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O que é um filósofo – 19 de agosto, dia do filósofo

18/08/2009

LD - The Philosopher, Paris, 1897O que é um filósofo? Quase todos os mais escolarizados sabem o que é. Todavia, quando a pergunta é dirigida a alguém que estudou filosofia ou que fez o curso de graduação em filosofia ou que é reconhecidamente um filósofo, nem sempre aquele que pergunta obtém uma resposta satisfatória. Não raro, os que estão na empresa da filosofia complicam demais a resposta. Como todo e qualquer campo do saber, quem está nele sabe que detém algum poder – isso nos foi ensinado por Bacon, de um modo, e por Foucault, de outro. Alguns acreditam, então, que se respondem às perguntas que lhe fazem de um modo complicado, podem exercer o poder de maneira ampliada. Afinal, tudo que é misterioso, mesmo no mundo moderno, o mundo que Weber qualificou de desencantado, parece guardar mais poder que aquilo que é exposto claramente.

É claro que, como Aristóteles notou e praticou, pode-se falar de filosofia em diversos níveis e para diversos públicos segundo discursos diferentes. Mas, enfim, isso é desse modo para qualquer assunto.  O que não é impossível de fazer é não conseguir explicar, para alguém com alguma escolarização, o que é ser filósofo, e isso de modo claro, objetivo e até mesmo simples. Aliás, quem não expõe de modo claro o que pensa, não pensa bem – não sabe corretamente o que acredita que sabe.

O filósofo ocidental é aquele tipo de intelectual que está inserido na conversação inaugurada pelos pré-socráticos e, enfim, colocada de um modo durável por Platão. Trata-se da conversa que, depois de Aristóteles, chamamos de metafísica. Metafísica e alguma coisa que começamos a saber o que é quando a comparamos com a física.

A física fala do mundo, das coisas materiais. Sua função, ao menos no início das cosmologias, era o de procurar um princípio (um arkhé, em grego), dado por um elemento material (água, terra, ar e fogo – para os gregos antigos), cujo funcionamento e conduta, uma vez mostrados, diria como todo o mundo se faz e se organiza. A meta-física, como o próprio nome já diz, não se prende ao que é físico, vai além da física (ou aquém, dependendo do ponto de vista), e quer encontrar princípios que regem o mundo em algo não material. Está embutida na metafísica a idéia de que há a aparência e há a realidade essencial de tudo, e que, em geral, tomamos a aparência pelo real e, então, vivemos na ilusão. Assim, o irmos para além da física, ao entrarmos na metafísica, podemos desvendar os mecanismos pelos quais cometemos esse erro, o que nos faz cair na ilusão e não enxergar o real. Eis aí o trabalho da filosofia. Eis aí o que faz um filósofo, em um sentido bem amplo: ele é aquele que acredita que há uma ilusão – um especial tipo de ilusão – que dá um trança-pés na maioria das pessoas, os não-filósofos, e que ele, o filósofo, pode contar a tais pessoas como a estrutura do cosmos coloca a perna na frente de todos, armando o trança-pés. Antes que simplesmente expor o que é o real, o filósofo seria aquele capaz de mostrar o mecanismo pelo qual o real não estaria sendo captado pelo chamado senso comum.

É claro que há filósofos que dizem que toda essa conversa de metafísica é bobagem. São essas pessoas, que se dizem antimetafísicos, também filósofos? Na maioria dos casos, sim! Denunciar as ilusões da filosofia ou da metafísica, pela via cética ou pela via de pensamentos deflacionários – ou descritivos, como os de Donald Davidson – não coloca tais pessoas como quem não sabe o que diz a metafísica, mas, antes, como experts da conversação que veio desde os pré-socráticos e Platão – filósofos, então.

Cada filósofo autêntico é um ingênuo e, não raro, um presunçoso. Ele acredita – e tem de acreditar – que pode dar fim à filosofia, pois vai desvendar de uma vez o mecanismo que estaria dando o trança-pés em todos, ou seja, a armação do cosmos ou do mundo que faz com que o chamado senso comum tome o que é a mera aparência pelo real. Ao mesmo tempo, cada filósofo autêntico é um presunçoso, pois ele continua essa investigação mesmo olhando para trás e vendo que os que investigaram antes a questão não eram tolos – eram grandes filósofos.

