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Direita ou esquerda?

28/01/2010

Direita ou esquerda? Há quem diga que nem uma nem outra posição é válida agora. Todavia, essa posição para além da divisão clássica não existe. As pessoas se comportam de determinado modo na política e, enfim, isso é facilmente identificável como direita e esquerda, bem mais hoje do que há dez anos.

A direita e a esquerda democráticas respondem a ideais postos na Revolução Francesa, os de igualdade, liberdade e fraternidade. Ambos concordam em tese com a fraternidade, mas divergem sobre igualdade e liberdade. Na tradição européia, que ainda é a nossa, apesar de nossa crescente tendência ao bipartidarismo que lembra os Estados Unidos, a direita diz que a igualdade que a esquerda prega precisa demais da ação do Estado e, por isso, vai terminar por sufocar as liberdades individuais. A esquerda retruca que a liberdade que a direita quer é retórica, pois ninguém consegue ser realmente livre em uma sociedade em que a distância social é excessiva.

Até pouco tempo, os Estados Unidos tinham uma tradição diferente. A esquerda tendia a falar menos de igualdade e mais de liberdade, pois entendia que a ação do Estado sempre seria pouco aconselhável, algo no sentido de forçar o cidadão a situações pouco confortáveis. Com a crise econômica que Obama agora busca administrar, também nos Estados Unidos a esquerda começa a falar mais em igualdade, ainda que lá, diferente daqui, a intervenção do Estado na vida individual seja bem menos agradável aos olhos do americano médio, seja ele radical ou conservador.

No Brasil atual, nossa direita política não é fascista. Por sua vez, nossa esquerda atual, mesmo que possa aparecer aqui e ali ligada ao comunismo, não faz nenhuma defesa da “ditadura do proletariado”. O partido comunista e outras agremiações do tipo, fora ou dentro do PT, atuam como partidos social-democratas, às vezes até de modo mais tímido do que foi a social democracia no passado. E o PT atua aquém da social democracia até, vivendo mesmo de um esquerdismo do tipo do “Segundo Vargas”, generosamente assistencialista. O termo “direita”, que havia se tornado menos pejorativo ao final dos anos 90, agora voltou a não ser mais querido. Todos se dizem ou democratas ou de esquerda. Isso é retórico, mas mostra que ao menos no campo semântico, a Queda do Muro e o fim da URSS foram coisas distantes, vistas por nós pela televisão, sem grandes marcas históricas em nossa mentalidade política média.

Todavia, quando o debate tende a ficar ideologizado, ao menos nas camadas mais escolarizadas que a imprensa tende a ouvir demais, acusações esteriotipadas reaparecem. Reacendem-se os monopólios. A esquerda quer ter o monopólio dos pobres, ou seja, o direito à defesa da igualdade. Faz isso, não raro, se esquecendo da liberdade. A direita quer ter o monopólio da causa da liberdade quase que naturalmente, mas, infelizmente, a coloca de lado se, por um acaso, a defesa da igualdade comece a radicalizar. Nesse caso, a direita recrudesce e insiste que a esquerda vai apelar para o totalitarismo mais cedo o mais tarde. A esquerda reage e diz que o descompromisso da direita com os pobres a coloca desdenhosa com a justiça social e, enfim, também com os avanços da legislação que protege direito e liberdade de  minorias. Assim, na conta da esquerda, a defesa da liberdade feita pela direita não seria senão o da liberdade de imprensa – a “imprensa burguesa” ou, como agora se diz, a “o falatório midiático superficial”.

A esquerda no Brasil é Lula. A direita é a Veja. Ideologicamente, o resto é penduricalho. A direita no Brasil vem a galope mais pela imprensa do que propriamente pelos os grupos políticos que estariam na oposição ao Lula, e a reação de esquerda se faz também nesse plano. Em outras palavras, grupos como o reunido pela Veja criam um pandemônio ideológico muito mais acirrado do que os políticos mais proeminentes do PSDB e DEM, de um lado, e do PT e aliados, de outro, poderiam querer. A classe média escolarizada tende a acompanhar muito mais a mídia do que propriamente os políticos. Estes são mais pragmáticos. Sabem que uma aposta no voto ideológico nunca é coisa boa. Mas, às vezes, se empolgam com a mídia e terminam por, também no parlamento, deixar de lado a atitude corretamente pragmática e enveredar por discursos ideológicos.

