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MEC assume: somos incapazes

04/12/2007

Lula

“Mec assume: somos incapazes” (texto articulado ao conteúdo do programa Filosofia na Meia Noite, no vídeo do sidebar). (Outra alternativa: escute nosso podcast)

Era desejável uma reação diferente do MEC diante dos resultados do último PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), um exame mantido pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Na prova de ciências, o Brasil arrancou a 52ª posição num total de 57 países. A resposta do MEC foi simplesmente esta: “já era esperado”.

Temo que um dia, após uma catástrofe em algum setor, envolvendo muitas mortes, algum desses ministros do Lula apareça na TV com esta frase: “fiquem tranqüilos, isso é normal”. Em situações difíceis há um trio de enunciados: “eu não sabia” ou “já era esperado” ou “peço desculpas”. Lula ensinou isso aos seus rapazes; e eles – exceto o Marco Aurélio Garcia –, aprenderam bem. Quando há roubo, vem o “não sabia”; quando há uma frase imbecil, surge o “peço desculpas”. O “já era esperado”, do MEC, não inova.  

Ora, algo ruim que “já era esperado” não poderia ocorrer. Afinal, para que existe esse governo aí? Para nos contar o que já sabemos? Mas vamos aos aspectos técnicos do problema.

1. Uns observadores tomam as questões relativas a investimentos e racionalidade de usos de recursos. Apontam que o Brasil gasta pouco em educação, proporcionalmente ao que deveríamos gastar diante de nossas deficiências. Estão corretos. Os que dizem que gastamos o suficiente em educação, mais ou menos como outros países, não fazem o balanço de nossas necessidades. Estão errados. Aliás, o governo Lula, neste caso, é culpado de não gastar o que é legalmente necessário do PIB na educação.

2. Outros observadores perseguem as questões relativas às “práticas escolares” da educação brasileira e, neste caso, há uma maior diversidade de opiniões. Os analistas mais conservadores tendem a isolar determinadas escolas, ver as que obtêm êxito e as que não obtêm, e então criam um “ranking”, colocando as duas situações, a de êxito e a de fracasso, em pólos eqüidistantes. A partir daí, colhem as práticas na escola que dizem “ter êxito” e aconselham que sejam aplicadas ao resto. Esse procedimento é visto com bons olhos entre pessoas do MEC. Como o vejo, nada mais é que um erro teórico crasso.

No caso, o correto é atacar os problemas com estratégias de curto e médio prazo, segundo um mapa de prioridades que leve em consideração os resultados das pesquisas básicas, historicamente desenvolvidas, a respeito da educação brasileira. Nesse sentido, tenho procurado concordar com outros analistas em relação a quatro pontos.

Primeiro: os professores precisam estar fixos em uma só escola, e terem uma carreira com méritos intelectuais que revertam em melhoria das condições de vida e trabalho. Isso implica em não mais calcular o salário do professor como se ele fosse um trabalhador igual a outros. Não, ele tem de ser visto como um trabalhador que deve ganhar mais na medida em que, para poder trabalhar, gasta em aquisição de bens culturais. Nenhum outro trabalhador gasta (ou gastaria) tanto quanto o professor em sua renovação diária de capacitação. Revistas, livros, jornais, cinema e teatro são gastos básicos de um trabalhador da educação, não podem ser tomados como lazer.

Segundo: a escola brasileira par excellence é a escola pública, que deveria ser unificada e considerada como pólo irradiador de cultura em cada bairro e município. Para tal, a última coisa que se deve fazer é levar adiante a pedagogia empresarial, que é a menina dos olhos da direita política e do MEC – como está estampado no site www.deolhonaeducacao.com.br . A política educacional de nossos governos é a do “faça você mesmo”. Segundo tal política, nada é de responsabilidade do Estado. Tudo que se tem de fazer é da responsabilidade de professores, diretores e, enfim, da famosíssima “comunidade”. Aqui, há um estranho acordo entre direita e esquerda: inventaram a tal de “comunidade”, povoada de pais e cidadãos bem intencionados, que devem cuidar da escola o tempo todo. Ninguém mais poderia ir para o trabalho no Brasil, segundo essa política, pois todos teriam de ficar o tempo todo na escola, cuidando de milhares de aspectos ali presentes, e que crescem a cada avalanche de novas modas psicopedagógicas.

Terceiro: faz-se necessário uma reforma completa nas escolas de formação de professores no Brasil. O curso de pedagogia (e similares ou derivados) não pode continuar a ser o (único) formador de professores de primeira à quarta série. Temos de reconstruir a Escola Normal de nível médio e, para tal, retomar o projeto glorioso do CEFAM,que ocorreu em São Paulo. E não podemos mais conviver com o tipo de licenciatura existente hoje, tanto a da faculdade pública quanto a da particular. As licenciaturas precisam ganhar um horizonte melhor, e a “parte pedagógica” da grade curricular desses cursos não pode continuar a ser o que é. Do modo como a licenciatura é encarada no Brasil, estamos diante de um curso de terceira categoria, independentemente da faculdade em que ele é ministrado.

Quarto: todo esse esforço tem de resultar na melhoria do brasileiro em ler e escrever, em compreender o que lê. Os analistas do PISA continuam falando, a respeito do Brasil, que o aluno brasileiro responde “por cima”, “interpretando” o que lê, pois não tem objetividade no trato com a cultura escrita. Não entende o que lê e, então, “na raça”, tenta imaginar algo para responder. Daí a quantidade de “pérolas” que produz em exames.

O MEC não tem nenhum plano organicamente articulado nas mãos – nem na cabeça – para enfrentar os problemas. O MEC age como avestruz. E não conseguimos ajudá-lo, pois esse governo é arredio à inteligência, pois está preso a uma rede de amizades, a tal “República dos Companheiros”, que impede qualquer ação patriótica. Também na educação, Lula está decepcionando.

Paulo Ghiraldelli Jr., O filósofo da cidade de São Paulo

pgjr23@yahoo.com.br

PS: Veja o vídeo na lateral (sidebar), correspondente à gravação de parte do programa da TV Filosofia, o show número 3 do Filosofia na Meia Noite. No programa o tratamento da questão é mais ampla, não se resumindo ao problema educacional, ficando no campo da retórica e da “guerra semântica”, portanto, no âmbito do que está discutido em “Sinédoque e Tropa da Zelite

 

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