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Mônica Nua pelo Bem do Brasil

06/12/2007

Bill e Monica

 

[Ouça pelo podcast]

 

A palavra pornografia entrou para os dicionários de filosofia. Trata-se de um ganho que veio dos feitos do movimento feminista, em especial o americano, e de seu correlato acadêmico, os “estudos de gênero”. Vejo com bons olhos essa possibilidade que alcançamos, nós filósofos, de poder tomar a pornografia como um verbete em nossos dicionários técnicos. Ao contrário de restringir nosso olhar, como alguns podeiam pensar, principalmente aqueles que gostariam de ficar com termos como “eros” ou “erotismo” ou mesmo “sexo” ou “amor sexual”, o verbete pornografia nos coloca no interior de um espaço lógico-semântico muito mais ampliado. Podemos, agora, graças a tal verbete, dirigir nossas baterias filosóficas anti-aéreas para novos céus, em busca de aviões diferentes para abater.

Não é de hoje que a filosofia vem estudando as questões sexuais nas suas ligação com o poder. Nos tempos modernos e contemporâneos, Marx e Foucault lidaram com o sexo a partir de uma análise não do sexo, mas do poder. Atualmente, penso que poderíamos inverter a seta. Eu explico.

Nos seus escritos, Marx mencionou como que a moral burguesa fazia de todo relacionamento algo parecido com a prostituição. Ele dizia que os burgueses haviam transformado suas casas em bordéis. Os burgueses se divertiam um com a mulher do outro – percebendo ou não no que haviam se metido. Ao privatizarem a vida das mulheres como o fizeram, teriam as tornado propriedade coletiva.

Foucault foi mais longe. Contra a chamada “hipótese repressiva” dos freudo-marxistas, Foucault defendeu a idéia de que em nossa época não somos extirpados da possibilidade de nos interessarmos pelo sexo, mas, ao contrário, somos levados a falar de sexo o tempo todo. Para explicar essa atenção ao sexo, esse tipo de “interesse pelo corpo”[1], Foucault lançou mão das idéias de “biopolítica da população” e a “anátomo política do corpo”.[2]

Marx e Foucault olharam para o sexo e para a pornografia a partir do interesse que tinham no poder. Isto é, eles foram do poder ao corpo, do poder ao sexo, do poder à pornografia. Mesmo quando fizeram o caminho do sexo ao poder, estavam interessados no poder. Isto é, eles se ocuparam de como que o corpo, o sexo e a pornografia apareciam como objetos do poder. Minha preocupação não é esta. Não aqui, neste escrito. Penso que em nossos tempos os eventos que envolvem o “espetáculo do erotismo” mostram que deveríamos percorrer um caminho inverso; deveríamos notar o caminho que vai do corpo, do sexo e da pornografia para o poder. Pois uma coisa é ver como que o poder faz a geografia e a história do corpo, do sexo e da pornografia, outra coisa é ver como que o corpo, o sexo e a pornografia batem na porta do poder para pedidos de várias ordens e de múltiplos tipos. Minha pergunta não é pelos efeitos do poder no corpo e correlatos, no sentido da análise da vida do poder, mas sobre por que esse triunvirato – corpo, sexo e pornografia – buscam o poder, e o que tiram dele. 

Alguns não entendem minha pergunta. Estão tão envolvidos pela mão única de Foucault e de Monica VelosoMarx, que só captam os vocabulários em que as palavras são vetores do poder apontados para o triunvirato em questão. Peço que considerem outro tipo de organização das narrativas, discursos e vocabulários. Peço que percebam como que o triunvirato busca o poder como algo que é seu alimento. Em outras palavras: acho pertinente entender as relações de Renan Calheiros com Mônica Veloso, que são as relações que vão do poder ao corpo; mas estou interessado, aqui, no inverso, isto é, nas relações de Mônica Veloso com Renan Calheiros, as relações que vão do corpo ao poder. Pois é evidente que o corpo, o sexo e, enfim, a pornografia, não conseguiriam viver como vivem se não estivessem como elementos alimentados pelo poder. Não é o poder manipulando o triunvirato que me interessa aqui, e sim o triunvirato tendo de vampirizar o poder para a sua existência.

Minha questão central não é a de como o poder (Renan) gerou o que gerou no envolvimento com o triunvirato (Mônica), mas como que o triunvirato talvez não tivesse nenhuma sobrevida se não pudesse reconfigurar seu poder a partir do sangue tirado do poder político. Em outras palavras: ninguém acharia Mônica uma mulher capaz de fazer alguns gastarem dinheiro em uma revista se Mônica não tivesse colocado seu corpo na cama de um senador – o presidente do Senado. Pagamos com o nosso dinheiro para que Renan usufruísse de sexo e criasse a mais bela pornografia para si mesmo. E pagamos novamente para ver tudo isso, depois, na revista e elementos correlatos. Mas qual a razão de podermos pagar tanto? O que nos faz valorizar o triunvirato? Sim, é o poder. Mônica se torna atraente e ganha vida após ter sido tocada pelo pênis-rei, o pênis do Senado(r) da República. Mas, neste caso, não é o pênis quem manda; ao contrário, nessa situação ele, o pênis, obedece. Não é o poder da República que manipula Mônica, mas é Mônica, com corpo, sexo e pornografia, que chama o poder para que este dê alimento para ela, para que o triunvirato – corpo, sexo e pornografia – se mantenha e garanta a autonomia que a Mônica, como pessoa individual, já possuía.