Assim, às vezes assistimos debates que já deveriam ter se encerrado há muito. Um senador do PSDB vai à tribuna para falar que Cuba é uma ditadura. Uma novidade fantástica! Depois volta para um discurso longo e inútil sobre o quanto Chávez quer escravizar o povo venezuelano, e aproveita para concluir com a bobagem de que isso seria o mesmo que Lula gostaria de realizar no Brasil. Essas análises descabeladas são frutos de ideologização em excesso. Discursos assim são anacrônicos e acabam soando mais ridículos que os do próprio Chávez, e olha lá que este é habilidoso na arte de falar asneiras.

Chávez vai mal das pernas agora, mas se fosse bem, talvez pudéssemos assistir algum tolo da esquerda, do PT ou coisa parecida, morder a isca do PSDB e ir discursar em favor de regimes fechados ou, então, ficar enumerando conquistas sociais de duvidosa validade de Cuba ou de um futuro que nunca chega, na Bolívia.

Esses discursos ideológicos são tolos. Os políticos mais inteligentes são aqueles que percebem que a ideologização discursiva é ruim. O brasileiro precisa de mais igualdade. Mas nunca irá deixar isso ocorrer sem liberdade. Nossa índole não é a de quem topa a adoção de regimes fechados. Tanto isso é verdade que nosso regime militar nunca conseguiu eliminar eleições ou governar sem algum tipo de parlamento. A política nunca desapareceu de vez entre 1964 e 1985. Felizmente, agora, ela está a todo vapor. Ideologizá-la em demasia, a ponto de se deixar de lado necessidades prementes de liberdade e igualdade articuladas a feitos reais, concretos, que melhorem nossas vidas, é uma grande tolice dos políticos. É bom que eles leiam menos a Veja e não dêem ouvidos para marchinhas de rua como as do pré-64, e isso nos dois sentidos, pois esse recado vale tanto para a esquerda quanto para a direita.

O brasileiro quer, afinal, duas coisas. Quer a estabilidade da moeda de FHC. Quer o aquecimento do mercado e a capacidade de compra ampliada de Lula. Isso é igualdade e liberdade do brasileiro. E ele está certo, pois é a participação no mercado e o consumo que trazem a fraternidade. Foi assim que o capitalismo civilizou relações, ainda que, em determinados momentos, tenha colocado todo o mundo em guerra.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo. Perguntas? Faça aqui no http://formspring.me/ghiraldelli e participe de nosso http://twitter.com/ghiraldelli

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8 Comentários leave one →
  1. 06/02/2010 5:07

    O brasileiro precisa de mais igualdade. Não sei a que tipo de ideologia o sr. se refere em seu demagógico texto , mas de qualquer forma perdi um segundo de minha ao compreende-lo e tenho algo muito sério a lhe dizer: DEVERIA APRENDER A FAZER PIZZA E COLOCAR A MÃO NA MASSA…

    • 08/02/2010 23:02

      Meu texto não foi feito para uma pessoa burra como você. Você é um dos leitores mais burros que já tive. Não volte mais.

      • liberelv permalink
        14/05/2010 19:16

        Paulo Ghiraldelli, por que você defende uma teoria falsa e inconsistente como o marxismo?

      • 26/06/2010 12:18

        Comece a ler filosofia pelo começo e com inteligência. Pois se esse artigo aí leva você a achar que defendo o marxismo, você vai mal. Vai pior ainda ao falar do marxismo o que falou, não sabe o que está dizendo.

