A ditadura do amor
As ditaduras são vistas como regimes de ódio. Mas a pior ditadura é a ditadura do amor. Entre as ditaduras do amor, a mais perversa é a que abocanha a mulher, condenada a amar sua prole.
Uma mulher que cai na prisão por qualquer crime só é unanimemente molestada pelas outras caso sua falta seja a de abandonar um filho. Jogadas ao azar da vida, as mulheres na prisão, barbarizadas, enxergam que devem fazer justiça com as próprias mãos se uma outra mulher não cumprir sua “função de mãe”. A sociedade fora das grades faz a mesma coisa. A mãe que mostra qualquer gesto visto como o do não-amor ao filho só tem equivalente em monstruosidade ao homem que é acusado de pedofilia. Essa moral das cavernas é reproduzida no lar, na manicure, no trabalho e na universidade. A mulher pode não mais saber cozinhar e pode falar com gosto que “cuidar do marido” é coisa do passado. Mas, ser mãe e amar os filhos, ou ela faz isso e, mais importante, diz que faz, ou será posta para escanteio. A mulher não perdoa a mulher por não viver a ditadura do amor à prole.
Não são poucos os filósofos que, quando buscam a essência do que seria o amor verdadeiro, querem encontrá-lo na relação mãe-filho. (1) Talvez eles até tenham alguma razão nisso. Mas a contrapartida aparentemente lógica dessa idéia não é nada boa. Diz-se então, numa falácia, que se a mulher não mostra que ama seu filho, então ela não ama nada. Um homem que não ama nada é um homem frio. Uma mulher que não ama nada é um alienígena perverso que merece a morte – mas não sem antes uma boa tortura. Sabe-se muito bem que bruxas não têm filhos.
Essa ditadura é aceita pelas mulheres e incentivada antes por elas mesmas que pelos homens. Na história do Ocidente só mesmo o movimento anarquista, em algum momento, conseguiu falar em “greve de útero”. Foi esmagado talvez antes por isso que pelas supostas greves no trabalho. Atualmente, qualquer atividade que possa aparecer como a negação da atividade materna, antes em teoria que de fato (!), é vista com maus olhos. A maioria das mulheres que defendem o direito ao aborto são as primeiras a ficarem horrorizadas com algumas de suas colegas que, antes do direito ao aborto, querem ter o direito de não ter de gastar o amor com filhos.
A ditadura do amor, porém, não tem só defensores explícitos. São dezenas de profissionais os que estão a serviço dela, trabalhando dioturnamente para que a lei da maternidade seja cúmplice e incentivadora, subrepticiamente, do que se pode chamar de lei do amor a todo custo. Li esses dias na nossa imprensa uma dessas sutis incursões a favor da ditadura do amor. (2) Psicólogos, terapeutas, pedagogos e outros dessa linha falando do “movimento pelo brincar”. Esses inventores da roda e descobridores de Américas dizem que as crianças precisam brincar. Falam (vagamente, é claro) sobre as distorções causadas pela falta da brincadeira tradicional na vida de meninos e meninas. Rousseauístas inconscientes e acríticos, eles insinuam que os adultos não serão boas pessoas caso não brinquem. Tentam apavorar as mães com as estatísticas, mostrando o quanto as crianças do mundo todo estão deixando de brincar, optando pela “abominável TV”, a Internet e atividades programadas em escolas ou atividades extra-curriculares. A classe média se apavora com o futuro de seus rebentos. A conclusão é óbvia: de um lado, as escolas interessadas no dinheiro, podem voltar ao lúdico, caso a classe média engula essa “novidade”; de outro, as mães devem, por amor, voltar a brincar mais com seus filhos. Nesse caso, toda e qualquer mãe! E até não mães! Haja mulher para agarrar e botar nessa senzala.
