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A vida sexual do operário Lula

30/11/2009

Uma determinada tradição em filosofia começa com o “conhece a ti mesmo”. Antes de Sócrates trazê-la para o campo da filosofia, esta frase havia ficado por anos somente como uma das expressões inscritas no Templo de Apolo. Os filósofos, até então, estavam antes preocupados em olhar para o cosmos que para a vida humana na cidade. A preocupação com o ethos – os costumes e comportamentos – era caudatária de uma visão cosmológica. Sócrates se decepcionou com esse tipo de investigação, abandonando o que teria aprendido de Anaxágoras. Levando muito a sério o que as divindades diziam, fez da inscrição posta no interior do espaço ocupado pelo Oráculo de Delfos um guia para o seu filosofar. A partir daí, ainda que Aristóteles e outros tenham recriado a fusão entre física, metafísica e moral, a diretriz de Sócrates nunca mais deixou de ecoar pelo Ocidente. Cícero comemorou esse feito socrático dizendo que a Mosca de Atenas havia trazido a filosofia dos céus à terra.

Acostumamo-nos a tratar a historiografia da filosofia segundo esse corte oferecido por Sócrates, e relatado para nós, de modo histórico, principalmente por Aristóteles. Todavia, demorou o dia em que Sócrates se tornou um imperador.

Uma parte da tradição filosófica ocidental manteve-se caudatária da investigação cosmológica. Para esta, a discussão sobre a verdade-além-das-aparências – que diziam ser o tema da filosofia par excellence – deveria ser buscada em nosso olhar para o mundo. Todavia, a tendência socrática mordeu Santo Agostinho, uma vez que tinha realmente a ver com a ênfase do cristianismo à intimidade. Além do mais, somente com o cristianismo o problema da liberdade humana individual se tornou central na filosofia, e isso alimentou ainda mais a importância do “conhece a ti mesmo”. Nesse campo floresceu uma tendência na tradição filosófica ocidental que se tornou hegemônica na modernidade. Nessa linha, a verdade-além-das-aparências teria de ser buscada antes no “eu” que no “mundo”, aliás, uma divisão que só se instalou efetivamente nos tempos modernos. Ainda que esfolada e modificada, a modernidade reconheceu como uma problemática autenticamente filosófica antes o socratismo que as investigações pré-socráticas. Que Galileu e Newton investigassem o cosmos, deixando o eu para os filósofos.

Um dos grandes méritos da filosofia contemporânea e, em particular, de Michel Foucault, foi o de ter percebido as idiossincrasias desse apego moderno ao “conhece a ti mesmo”. Outros junto com ele levantaram o mesmo problema que, aliás, teve em Nietzsche um precursor fantástico. Todavia, a novidade de Foucault foi a de dizer que o “conhece a ti mesmo”, que então servia para falar da verdade-além-das-aparências, havia se transformado, já a partir da hegemonia do cristianismo no Ocidente, na questão de saber sobre a nossa vida sexual. Sua História da sexualidade foi imaginada, inicialmente, com o título de “Sexo e verdade”. Sua perquirição era exatamente esta: porque o sexo não é algo para determinar a procriação ou algo para dar prazer, mas, muito para além, se transformou no campo da verdade sobre nós mesmos?

O que Foucault nos ensinou é algo que, atualmente, traduzo para o meu jargão nos seguintes termos: por que nós, quando queremos lidar com o conhece a ti mesmo, não investigamos outra coisa senão o comportamento sexual de cada um? Tudo que fazemos, tanto no âmbito público quanto no âmbito privado, é tido como superficial, todavia, tudo que se relaciona com o sexo, com nossos gostos e comportamentos sexuais públicos ou privados, diz respeito ao que é tomado como sendo a verdade de nós mesmos. Por que chegamos a tal dogma? Por que acreditamos que só sabemos o que é a verdade de uma pessoa quando apanhamos algo de seu gosto ou prática sexual? A resposta banal, do tipo “ah, é que isso é o que fazemos escondidos”, não serve. Uma boa parte do que se relata a respeito de gosto e comportamento sexual é segredo de polichinelo – todos já sabiam antes! Em alguns casos, não raro, era até mais público do que qualquer outra prática!

Não penso que devemos responder a essa pergunta. Foucault quis responde-la. Penso que o grande ensinamento de Foucault é o de ter essa pergunta em mente. Pois, se levamos em conta que o “conhece a ti mesmo” se transformou no “conhece o que se gosta e se faz quanto a sexo”, aí podemos entender a vala comum em que ficaram César Benjamin e a maioria dos seus adversários no episódio a respeito do suposta tentativa de Lula em comer (à força?) o “menino do MEP”, quando esteve preso em 1980.

