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Epicuro no Inferno?

09/12/2007

O Inferno, ilustração para o canto X, de Amos Nattini (1892-1985)

 [Ouça direto no podcast ou vá para a página de podcast]

 

 

Não conseguimos ler sem juízos prévios? Talvez não. Mas poderíamos ler sem pré-conceitos. Um juízo prévio pode ser alterado, um preconceito é mais difícil de ser movido. A filosofia ministrada para o candidato a filósofo que é preconceituoso nem sempre é vitoriosa e, então, o candidato não se elege, não se torna filósofo. Muitos que possuem diploma acadêmico de filosofia acumulam mais preconceitos do que os que jamais estudaram qualquer coisa. Pois uma vez que possuem muitos conceitos, possuem também, obviamente, muitos pré-conceitos.

O anti-americanismo é um pré-conceito típico do acadêmico brasileiro e, não raro, atinge em cheio o candidato a filósofo. Outro preconceito que ronda vários que estudam filosofia, ainda hoje, é aquele em relação aos filósofos materialistas. Até mesmo os candidatos a filósofos que leram Marx e gostaram possuem preconceito contra as filosofias materialistas. Não à toa nossos manuais de filosofia dedicam pouco espaço a uma época enorme e produtiva da história da filosofia, que é o período chamado de “helenismo tardio” associado aos inícios da filosofia latina, a cultura greco-romana dos primeiros séculos cristãos.

Esse período todo agrupa mais ou menos uns 600 ou 700 anos e, no entanto, é reduzido a poucas páginas em nossos manuais. Essa censura não é por falta de material ou por causa de que as filosofias vigentes nesse período não foram boas filosofias. Não, é censura mesmo, inconsciente e/ou consciente. É que as escolas filosóficas que predominaram nesse período, em sua maior parte foram materialistas ou fisicalistas. Tanto o epicurismo quanto o estoicismo foram fisicalistas, e essas duas filosofias se  responsabilizaram em boa medida pela educação da elite romana. Esta elite herdou a cultura grega e, durante muito tempo,  mesmo quando a cidade de Roma já era o centro do mundo, continuou mandando seus filhos para estudar em Atenas (filosofia) ou Alexandria (ciências).

Entre os filósofos desse período, Epicuro foi talvez o campeão dos atingidos por preconceitos. Tanto na época dele quanto depois. Justamente por isso, ele é uma boa escolha quando procuramos um filósofo em relação ao qual caem um número grande de avaliações negativas. Então, temos um prato cheio para investigarmos o que são os juízos (prévios ou não) e o que são pré-conceitos.

A doutrina de Epicuro foi condenada pela Igreja. E quando Dante escreveu a Divina Comédia, no Canto X do Inferno, lá estava Epicuro. No inferno, é claro. Dante colocou os filósofos pagãos no Limbo, não os castigou de modo fatal. Ao contrário, lá eles se encontraram com literatos latinos e, enfim, o ambiente que Dante lhes deu não foi dos piores. Mas, Epicuro, este ele não perdoou. Epicuro foi para o Inferno. Seria preconceito?

Por incrível que pareça à primeira vista, de modo algum. O que Dante fez foi correto dentro da inteligência do plano da Divina Comédia. Mas, veja agora o que é que eu avalio como preconceito, e como ele funciona.

Quando pegamos um manual de história da filosofia do século XX, lá está Epicuro (e todos seus colegas de época), também sob o tacão das palavras negativas. O filósofo espanhol (e católico) Julian Marías, da linhagem de Ortega y Gasset, não fala diretamente de Epicuro, mas ele fala do período do “helenismo tardio” de uma maneira altamente negativa. Eis a avaliação dele, e que está em seu livro História da filosofia:

(…) do ponto de vista do saber, todas [as filosofia do helenismo tardio] – inclusive a mais valiosa, a estóica – são toscas, de escasso rigor intelectual, de pouco vôo; não há comparação possível entre elas e a maravilhosa especulação platônico-aristotélica, de incomum agudeza e profundidade metafísica (…) A filosofia, outra vez fora da via da verdade, vai se transformar numa espécie de religiosidade de circunstância, adequada para as massas. Por isso, sua inferioridade intelectual é, justamente, uma das condições do enorme êxito das filosofias desse tempo (…).[1]

Comparando Dante e Marías, não é difícil ver que Dante está com uma avaliação nas mãos, enquanto que Marías é emissor de preconceito. Podemos consultar Marías, no livro em questãoe ver que ele não fornece argumentos para essas frases negativas, dizendo que os filósofos do “helenismo tardio” seriam toscos. Aliás, temos de notar que ele elogia, ainda que com ressalvas, o estoicismo, exatamente o adversário do epicurismo. Ele diz que as filosofias do “helenismo tardio” não são comparáveis com a profundidade da investigação de Aristóteles e Platão. Mas isso é argumento? Não, não é. Todavia, esse tipo de coisa não ocorre com Dante. A Divina Comédia é altamente inteligente ao castigar Epicuro.