Assim, em termos gerais, há dois tipos de filósofos: o metafísico e o deflacionário. Um, infla a filosofia com metafísica, o outro tenta fazer uma descrição do mundo racional, mas de um modo descritivo, querendo mostrar que não é necessário usar da dualidade central da metafísica – aparência e realidade – para tecer uma boa descrição do mundo, da nossa atividade no mundo e tudo o mais.

Esses segundos filósofos poderiam ser os cientistas? Não! Por uma razão simples: ainda que esses filósofos possam evocar algum tipo de empirismo ou pragmatismo, ou mesmo algum tipo de ceticismo, eles não fazem investigação a partir de experimentos e experiências, como os cientistas. Quando falam em experiências, estas são imaginárias, não são possíveis de serem efetivamente feitas em laboratório. São filósofos, sim, pois tentam fazer uma exposição geral do mundo a partir de uma descrição racional, ainda que digam que a exposição racional do mundo que estão fornecendo ou que poderiam oferecer tenha dispensado a presença do célebre trança-pés.

Particularmente, como filósofo, eu sou daqueles que ama ler os colegas metafísicos, embora me sinta mais companheiro dos deflacionários. Amo Platão, é certo, mas fui amigo, mesmo, de Rorty.

Ao longo dos anos em que fui me filiando à empresa da filosofia, procurei criar minha própria definição do que seria a filosofia, e do que eu mesmo seria nisso tudo. Cheguei então à formulação atual: o filósofo é um desbanalizador do banal. O filósofo não busca o que está “por trás”, mas é aquele que fica estupefato com o mais banal, o que está sob a visão e observação de todos. Não é que ele esteja vendo mais que outros, ou de modo mais profundo, ele apenas é capaz de redescrever o que vê (ou que escuta ou que lê) de modo que aquilo que ficou banal se desbanaliza e ganha ou recupera fama, prestígio, adquire ou readquire capacidade de não ser mais banal.

É claro que bons escritores, diretores de cinema, artistas de teatro etc. podem desbanalizar o banal. Mas, o banal do qual eu falo é o banal desbanalizado a partir da conversação e da linguagem da filosofia. Encaixa-se perfeitamente na tradição dos assuntos que se colocaram, de uma maneira ou de outra, na agenda da filosofia ocidental ou que poderiam ter sido colocados. Por isso, não raro, a minha redescrição é sempre a partir de uma já boa redescrição. Não à toa a filosofia, como eu a prático, é uma forma de conversação sobre a cultura. Nessa linha, tento manter a articulação entre filosofia teórica e prática, como os filósofos gregos fizeram, negando o que atualmente a maioria dos professores de filosofia da universidade fazem – eles falam de filosofia e, no entanto, não vivem filosoficamente.  O que os guia na vida são os interesses mundanos, são levados pela vida e não conseguem eles próprios levar a vida. Não são filósofos, de modo algum.

Uma boa definição de filosofia é aquela que não serve apenas para explicar o que o filósofo que a formulou faz. Ela tem de se encaixar como boa explicação da atividade de todos os outros filósofos do passado. Eles, os filósofos do passado, explicaram suas atividades de outro modo, é claro. No entanto, se voltassem à vida e lessem a minha definição de filosofia, seriam capazes de dizer: “é, isso não foge tanto do que eu mesmo fiz”. Isso deve valer, inclusive, para os não deflacionários. A definição tem de ser específica, para caracterizar o que é o filósofo, e ao mesmo tempo ampla, de modo a trazer para o seu interior até os metafísicos – contra os quais podemos, ora ou outra, nos colocar.

Ora, minha definição obedece a esses critérios? Isso é uma das coisas que tenho posto à prova, a cada dia, a cada iniciativa minha na vida filosófica que levo. Sempre convido o meu leitor ou ouvinte a participar dessa aventura comigo. Pois, filosofia é algo da conversação pública, da investigação coletiva. Nenhum filósofo imaginou filosofar sozinho.  O filósofo que pensa fazer isso, não percebeu ainda que não é filósofo.

© 2009-08-18 – “Dia do Filósofo” – São Paulo

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo

http://ghiraldelli.pro.br
http://ghiraldelli.ning.com
http://filosofia.pro.br
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6 Comentários leave one →
  1. neophytu permalink
    19/08/2009 21:09

    Um boa conhecidência, ou não uma vez que se apoie no metafísico e dele derive, é que hoje estou indo assistir uma aula de filosofia e há algumas horas atrás eu estava em minhas experiências imaginárias, usando seu termo, categorizando tipos de filósofos e defini o meu grupo como aquele de base dualista, por você definida metafísica.

