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Carta e Mainardi: jornalismo ilegítimo

07/12/2007

bicho único

 [Escute pelo podcast]

 Richard Rorty não gostava de falar em “ideologia”. Para ele o termo tinha uma carga metafísica pesada. Quem fala em ideologia coloca a questão do “real” e do “não real”, de modo a querer mostrar para o outro o que é de fato o Real. E quem quer mostrar o que é o real, vai acabar lançando mão de uma metafísica, uma teoria do duplo mundo, o mundo da caverna, em que todos pensam ver o real e só estão vendo sombras, e o mundo sob o sol, no qual vive o sabichão que denuncia a existência da caverna. Esse esquema, sabemos, é um prato cheio para o autoritarismo. É o esquema de quem afirma saber o que o outro não sabe, e que é necessário tirar o véu do rosto do coitadinho que não sabe que está enxergando sombras em vez do real.

Em geral, os teóricos da desideologização usam esse esquema. É um modo de pensar incompatível com o pluralismo e a visão democrática da filosofia pragmatista americana. Por isso, Rorty nunca quis conversar em termos de ideologia.

Eu levo a sério essa posição de Rorty. Em boa medida, eu a endosso. Então, quando faço uma leitura de textos políticos, tomo o cuidado de dizer que aquilo que vou apontar no texto pode até ser chamado de “mecanismo ideológico”, todavia, deixo claro que isso não quer dizer que eu esteja tirando o véu do rosto do leitor. Pois eu não tenho nenhuma realidade para apresentar. O máximo que posso fazer é ler o discurso político e dizer que enxergo ali mecanismos que não me agradam.

Assim, minha leitura do discurso jornalístico atual, da esquerda e da direita no Brasil, não é outra coisa senão isto: uma forma de dizer que há mecanismos nesse jornalismo que não me fazem confiar no que eles dizem.

Começo pela esquerda, mostrando um texto do Mino Carta. Depois vou para a direita, mostrando uma fala de Diogo Mainardi (5/12/2007).

O Mino Carta diz em seu blog que ele viu o resultado do exame do PISA, e que aquilo indica que estamos indo muito mal. E ele diz, então, que em todo lugar que ele anda a incultura está solta. No bar, na TV, nas redações, no futebol etc. Em tudo ele vê a incultura. É como se ele dissesse: os estudantes não sabem nada, mas isso é pela razão de que nossa cultura é assim mesmo, ou seja, nossa cultura é a dos incultos. De modo espantoso, ele não fala na escola. Ele não diz que a escola pública vai mal. Ele não ousa tocar na palavra escola. E pior, ele não se espanta com o fato que comenta. Ao contrário, ele o banaliza.

Ora, não posso não ver o discurso dele como não sendo uma peça de propaganda política às avessas. Pois é como se ele estivesse dizendo que nossa escola vai mal por conta de nosso país ser assim, ou seja, “ser assim mesmo”. Nossos alunos seriam o reflexo de seus pais, de nossa situação geral, e talvez até um problema de QI (!) E isso, como ele trata a questão, parece não ser algo que mereça outra coisa que não a frase do ministro da Educação que, diante do resultado do exame, disse “já era o esperado”.

Vamos agora ao discurso da direita. Diogo Mainardi, no seu podcast, está dizendo que foi censurado. Que os funcionários dos aeroportos tiraram de lá a propaganda do livro dele, Lula é minha anta. Ele diz que o que ocorreu é um abuso, e que a situação que vivemos é igual àquela apontada por um comentário histórico de Pedro Aleixo, o vice-presidente da República, quando ele próprio assinou o AI-5. O AI-5 foi o Ato Institucional da Ditadura Militar que suspendeu a maioria daquilo que conhecemos como “liberdades democráticas do Estado de direito”, em 1968. Quando Pedro Aleixo assinou o AI-5, ele disse que o problema seria o abuso que poderia ser cometido não por quem assinou, não pelo comando da Ditadura Militar, mas pelo “guarda da esquina”. Ora, Mainardi compara as situações e imagina que pode afirmar que é o que ocorreu agora; que a propaganda do livro dele foi tirada por conta de um funcionário que abusou do poder. Ou seja, ele não pode acusar o governo, então, acusou o funcionário. E ele acredita que toda a sociedade foi lesada por isso, como no caso de qualquer abuso que foi cometido na Ditadura Militar.

Não acho essa fala do Diogo legítima, e acredito que ela tem um erro. Ele pressupõe algo falso. Ele pressupõe que o funcionário está imune à punição. Ora, mas não está. O “guarda da esquina”, na Ditadura Militar, tinha a lei a seu favor para cometer o abuso. O funcionário da Infraero que fez o que fez, se este é o caso, deveria ser investigado. Mas não é o governo somente que tem de investigar. É o próprio Diogo que, se sentindo lesado, deve reclamar com a Infraero. Ele tem a lei ao seu lado. Pois não vivemos em um estado ditatorial.

Parece, ainda, que há outro pressuposto dele, também falso, que é o seguinte: como Lula é o presidente e veio da esquerda, então Lula seria naturalmente autoritário e, assim, deveríamos desconsiderar que vivemos em um Estado de Direito, democrático, e ao invés de simplesmente irmos para a Justiça quando tivermos um problema, devemos fazer alarde do que ocorreu e imaginar que temos de chamar a sociedade ao nosso lado, pois não teríamos como pegar o funcionário que fez o que fez.

Nos dois casos, tanto o de Mino Carta quanto o de Diogo Mainardi, o dispositivo usado por eles é o mesmo. E esse dispositivo, uma vez identificado por mim, faz com que eu deixe de apreciar a conversa deles. Trata-se da operação de abstração, feita no lugar errado e em hora imprópria. Mino abstraiu o exame do PISA de suas relações evidentes, ou seja, as relações com a escola. Diogo abstraiu o episódio da retirada do cartaz da condição de legalidade do Brasil, e evocou outra condição, uma que não vivemos, a da sociedade brasileira sob o AI-5.

Essa forma de falar e escrever, apelando para a abstração deslocada, é uma maneira de produzir discursos cujos interesses parecem ser mais políticos do que informativos. Esse tipo de jornalismo é quase um jornalismo marrom? Não diria que chega a tanto, mas que não é um bom jornalismo, isso não é mesmo.

Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da Cidade de São Paulo”

pgjr23@yahoo.com.br

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