  2. paulocesarferraro permalink
    11/02/2010 12:22

    Bom, gostei do texto, aliás gosto de todos os seus textos, mas aí vai o meu comentário , de tamanho desproporcional para um comentário e que talvez eu o transforme em um bom texto depois rsrsrsrs

    Na verdade creio eu que a política partidária brasileira é dominada pela Social-democracia, mas uma espécie de Social-democracia apática, tanto PT, PSDB, PMDB e PFL compartilham mais ou menos as mesmas propostas de formação de um Estado de Bem-Estar social, não de forma pleno claro, mas sim com alguns elementos do consenso de Washington e do neoliberalismo em geral, é óbvio que existem profundas diferenças na origem desses partidos e tem sim alguma divisão ideológica, uma idéia aqui que lembra mais o socialismo, outra idéia ali que lembra o direitismo, mas nada muito drástico, como você mesmo disse o discurso ideológico dá lugar ao discurso do administrador, agora é quem administra melhor para que assim possamos chegar mais rápido naquele estado de Bem-Estar social tão esperado e a própria mentalidade política da população é essa,não há realmente muita influencia nas extremidades do quadro de correntes ideológicas, seja a de fascistas, a de comunistas ou a de liberais radicais.

    O entrave ao crescimento do país fica por conta mesmo da incompetência e corrupção, essas questões que estão ligadas ao passado colonial nosso…

    Quero fazer duas observações pertinentes aqui, uma é a de quando você fala sobre enumerar conquistas sociais de duvidosa qualidade em Cuba, a verdade é que houve um nível de conquistas sociais bastantes reais nos países socialistas, Rússia, Leste Europeu e Cuba e China pelo menos, a educação e a saúde passaram a atender as necessidades básicas da população, uma educação básica de boa qualidade e uma saúde de boa qualidade foram o que esses povos passaram a ter, aconteceu também uma reforma agrária de grande envergadura que realmente cumpriu a que veio fazer, pelo menos num primeiro momento, a criminalidade baixíssima, uma conseqüência até que natural da situação,então se compararmos essas conquistas as situações dos países capitalistas do terceiro mundo, vemos que estes estão muito piores, mas quando comparados com os do primeiro mundo a situação se inverte, é como se o desenvolvimento do socialismo tivesse chegado num limite logo quando começou a dar frutos e foi incapaz de fazer frente ao desenvolvimento econômico-social que a economia de mercado propiciou nas partes centrais do capitalismo mundial, e acabou entrando em declínio acentuado.

    A outra observação é quando você fala do capitalismo, como se estivesse comprovado que ele é o bem a que a humanidade deve buscar, eu discordo, não tenho certeza se a economia de mercado é fundamental para o desenvolvimento das sociedades, ainda acredito em alternativas, ainda mais agora que nos deparamos com o mostro das mudanças climáticas que vem cobrar o preço pelo crescimento industrial que o Homem está promovendo desde a primeira revolução industrial movida pelo carvão e pelas fábricas de tecidos no século XVIII.

    Desculpe-me por ter me alongado talvez até desnecessariamente e por qualquer falta de concordância e pontuação, mas fui apenas escrevendo mesmo e já postando de imediato, porque de outra forma acabava desistindo de comentar rsrsrsrsrs

    • 24/02/2010 19:26

      Assista o Hora da Coruja, meio dia, na ALL TV aos sábados, OK?

      • 12/11/2010 17:53

        Aprecio muito seus artigos, e ao ler este e os respectivos comentários, me veio a mente o seguinte: Por que um partido mesmo no poder é taxado de esquerda? Essa dicotomia direita e esquerda, destra e sinistra, certo e errado, o bem e o mal. Quanta perversidade, taxar um partido que contemple políticas públicas aos miseráveis, de esquerda, estar a favor do povo é esquerda e da elite é ser de direita. Isso é um tanto quanto feudal, não concorda. Eles (burguesia) puderam derrubar e degolar reis, subverter a política de Estado, mas quando chega a vez do proletáriado, é absurdo! Grato, e um forte abraço. Luis Claudio Nosete Stevanin

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