    Não sendo necessário citar a abrangência da relação dualista e metafísica, acredito que a mesma idéia sua é a que compartilho pois nos meus termos o conceito caminha elegantemente em concordância com seus termos.

    Fique contente em ler este artigo visto que, à exceção da definição de filósofo deflacionário, que costumo definir materialista (definição ainda remota), já tinha e defendia as idéias relacionadas ao filósofo metáfisico. Principalmente no que se refere ao conhecer o código-fonte do universo e ao dizer que “Antes que simplesmente expor o que é o real, o filósofo seria aquele capaz de mostrar o mecanismo pelo qual o real não estaria sendo captado pelo chamado senso comum”.

    Essa definição é maravilhosa. Quão belo não é conhecer a fôrma? Podemos não saber como a fôrma foi feita, mas compreendemos, enquanto filósofos metafícos, o que ocorre quando ela vai ao forno e por recorrência podemos até nos arriscar a afirmar verdadeiramente que sabemos o processo sofrido na criação da pŕopria fôrma. Enquanto os demais, eles ignoram e se contentam em experimentar o bolo e aproveitá-lo da melhor forma.

    Falarei por mim… essa compreensão que julgo ter – e tenho que crer nela – é magnífica e mais fascinante ainda é a capacidade de poder passar aos outros esse funcionamento para que outros possam também se maravilhar. Nesse ponto, discordo bem daqueles que “acreditam, então, que se respondem às perguntas que lhe fazem de um modo complicado, podem exercer o poder de maneira ampliada”.

    Concordo com a verdade de que quem sabe e sabe que sabe tem um grande poder em mãos, mas ainda não encontrei quem me fizesse descrer que o melhor uso desse poder é o compartilhamento do mesmo.

    Bom… tenho uma aula agora a assistir, assim paro de escrever. Comecei com algo e lá se foram mais idéias fluindo e fluindo. ;-)

    Para não deixar a introdução do comentário sem coerência, eu não sabia que hoje(19) era dia do filósofo!

    Parabéns pelo artigo. Muito bom, gostei muito.

    Um abraço Paulo.
    Paz.

    • 20/08/2009 12:04

      Obrigado por ler, acho que há chances para metafísicos e não-metafísicos.

      • neophytu permalink
        20/08/2009 13:53

        Tão verdadeiro como há espaço para o positivo e o negativo(sem definir se bom ou ruim). Embora tenha minha postura, aceito minha contra-parte não para basear meu caminho pelo oposto mas para equilibrar meu excesso.
        ;-)

      • 21/08/2009 9:05

        Será mesmo que há espaço para o não juízo de valor?

  2. flaviustd permalink
    20/08/2009 4:56

    Prezado Paulo Ghiraldelli,

    estou-o conhecendo agora, porém algumas posturas suas me levam a desejar-lhe felicitações pela data comemorativa da sua profissão. Inegavelmente, o presidente Lula fez, pelo menos, um favor ao desmascarar grande parte da intelectualidade brasileira, notadamente a categoria dos filósofos.

    Com o episódio do “mensalão”, por exemplo, demonstrou-se que dos denominados filósofos, poucos os são verdadeiramente. Não são “filo” da “sophia”, mas “fi-lo porque quis assim o presidente, o messias”. Entendo que o verdadeiro filósofo prima pela independência, e você parece exercê-la. Isso me anima a acompanhar as suas obras, e concorde ou não eu, pelo menos sei que há alma nelas.

    Atentamente, Flávio.

  3. thezeyn permalink
    26/08/2009 19:07

    Paulo,

    Muito bom o texto. Estou sempre aqui lendo seus artigos e na maioria das vezes eles acrescentam alguma coisa para mim. Não gosto de dizer: – Sou filósofo, até porque não tenho o “diplominha” acadêmico. Mas meu interesse por filosofia começou desde cedo, talvez 13 anos, influenciado pela ligação entre arte e filosofia. Não por conta disso, mas por paixão, acredito que me enquadro no seu conceito. Só discordo da conversação pública e da investigação coletiva. Acredito sim que o contato com as obras de outros filósofos contribui com a minha percepção e desbanalização do banal. Não gosto dessas limitações e vejo a filosofia também como arte, mesmo que não exposta, acredito no surgimento de uma “expressão” individualista, que exista na mente de muitos, poucos ou apenas um indivíduo. Em relação aos Metafísicos e deflacionários será que um dia estaremos além desses conceitos? É preciso criar novos conceitos…

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