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O erótico, o pornográfico e a arte

17/08/2008

[veja o vídeo correlato]

Os órgãos genitais feminino e masculino podem ser mostrados em revistas, no cinema e em galerias. Pode ser arte? Sim, pode. E se esses órgãos estiverem em funcionamento, no ato sexual? Isso é arte? Pode ser. A pornografia pode ser arte. Não é exclusividade do que é erótico ter o direito de ser arte, jogando o pornográfico para fora dessa área.

Mas, e se a mostra dos órgãos sexuais forem algo que foge do que todos, todos mesmo, consideram belo, ainda assim é arte? Sim, pode ser arte. Como Arthur Danto tem enfatizado: no mundo contemporâneo a beleza foi para um lado, a arte para o outro. Não é pelo que é “belo”, com consenso ou não, que se diz que algo é arte após Warhol e Duchamp.[1]

Mas, se é assim, se não é pela ligação ou não com a arte, ainda não há a diferença entre ambos – o erótico e o pornográfico –, a partir da mostra ou não dos órgãos genitais, então, o que os distingue na medida em que se está falando em arte erótica? Qual a razão de Roger Scruton distinguir o erótico do pornográfico a partir da idéia de que no segundo caso há a presença clara dos órgãos sexuais à mostra, enquanto que no primeiro caso isso não ocorreria? Bem, no livro Sexual Desire, Scruton fala isso, mas atenua tal colocação dizendo que no segundo caso, a mostra dos órgãos sexuais aparece para induzir à atividade masturbatória. No limite, não é algo para o compartilhamento.[2] É algo que se sustenta para uma finalidade pouco estética – no sentido kantiano do termo estética, isto é, o que é admirado e causa prazer sem causar interesse.

Mas, então, diante dessas colocações, como é que distinguimos filosoficamente a arte erótica da pornografia? E para que fazemos isso?

Que a filosofia bote o bico nisso e ajude a encontrar distinções atinentes à filosofia  entre o que é o erótico e o que é o pornográfico não é perda de tempo. Fazemos isso para evitarmos que tais distinções se realizem de modo grosseiro, antes pela política e pela polícia do que pelo exercício de nossos poderes racionais melhores. E depois de feito isso, no meu caso, tenho também de aproveitar da distinção para exigir que ambos – o erótico e o pornográfico – tenham espaço e liberdade na sociedade, ainda que possam ocupar lugares distintos. Digo “no meu caso” porque estou convencido que não gostaria de morar em uma sociedade com censura.

O critério da aparência ou não dos órgãos sexuais não me parece bom para distinguir o que é o erótico e o que é o pornográfico. Eu preferiria lançar mão de algo mais útil e menos policialesco. Imagino que a literatura tem dado uma pista.

No campo literário, quando uma história é maniqueísta demais, sem qualquer autocrítica implícita neste maniqueísmo, temos a literatura simplista, e então dizemos que se trata de má literatura. Quando a narrativa se sofistica e tem o dom de surpreender o leitor, então dizemos que estamos diante de um autor inteligente, e que há ali os ingredientes básicos para a boa literatura (pode haver outros, para tornar a história melhor ainda). Assim, a previsibilidade (do maniqueísmo) é o elemento ruim. A imprevisibilidade de acontecimentos da narrativa é o seu elemento potencialmente virtuoso.

Quando lançamos mão dessas idéias da literatura e a jogamos para os campos vistos como limites – sempre os mais difíceis de avaliar – entre o pornográfico e o erótico, tudo indica que damos um salto de qualidade no nosso entendimento.

O que é previsível cansa, é enfadonho, não causa prazer e, se causa, é um prazer muito momentâneo e logo se torna algo dispensável. Podemos ficar horas diante de uma novela onde o bem e o mal lutam e os episódios se repetem, apenas mudando o figurino e, às vezes, os personagens. Mas o fato de ficarmos horas presos nisso não significa que estamos gostando. Não significa que se nos derem coisa melhor, não vamos gostar mais. E também não significa que, nós mesmos, escolarizados, quando estamos assistindo, estamos achando que estamos diante de algo artístico.