A outra Mônica, a Lewinsky, não era bonita. Mas se tornou atraente quando foi batizada pelos charutos do Presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. A Veloso, embora mais atraente que a americana, não é nenhuma modelo, nenhuma deusa. E todos nós sabemos que o photoshopping é que realmente exibe o que vemos na revista. Mas não estamos preocupados com o que vemos com os olhos, e sim com o que pode despertar o desejo. E o desejo é desperto, nesse caso, por incrível que pareça, não a partir de uma relação com o sensível, puro, e sim por meio da articulação deste com o intelecto. Pois é a imaginação o elemento aí, no caso, que dá todos os comandos. Mas a imaginação poderia ir para outro lado. Poderíamos comprar a revista e, então, colocar nossa imaginação para funcionar, sonhando ter Mônica sentada pelada em nosso colo. Mas não é isso que o comprador da revista quer. O que ele quer é que a “amante do senador” apareça no colo de mais homens, e que ela mostre que comanda a República. Corpo, sexo e pornografia precisam do poder, do Senado, de Renan e, enfim, da corte republicana, e só então podem funcionar como “corpo-sexo-pornografia”.

Há explicação para isso? Não sei se tenho explicações, mas tenho uma narrativa, não muito nova, e que ainda serve para conversar sobre o assunto. Trata-se da narrativa criada por Adorno e Horkheimer a respeito do corpo, considerando um pouco as análises marxistas.

Na visão dos filósofos da Escola de Frankfurt, poderíamos falar que o que ocorre nada mais é que o fenômeno da reificação e do fetichismo. Isto é, no local onde estão os corpos à mostra – a revista –, onde deveria haver a vida, uma vez que ali está o sexo, há o morto, (eis aí reificação), enquanto que no local em que as relações deveriam ser meramente burocráticas – a administração da Cidade – e, portanto, nada haveria de vivo, é justamente o campo em que está a energia do vivo (eis aí o fetichismo). Tudo se passa como se o espetáculo do sexo não pudesse mais oferecer nenhuma vitalidade, tendo então de ir buscar sua vitalidade no âmbito do poder. Assim, a palavra poder encerra de fato poder – como substantivo e verbo. Poder é “power”, isto é, energia e força, e então, energia … sexual – libido. Eis que descobrimos no morto, que é o poder político, o que seria próprio do vivo, a energia que o freudismo chamou de energia libidinal. Assim, a pornografia e o erotismo, não conseguindo sobreviver sozinhos, precisam reaver o que teriam perdido, nada mais nada menos que sua energia vital.

É claro que, se continuamos no âmbito de um quase marxismo nessa conversação, então teríamos de dizer que o fenômeno da reificação e do fetichismo é ideológico, que há uma inversão, e que quando a Playboy (que é o campo do espetáculo do sexo) bate às portas da política (que é o campo do espetáculo do poder), abre-se um caminho de ilusão. Bate-se à porta da política para se conseguir de volta a libido, mas, na verdade, também ali não haveria libido alguma, ali haveria apenas o fetiche, a impressão (falsa) de se estar lidando com o vivo.

Todavia, a questão do que é falso ou não, aqui, pouco importa.  No caso, vale aqui o que se acredita. E o crédito é dado a Renan e Clinton; e é a partir deles, de seus postos e cargos, que suas Mônicas, como bonecas infláveis, voltam a funcionar.

Alguns diriam, diante disso tudo, que eu apenas descobri o óbvio, ou seja, que o poder é erótico. Mas eu discordo disso. Não vejo nenhum erotismo no poder. No que disse, o poder energiza o corpo, o sexo e a pornografia por uma razão específica, a saber: o triunvirato secou, foi esvaziado pelo processo de reificação. Em uma sociedade em que esse triunvirato não tivesse sido reificado, isto é, em relações sociais em que a objetificação do sexo fosse feita segundo uma demanda inerente ao próprio sexo, certamente não se precisaria ir buscar em qualquer outra instância energias faltantes. E o poder político seria o último lugar em que se pensaria que haveria energia, especialmente a libidinal.

Paulo Ghiraldelli Jr. – o filósofo da cidade de São Paulo

pgjr23@gmail.com  


[1] Ghiraldelli Jr., P. O corpo de Ulisses – Materialismo e modernidade em Adorno e Horkheimer. São Paulo: Escuta, 1995.

[2] Ghiraldelli Jr., P. O Corpo – filosofia e educação. São Paulo: Ática, 2008.

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