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O que é inclusão?

03/07/2009

inclusaoNão se falava em inclusão até meados dos anos oitenta. O termo “excluídos” já ocupava lugar no vocabulário dos sociólogos e, portanto, deslizava para a política. Mas, em contrapartida, ninguém ousava usar a outra parte do par, o termo “incluídos”. A razão disso – arrisco dizer –, é que ainda que o marxismo estivesse bastante esfolado e, enfim, já se iniciasse todo o processo de avanço do pensamento mais conservador, com Reagan e Thatcher adiante, restavam ecos do Eurocomunismo na Europa. A política brasileira de esquerda, naquela época mais devedora à tradição européia do que hoje, acompanhava a duras penas os sobressaltos das esquerdas na França, Itália e Inglaterra. Para as esquerdas, havia “excluídos”, mas não poderia haver “incluídos”. Não havia razão para se querer incluir alguém em mecanismos sociais que, para um bom partidário da esquerda, ao menos naquele período, deveriam ou ser reformados – segundo os social-democratas – ou então banidos – segundo os comunistas revolucionários.

Após o “fim do comunismo” tudo se alterou. Com o advento da internet, então, mais ainda. Mudança política e transformação tecnológica deram para o século XXI um novo mundo.

A barreira ideológica existente entre o Bloco Capitalista e  o Bloco da URSS foi substituída por um obstáculo menos caricaturizado, representado, hoje, pelo embate entre forças radicais islâmicas, praticamente centralizadas no Irã e no Afeganistão, e o “mundo ocidental”, capitaneado pelos Estados Unidos de Barack Obama, muito mais afeitos ao diálogo com inimigos, adversários e amigos do que em qualquer outra época.

A barreira quanto à comunicação foi varrida da terra por meio da avalanche trazida pela “WWW”. A conquista do espaço, que era o nosso futuro até os anos setenta, perdeu para a “conquista do outro”, nossa febre de participar cada vez mais de todo tipo de comunidade de relacionamento que possa existir dentro de nosso quarto, em uma caixinha chamada PC e, agora, laptop ou Iphone ou celular e coisas do tipo.

Não há dúvida que, graças a esses dois elementos, o mundo ficou menor. As esquerdas chamaram isso de “globalização”, e a tomaram negativamente, associando-a à “doutrina do Estado mínimo”, o que denominaram de “neoliberalismo”. A direita acompanhou a terminologia, e tendeu a enfatizar que tal palavra, “globalização”, deveria se referir à idéia de um mercado mundial no qual todos se encontram, algo que poderia não ser ruim, poderia suavizar as relações – tese esta que, enfim, tinha já o precedente histórico do início da modernidade. Afinal, quando surgiu o mercado, também veio junto com ele a Carta da Tolerância, de John Locke.

Com o tempo, os “termos globalização” e, mais ainda, “neoliberalismo”, caminharam semanticamente e vieram a ter outros usos. “Globalização” perdeu sua conotação ruim, e foi incorporada por todos como um fato social, político e econômico “irreversível”. “Neoliberalismo” caiu em desuso, uma vez que nenhum estado se transformou em “estado mínimo”, como a esquerda dizia que iria acontecer, nem conseguiu se tornar uma política de longo prazo, como a direita imaginou que seria.

Nesse contexto, o de “mundo globalizado”, o Facebook e o Orkut – para ficar só em dois bem usados – fizeram “a guerra de todos contra todos” se transformar na “fofoca de todos com todos”. Saiu Thomas Hobbes, entrou Bill Gates. Exatamente nessa situação, falar em “incluídos” e, enfim, em “inclusão”, começou a fazer sentido. O que temos no mundo, tanto para a esquerda quanto para a direita, não é tão ruim como dizíamos que era até o final dos anos oitenta. Então, se assim é, qual a razão de mantermos os “excluídos” ainda excluídos? Que venha a “inclusão” – e como política social. Ora ele põe a cara por meio de ONGs, ora por meio do velho e bom Estado de Bem Estar Social – o Welfare State.

O termo “inclusão” saiu do seu campo inicial, que era o das “políticas compensatórias” em favor de “pessoas portadoras de necessidades especiais”, para abraçar aqueles que estavam no âmbito da política das “ações afirmativas” e, logo em seguida, também passou a buscar almas no seio de movimentos sociais mais tradicionais, como os membros dos movimentos dos “sem terra”, “sem teto”, “sem escola” etc. Tornou-se rapidamente uma unanimidade. Agora, todos a aceitam. Ninguém é capaz de fazer uma objeção sequer à inclusão. A esquerda mais radical, que ainda pensa em revolução, calou a boca – prefere não falar mal do termo. Ela teria de se explicar demais para tal. A direita mais xenófoba continua querendo todo tipo de separatismo (ela não se emenda), mas, ainda assim, não ataca frontalmente políticas inclusivas, tenta lidar com elas da maneira que a Igreja lidava com os pobres no passado, fazendo da inclusão a nova esmola.