Não! Não adianta as mães contratarem babás. Nem adianta a Gelol querer dizer que “não basta ser pai, tem de participar”, porque a sociedade nossa não é movida familiarmente pelo macho e, sim, pela fêmea. A mãe é trazida para dentro de casa, amarrada com bola de ferro aos filhos, infantilizada pela brincadeira das crianças, separada de sua vida sexual e, então, ou se transforma em bola de puro amor ou deve ser jogada no poço do desprezo. É claro que as mulheres, diante disso, entram em depressão.
A raiva das mulheres contras os que denunciam a ditadura do amor é tamanha que não espante o leitor inteligente quando ler os comentários a este texto, de mulheres gritando contra mim: “eu sou feliz por brincar com meus filhos, sou feliz, sou feliz, sou feliz”. Vão esgoelar – duvidam? Outras dirão que não sei de nada, e que elas arrumam tempo para não só cuidar dos filhos como também brincar com eles. Outras falarão do quanto é importante não só para os filhos, mas também para os adultos, aprenderem a brincar com seus próprios filhos – aliás, já há profissionais da psicologia dizendo isso por aí. O romantismo disseminado pelo filósofo que Nietzsche chamava de “a tarântula moral”, Rousseau, sempre teve algo de malévolo, ditatorial e, enfim, como todos sabem, conservador.
É claro que do ponto de vista dos sociólogos, o mundo nunca tem problema. Entendendo pouco dos componentes subjetivos da vida, uns vão dizer que a questão se resolve com creches, através de uma política social democrata, outros vão dizer que o socialismo, criando uma nova sociedade, também disporá dos meios de fazer a criança brincar na escola. Ou seja, que se arrumem mães em algum lugar! O que não pode parar é a ditadura do amor.
Mas nós filósofos, que não temos como solucionar os problemas com tanta facilidade assim, iremos desconfiar de que essas medidas não trarão senão a libertação da mulher para que ela entre em outra prisão do amor – talvez a mesma! A ditadura do amor é a mais perversa invenção nossa, o que começou a partir do momento em que começamos a criar a possibilidade de reservar a mulher livre para o sexo – que acabamos nem fazendo direito –, prendendo as restantes a uma forma de amor que é o da relação com o mundo infantil.
Essa ditadura do amor foi uma invenção nossa, de homens e mulheres, mas não tem trazido felicidade real para nenhum de nós, embora suas verdades sejam mostradas como verdades para todo o sempre, certezas tão certas que… banais.
© 2011 Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor e professor da UFRRJ
(1) Harry Frankfurt assume isso em As razões do amor. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
(2) Movimento em Prol do Brincar: Estadão online de 16 janeiro de 2011.


Ótimo, se existe de fato uma ditadura do amor o que seria seu oposto? Como as mulheres deveriam viver então? Como deveria ser sua relação com os filhos?
E o que há de verdadeiramente tão errado em amar os filhos? Brincar com eles? Estar com eles?
De modo geral aprecio muito os seus textos, professor, mas este parece demasiado estranho, acho que o senhor poderia explicar melhor esta questão.
Venha discutir no facebook meu ou no meu http://ghiraldelli.pro.br Agora, como as mulheres deveriam viver, só as mulheres decidirão.
Gostei do texto professor ghiraldelli, mesmo que voce tenha sido turbinado pelo louco do Olavo de carvalho.
Sinceramente, sua concepção faz sentido, embora eu tenha umas colocações um pouco diferentes, e de fato fiquei curioso, qual seria o oposto da ditadura do amor? A democracia do amor? como seria?
O amor já teve concepções diferentes dependendo do momento histórico em que olhamos, portanto o amor obrigatório da mãe pelo filho pode mudar acompanhando a dinamica da sociedade e o Zeitgeist.
Grande abraço professor!!!