Do mesmo modo, podemos ficar horas, todos os dias assistindo filmes que passam, repetidamente, ângulos de pessoas fazendo sexo. Podemos, inclusive, ter algum prazer nisso. Um prazer visual ou mesmo uma motivação para a masturbação ou para o sexo mais tarde, com a parceira ou parceiro. Todavia, isso não significa que estamos gostando disso a ponto de não gostarmos de algo parecido, mas mais sofisticado e melhor. E o “sofisticado”, nesse caso, não quer dizer “sem a aparência dos órgãos sexuais”. Quer dizer apenas “o que pode nos dar asas”.

A arte erótica pode ser erótica na medida em que for algo que clame por Eros, o deus. Clamar pelo deus é clamar pelo mistério, pela imaginação, não pelo cacoete. E vou fazer uma brincadeira com as palavras, para que se entenda o que quero dizer. O “por no gráfico” é o colocar no gráfico – é o que se coloca em algo que é um gráfico, algo que é desenhado para que possamos avaliar e predizer eventos. Assim, “pornográfico”, nessa etimologia tosca e falsa, lembra a idéia de repetição ou de busca do que é repetido e, assim, o que pode destituir de função a imaginação. Essa associações que faço, em tom de brincadeira, tem lá sua razão: “pornográfico” nos lembra “por no gráfico” – essa lembrança não é à toa. Há algo subconsciente nisso, e a associação entre pornográfico e “por no gráfico” surge de ficarmos de certo modo impressionados com a distinção entre novidade e repetição.

Se pensarmos nesses termos, veremos que o erótico pertence ao espírito do Renascimento, enquanto que o pornográfico é próprio do espírito da Modernidade. O Renascimento cultua a imaginação. A modernidade cultua o entendimento e tem pavor da imaginação. O Renascimento clama pela imaginação e sua ciência ainda é a alquimia. A modernidade toma a imaginação como o que pode produzir as imprevisibilidades do que já não pode mais ser chamado de ciência, a alquimia, pois a ciência, agora, é só o que mostra a repetição – alquímia toma o lugar da alquimia.

Hobbes e Descartes tinham pavor da imaginação – e eles são os pais dos tempos modernos, na metafísica e na filosofia política. Isso deve ser bem lembrado!

A modernidade segue a idéia de que não podemos “ser pegos de surpresa”, como não somos pegos na pornografia. O Renascimento seguia a idéia de que a surpresa era o elemento essencial da vida, como o que ocorre com o erótico. O erótico, vindo de Eros, é a atividade daquele deus com sua seta: espeta-nos na hora que não esperamos. Somos surpreendidos pela flechada e ficamos inflamados, doidos para agir. A última coisa que o apaixonado quer fazer é dormir. A não ser que seja para sonhar com sua paixão. O pornográfico é o que não surpreende e, enfim, não nos espeta, mas nos empurra para o gozo rápido e para o sono, para a letargia. A alquimia nos leva para o esfuziante “ócus pócus”, a química nos leva para a horrorosa atividade de “balancear coeficientes”. A imaginação do químico industrial é como a imaginação de uma ameba, ainda que seja uma ameba de grande cérebro. A imaginação do alquimista é a imaginação de deuses, ainda que seja um que cometa tolices – e qual deus não comete?

Essa distinção não é boa?

Agora, não é porque o erótico está enaltecido no meu texto acima que o pornográfico deve ser desprezado. Nem há qualquer justificativa para dizer que o primeiro deve ser colocado no pedestal e o segundo posto sob a bota dos conservadores morais (leia-se: os hipócritas). Não há aqui um juízo meu sobre o que deve ser apresentado ou não em uma sociedade. Uma boa sociedade liberal sabe conviver com ambas as coisas, até por uma razão simples, elas ocupam espaços e tempos diferentes. Além disso, as fronteiras entre elas não serão fechadas por esse meu texto. Ao contrário, minhas distinções aqui visam única e exclusivamente chegar ao final e dizer para vocês: o quadro da Carol Castro (Playboy) associado a este texto é exemplo de arte erótica. E nisso, usei de meus critérios acima. É só.

© 2008 Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”

 


[1] Danto, A. The abuse of beuty. Chicago: Open Court, 2004.

[2] Scruton, R. Sexual Desire – a philosophical investigation. London and New York: Continuum, 2006, pp. 153-6.

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