Inclusão – eis a regra. Já nem sabemos mais o que é o “dentro”, onde queremos incluir todos de tudo quanto é jeito, mas estamos todos os dias identificando mais lugares que consideramos “fora”, que devem ficar vazios. Temos de incluir. É aqui que as coisas ficam complicadas. Neste particular, é aqui que Paulo Coelho, Harry Potter, Crepúsculo, as organizações do Roberto Marinho, a Maísa, o grupo Gerdau do “Todos pela Educação”, Lula, Serra, a revista Veja, Sarney e Roberto Justus não ajudam em nada. Pois, a batata quente que temos nas mãos é, mutatis mutandis, a mesma apontada por gente um pouco mais culta que essa turminha, trata-se de Tocqueville e Marx.

Nossa democracia é democracia, mas não é inclusiva por si mesma. Ela continua sendo uma forma de promover a liberdade mais para uns do que para outros. Demos muita volta, mas o problema do século XIX, o da criação dos mecanismos de exclusão inerentes aos mecanismos de globalização, permanecem intactos.

Todavia, agora, a sofisticação ideológica é maior. Pois o que era compartamentalizado nos supermercados, deu a lógica para o mundo todo., para além das prateleiras. Tudo existe para todos, mas nem tudo é da mesma qualidade para todos. Há internet e internet como havia, até pouco tempo, desodorante e desodorante. Assim, há casa e casa, escola e escola, faculdade e faculdade, etc. Tudo lembra, ainda, os restos da “política compensatória” utilizada no contexto pós-Movimento dos Direitos Civis Americanos, e que originou aquela piada do ônibus. Conto de novo, para os mais jovens.

O professor (dizem que era um professor de Educação Física) estava imbuído da idéia de combate ao racismo, nos anos 60 nos Estados Unidos. Então, ao colocar as crianças em fila para pegar o ônibus de excursão, gritou bem alto: “aqui não existe cor de pele diferente, todo mundo é azul”. Por decreto verbal, transformou as crianças em Smurfs. Então todas ficaram aglomeradas na porta, não formando fila nenhuma. O que o obrigou a dar uma segunda ordem: “os azul-claro na frente, os azul-escuro no final”.

Essa é a inclusão nossa, brasileiríssima. Para o “azul-claro”, a universidade estatal presencial, para o “azul-escuro” não mais a particular (ao menos não em discurso), mas, agora, ele está incluído também na universidade estatal, gratuita, mas na forma de EAD. E o azul-escuro acha ótimo. Como foi boa a migalha que lhe deram. Ele não sabe que, na verdade, nada lhe foi dado, o que ocorreu é que tudo lhe foi tirado, inclusive a cidadania.

O exemplo do EAD serve para todo o tipo de inclusão que o nosso país vem fazendo. O responsável por isso? Trata-se do autoritarismo embutido no próprio processo democrático. Criam-se plutocracias, e elas administram o que parece ser a democracia. Foi aí que Tocqueville apareceu, e foi isso que ele denunciou que iria ocorrer na América. Marx foi mais otimista em relação aos Estados Unidos. Ele imaginou que o mercado iria forçar uma maior integração, que aos poucos os grupos sociais majoritários – os trabalhadores – iriam caminhar do final da escravidão para o desejo de uma política mais aberta. A análise de Tocqueville nos ganha quando os republicanos governam, e análise de Marx serve para quando os democratas governam. No Brasil, não temos isso. PSDB e PT são quase iguais quanto ao que pensam sobre inclusão.

Disse “quase”. A política de inclusão do PSDB está resumida a grupos tradicionais. Entende-se por inclusão aquela política para grupos, não para classes sociais, digamos assim. “Portadores de necessidades especiais” podem ter, então, algum apoio de gente como José Serra. Mas tudo pára aí. A política do PT passou a usar “inclusão” para todo tipo de ação, mas ela está fortemente presa à regra da existência dos “azul-claro” e “azul-escuro”. Quando o PSDB dá um passo além, não faz nada senão imitar isso do PT. E, no final, ambos traduzem o que entendem por “azul-claro” e “azul-escuro”. Os “claros” são os “nossos”, os “escuros” são “os outros”, os ainda não pertencentes à base governista ou à base oposicionista. A cor pode mudar, e isso depende de quanto o “mensalão” pode pagar.

Creio que é isso que se pode entender por “inclusão”, ao menos no Brasil. Reclamar? Não digo que não exista uma instância para tal. Existe, e até que funciona. É o PROCOM. Mas acho pouco que tenhamos de abandonar a utopia de uma sociedade verdadeiramente democrática em favor de uma sociedade em que tudo que podemos fazer é torcer para que a fila do PROCOM não seja grande. Mas, tenho certeza, muito “azul-escuro” vai achar que o que eu quero é tirar a EAD dele, que ele acha que conquistou, que ele acha que não é esmola, e que ele acredita que é, sim, igual ao ensino presencial do “azul-claro”.

Isso vale para tudo, como disse. As aparências quase enganam, e alguns dizem, “ah, eu não ligo para marca”, é tudo igual. Mas, o “azul-escuro” que fala isso, no fundo, sabe que não é tudo igual. Ele apenas deixou de sonhar, e de lutar. Ficou conformado. Ficou, com-formatado.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo,

http://ghiraldelli.ning.com e http://ghiraldelli.wordpress.com

Também: http://ghiraldelli.blogspot.com

http://filosofia.pro.br

Post by Fran – CEFA

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One Comment leave one →
  1. qualquercoisaserve permalink
    15/07/2009 17:43

    Sinceramente…já não sei mais o que entender por Direita e Esquerda.

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