Alias, Ovalo não é louco, eu diria que é um banalizado pelo senso comum…
Caríssimo Professor Ghiraldelli, estive lendo alguns escritos seus e, em minha humilde opinião, são muito bons. Entretanto, vejo neste texto em específico, algumas colocações que não tem a menor base em si mesmas. Isso tudo é uma Psêudo-filosófia. Se as mulheres, para se libertar da “ditadura do amor”, devem “odiar” seus filhos ou tudo aquilo que levem aquelas a esta, – tendo isso como nova forma de se libertar, levadas por “…como as mulheres deveriam viver, só as mulheres decidirão”- seriam elas tidas, também, como “…um alienígena perverso que merece a morte – mas não sem antes uma boa tortura”. Ademais acho essa colocação mais pessoal que universal e machista, pois os mesmos termos poderiam ser aplicadas aos homens. Homens que deixassem seus filhos em lixeiras, etc, seriam tidos apenas como “…um homem frio”? Agora dizer que “Alias, Ovalo não é louco, eu diria que é um banalizado pelo senso comum…” é um pouco demais, o senhor não acha? Esse texto mesmo é uma “forçação de barra” que transcende a barreira da filosofia. Algo como abdicar de… é o encontro de seu suicídio mesmo.
Respeitosamente.
Na nossa cultura nem tanto atual, cabe realmente as mulheres os cuidados com os infantes, antes esse cuidados eram somente da família até que as crianças estivessem prontas para a escola, com isso surgiu toda a discussão do que seria a infancia, de como o termo surgiu e tal… Muita coisa não mudou, embora a mulher esteja mais ativa no mercado de trabalho, ela tem que ser várias, não pode cansar de ser mãe, executiva, professora, mulher, amante, esposa, namorada… mas isso é uma escolha, e esta escolha é algo sutilmente imposta e aceita tanto pelo universo feminino, quanto pelo masculino… Uma mulher quer ter filhos, cuidar deles e trabalhar, e para isso organiza sua rotina de modo que tudo possa ser contemplado; o homem em geral não o faz, geralmente ele não consegue se ver falando ao telefone sobre algo pendente no trabalho enquato dá a sopinha do bebê, além de escolherem numa boa o que gostam ou não de dividir em casa… algo totalmente aceito por suas esposas que certamente criarão sua prole com o mesmo machismo que suas mães a criaram e suas sogras criaram seus esposos. E sim, uma mulher reluta em assumir que não quer ter filhos, outras dizem que não terão paciencia, que já se encheram com os filhos dos outros. Agora com relação ao fato de uma mãe abandonar seu bebê na lixeira, é revoltante, nao consigo compreender pelos olhos da própria ética, acho uma banalização da vida. E toda essa discussão a respeito do que se tem que fazer com os filhos, sempre terá, na própria filosofia os assuntos vão e vem. Vale lembrar que antes as crianças brincavam mais sim, só que não tinha mãe nem pai brincando junto não… elas corriam soltas, hoje vc vai ao parque e observa que as crianças não brincam, elas são monitoradas, não pode tirar as sandálias, “não suba tão alto, senão vc cai”; “filho sai da terra, vc vai se sujar”; “sorvete agora não, ontem vc tossiu”… … … … então é melhor mesmo deixar eles quietinhos brincando no computador, assistindo a desenhos, até porque hoje as pequenas cidades estão grandes demais, não se pode mais sair por aí de bicicleta, sentir a terra nos pés, o sol queimando a ponta do nariz.
Acho que compreendo sua reflexão. Ditaduras não prestam nunca. Nem a ditadura do amor próprio, não é?
A liberdade de não amar é um “livre arbítrio divinamente oferecido”.
Por essas e outras que conclui que o sentimento do amor não existe. O que existe é o espirito de amor. Ou se o recebe, permite-se recebe-lo ou não. A escolha é de cada um.
Eu gosto, tenho imenso prazer quando ele me incorpora. Como agora. E é esse prazer sempre experimentado que me abre para incorporá-lo.
Tem gente que leva a sério isso?!
Eu preciso ir embora mesmo…
Desse planeta!
Você com essa cara deveria já ter ido embora desse planeta faz tempo.
Parabéns professor…
O que os “críticos” não entenderam absolutamente a idéia do seu texto, que, aliás, traduz em raciocínio um sentimento que muitos possuem de maneira confusa e não confessam para si e para os outros.
Continue assim!