certo e errado. Os indivíduos que compõem a sociedade são julgados de acordo com estes valores constantemente uns pelos outros, numa tentativa coletiva de homogeneidade comportamental. Isso é claro, pois de outro modo não haveria a sustentação da sociedade em sua totalidade. Isso não significa que este coletivo não sinta, mesmo que de modo inconsciente, a repressão de seus impulsos. Daí, a curiosidade e a excitação frente a violência, por parte de muitos.
    Talvez este seja um outro viés, e é claro que a verdade é multifacetada. Mas me parece que, quando as faces se opõem, ou levam em conta apenas um dos aspectos, peca-se pela restrição.

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