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Voto não enche cabeça?

06/11/2007

Papagaio com cérebro

[Clique aqui para a versão publicada: Especial para o Estadão] 

Parece que foi ontem, mas já faz 16 anos do fim da União Soviética (URSS). Esse número de anos é importante, o 16, pois é exatamente a idade que um brasileiro precisa ter para ganhar direito de voto. Assim, no próximo ano estarão com direito de voto os brasileiros que nasceram num mundo em que o comunismo não só deixou de existir, mas passou a aparecer na TV como o segundo mais importante vilão político do século 20 (o primeiro continua sendo o nazi-fascismo).  

Esses eleitores podem bem ser os filhos dos jovens brasileiros cujas idades são equivalentes às dos que estiveram dando marretadas no Muro de Berlim. Diferentes de seus pais e estranhos aos de minha geração, esses eleitores não viram – a não ser como vídeo histórico – as portentosas comemorações militares do dia 25 de outubro na URSS. Caso a “pátria-mãe socialista” ainda existisse, a Revolução Bolchevique teria completado 90 anos. Certamente o mundo veria as ogivas nucleares passando na Praça Vermelha. O filósofo Karl Marx, que nunca gostou de armas e acreditava na capacidade de fazer transformações por meio não da guerra dos corpos, mas da guerra semântica, apareceria como o responsável pelo tal desfile de máquinas de matança. 

Mas o dia 25 de outubro, agora, é um dia normal. Mesmo os da minha geração, inclusive os mais politizados, podem ter passado esse dia e até mesmo o mês de outubro todo sem sequer se terem lembrado por um minuto dos 90 anos da Revolução Bolchevique. O império militar erguido em nome do comunismo não é só coisa do passado, é algo mais longe no passado do que qualquer acontecimento de séculos anteriores ao 20. A URSS nasceu velha, pois veio ao mundo sem democracia e com uma dificuldade imensa de distribuir tecnologia e bens à sua população. Durante toda a sua existência representou para o Ocidente uma enorme força conservadora – tudo ali era difícil, velho, lento e emperrado. Até mesmo a morte de seus líderes era demorada, ocorria por etapas, segundo um longo processo burocrático. 

Era engraçado. O líder ficava doente e, então, sumia. Ninguém sabia o que iria acontecer. Todos ficavam esperando um sinal do chamado “Partido”, como quando ficamos aguardando sair a fumaça que anuncia um novo papa. E, às vezes, isso nem ocorria. O líder era “redesenhado” e “reconstruído” numa das célebres “clínicas geriátricas” do comunismo e aparecia por mais algumas semanas. Quando enfim “morria oficialmente”, aparecia o novo líder, que prometia reformas e maior diálogo com o Ocidente. Mas as filas continuavam a existir e a liberdade se mantinha escassa. Aqui, no Brasil, alguns comunistas elogiavam tudo aquilo. Mas nenhum comunista brasileiro dava um carro Lada a seu filho. Havia limite para ser maluco. 

Passado todo esse tempo, o limite para ser maluco tem desaparecido para alguns. Encontramos jovens que, na falta de um entendimento maior do que foi a URSS, querem namorar idéias ditas socialistas e, rapidamente, desconsideram a democracia. Eles são motivados por dois fatores. 

Uma primeira motivação vem da direita política. Alguns periódicos de direita, talvez por falta de assunto, ressuscitam a doutrina comunista, criando fantasmas. Olham para o MST ou para a imagem do vendedor de camisetas número 1 do mundo, Che Guevara, e atribuem uma dimensão doutrinária a tais coisas. Apresentam a figura grotesca de Hugo Chávez como a de um “revolucionário”. Imagina alguns “mensaleiros” do PT como “perigosos esquerdistas”. Não! Isso não existe. É fantasia da direita. O PT não é mais nem de esquerda nem de direita, é apenas um conglomerado de amigos tentando se agarrar ao presidente Lula para ver se conseguem um emprego público. Não há nenhum programa doutrinário e político nisso. 

A segunda motivação que faz alguns jovens voltarem a pensar na viabilidade do comunismo vem dos democratas, ou seja, de pessoas como eu mesmo. O que oferecemos aos jovens? Somos pessoas que passaram pela ditadura militar, que nos deixou marcas. Somos pessoas que viveram já 22 anos de democracia, mas não tiramos o País do Quarto Mundo. Mas, como não estamos vivendo uma crise grave, nos levantamos e vamos para o trabalho, cumprimos nossas funções, voltamos para casa e assistimos à TV. Se Renan Calheiros traz mais gente para posar nua, avaliamos – de preferência na internet, pois a revista está cara. E no outro dia fazemos tudo igual. Lutamos para chegar ao que os americanos chamavam de “o tédio da democracia”. Estamos contentes pelo tédio. Pois todas as vezes que nos tiraram do tédio, no passado, não foi bom. Ou foi para nos acordar à noite, nos chamar de subversivos e nos engaiolar, ou foi para nos tomar algum dinheiro por meio de um plano econômico maluco. Então, passamos a dar valor ao tédio. 

Ora, o problema é que a juventude odeia o tédio. O nosso gosto pelo tédio não atrai os jovens. Não temos nada de encantador na democracia para oferecer? Tenho uma idéia para quebrar o tédio, a de dizer aos jovens o seguinte: nossa democracia não está acabada, vocês podem ser revolucionários se perceberem que democracia não é só a realização da vontade da maioria, mas a vontade da maioria associada ao respeito pelos direitos das minorias. E nisso há muito que se fazer no Brasil. O melhor da democracia é que ela é aperfeiçoável, os outros regimes, não, eles são essencialmente conservadores. A democracia permite sonharmos com mais democracia. A liberdade nos deixa sonhar com mais liberdade. A diversidade empurra a imaginação para sermos mais ricos em diferenças úteis. A democracia é voto, certamente, mas ela permite muito mais. Ela é o melhor campo para realizar os melhores ideais do socialismo, sem ter de arcar com os seus defeitos. Para o jovem inteligente, creio, isso deveria ser motivador. 

Paulo Ghiraldelli Jr., o filósofo da cidade de São Paulo. E-mail:pgjr23@yahoo.com.br

Mais? Leia o Portal Brasileiro da Filosofia: www.filosofia.pro.br . E assista a TV Filosofia. Clique aqui.  

 

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