Não creio que César Benjamin leu Foucault o quanto devia. Um militante da esquerda brasileira lê cartilhas de marxismo e, mesmo quando se trata de alguém culto, como o caso de Benjamin, é difícil que leve em conta filósofos que não são da tradição marxista. Caso Benjamin tivesse lido Foucault, ele titubearia em escrever o que escreveu. Ele veria que seu texto, mesmo bem escrito como foi, estaria amarrado ao dogma denunciado por Foucault. Sendo inteligente como é, penso que desistiria e pegaria outra estratégia.

Agora, as respostas ao texto de Benjamin, na maioria, são ainda mais complicadas. E talvez Benjamin estivesse, mesmo, até sabendo que as respostas todas seriam piores do que seu texto e, por isso mesmo, tendo lido Foucault, apostou em escrever o que escreveu. Pois, de fato, não houve quem não mordesse a sua isca. Os textos de defesa do presidente Lula que se limitaram ao exercício de chamar César Benjamin de “louco” ou “psicopata” ou “ação política”, ou mesmo os que quiseram falar que a Folha de São Paulo faz jornalismo de má qualidade, não me interessam. Esse tipo de querela política não é objeto da filosofia. É tema de disputa esfarrapada das ideologias já esvaziadas. A questão que a filosofia observa, no caso, são as respostas mais qualificadas, que tentaram retrucar a César Benjamin sem desqualificá-lo aprioristicamente. Nesse tipo de resposta, a maioria (senão todas, salvo falta de leitura minha), circulou no âmbito posto por Foucault: o dogma de acreditar que conhecemos o que alguém é quando conhecemos quem é no sexo ou quanto ao comportamento relativo ao sexo. Este dogma é efetivamente nada além de um dogma. Como todo dogma, para a filosofia, ele é o problema.

Todo cuidado aqui é pouco. Pois o que quero mostrar é que o texto de César Benjamin e os de seus adversários ou correligionários, lulistas ou não, ficaram presos no buraco que Foucault mostrou existir. Qual a razão de se achar que um homem ou uma mulher mostram a verdade de si (se é que existe isso) quando mostram gostos sexuais ou práticas relativas ao sexo, públicas ou privadas? Não há nenhuma razão plausível para acreditarmos nisso. Somos obrigados a levar a sério Foucault e admitir que essa idéia de fundir o “conhece a ti mesmo” ao “conhece o que se faz no sexo” como um hábito do mundo na medida que determinadas práticas cristãs de vida asséptica nos serviram socialmente, e inclusive nos deram condições de, criando rituais do confessionário, criar também rituais para procedimentos jurídicos mais amplos.

Foucault foi um tipo de pragmatista francês. Posso dizer isso, de modo lato, a partir do meu olhar rortiano. Ele não quis saber da verdade dos discursos ou dispositivos. Ele quis, sim, fazer a narrativa a respeito das modificações do que elegemos como verdade e de como a própria verdade é localizada como aparecendo “melhor ali do que aqui”. Assim, segundo o dogma denunciado por Foucault, a verdade do presidente Lula não estaria em outro lugar que outro senão no comportamento sexual do Lula operário. Do mesmo modo a verdade de FHC não estaria em outro lugar que não o de como ele teria produzido um filho em uma jornalista da Globo. Do mesmo modo a verdade de Bill Clinton não estaria em outro lugar senão no vestido esporreado de Monica Lewinsky. Diga-me com quem faz sexo ou com quem tem desejos ou com quem sonha no sexo e te direi quem és – eis a regra que não diz nada, mas que se tornou o calvário aproveitado por Benjamin para colocar a si mesmo e a todos que a ele responderam, às pressas, na defesa ou no ataque.

Ora, podemos ter algum conhecimento sobre Lula, FHC e Bill Clinton observando suas práticas e gostos sexuais. Mas esse conhecimento é um conhecimento que é útil para, por exemplo, alguém como Fernando de Morais, um ex-comunista produtor de biografias pagas (por amigos e adversários). Mas, não temos que confundir isso, esse tipo de conhecimento, com a verdade de uma suposta essência de Lula ou essência de Bill Clinton ou essência de FHC. E isso não somente porque Lula, Clinton e FHC não possuem essência alguma, aliás, é claro, como todos nós. Mas, sim, porque deveríamos ver essa conversa sobre a verdade de uma pessoa enquanto a verdade de seu comportamento sexual ou seu gosto sexual como um mero dogma. Um dogma que a leitura de Foucault deveria ter nos transformado a todos em pessoas mais espertas.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo. http://twitter.com/ghiraldelli

Paulo Ghiraldelli Jr é filósofo e escritor. Doutor e mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Doutor e mestre em filosofia da educação pela Pontifícia Universidade Católica de S. Paulo (PUC-SP). Tirou seu “pós-doc” pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), sua livre docência pela Unesp, onde também foi o professor titular concursado. Atualmente, Paulo Ghiraldelli Jr. dirige o Centro de Estudos em Filosofia Americana. Autor de diversos livros, lançou recentemente em bancas a coleção História Essencial da Filosofia, pela Digeratti. Sobre o assunto correlato à questão acima, publicou pela Ática O corpo – filosofia e educação.

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