No caso de Dante, Epicuro está no Inferno por razões determinadas, justas em dois sentidos: no sentido da justeza e no sentido da justiça. Afinal, Epicuro não tinha a doutrina de que a morte era insuperável? Não era ele o mais materialista de todos os materialistas? Sim. Pois Epicuro não era só materialista no sentido que os outros colegas de época também o eram; ele não atuava somente como um advogado do materialismo enquanto uma tese cosmológica. Ele era materialista em um sentido terapêutico, médico. A idéia de que a morte vem e não nos pega, pois somos apenas corpo e sensações e, então, não vamos sentir mais nada com a destruição, era uma idéia epicureana para ser aplicada à vida individual cotidiana. A aplicação dessa idéia serviria como um elemento para que tivéssemos a certeza de que não teríamos de nos preocupar com a morte – uma forma clara de nos tirar da situação de ansiedade e preocupação em que vivemos. Essa idéia não era um saber para alimentar uma cosmologia, era uma idéia cosmológica para servir com um dos elementos do tetrapharmakon.

Nada dos conhecimentos da filosofia de Epicuro foram colocados na praça pelos epicuristas para que outros adquirissem o conhecimento do funcionamento do universo. Eles eram saberes específicos para a bula do tetrapharmakon, de modo a eliminar pseudo-problemas e favorecer a prosperidade, a eudaimonia. Esses remédios foram resumidos por epicuristas em quatro sentenças que, enfim, é o tetrapharmakon: 1) os deuses não seriam causa real de temor; 2) a morte não causaria qualquer motivo real para alarme; 3) é fácil perseguir o que é o bom; 4) é muito fácil suportar o que é o mal. O sábio seria aquele apto no uso desses remédios, como aparece na Carta a Meneceu. [também pelo podcast]

Para o que interessa aqui, vale notar o item de número dois, que já expliquei. Sendo Epicuro um materialista sensualista, o corpo e as sensações não mais existiriam com a morte e, então, ela não nos encontraria justamente no momento em que poderia querer nos pegar. Nossa destruição seria nossa fuga de qualquer possível sofrimento após o ato da morte. Assim, o materialismo funcionaria como um tópico da bula com a seguinte prescrição: assuma isso e não se preocupe mais com a morte, ela não lhe trará problemas.

Ora, é difícil para um cristão atual ver eficácia nessa terapia, no seu combate à ansiedade, à preocupação diante da morte. Cristãos querem o que Jesus conseguiu: a vida eterna, de corpo e de alma. Mas, se conseguirmos nos colocar na pele de um pagão, perceberemos que tal terapia faz sentido, e ela é uma terapia inimiga da terapia cristã. Para os gregos, a alma era pneuma, um tipo de “ar quente”, completamente material. Além disso, só os deuses poderiam ser imortais. Caso fôssemos imortais não seríamos mais o que somos, seríamos deuses. Ora, aí transpareceria uma maneira altamente arrogante de se comportar. Haveria a sedução da hybris, do orgulho, algo que a inscrição do Templo de Delfos, o “conhece-te a ti mesmo”, lá estava exatamente para que cada um ficasse sabendo a respeito de si mesmo, admitindo seus limites de modo a não querer se equiparar ao divino. É certo que Epicuro quis ensinar a todos a viverem despreocupados e, nesse sentido, viver como se fossem deuses. Ele afirmou isso. Mas, como penso, não vejo que isso estivesse em sentido oposto ao cuidado de Sócrates ao tomar o “conhece-te a ti mesmo” como uma frase limitadora, que iria levá-lo a entender que por mais que viéssemos a saber algo, não teríamos o chamado “conhecimento divino” (o conhecimento dos conceitos, como interpretou Platão?).

Quando os cristãos começaram a ter poder não só religioso, mas político, eles trataram de fechar as escolas filosóficas de Atenas e deram combate à religião pagã. Por qual razão? Por uma razão simples: filosofia e religião pagãs eram elementos competidores perseverantes e eficazes na época. De fato, o tetrapharmakon fazia sentido e não deixou de ganhar vários usuários entre a elite romana já na Era Cristã. Ainda que tenhamos mais a presença de estóicos no campo romano (ao menos no campo mais visível), o epicurismo não foi uma filosofia derrotada pelo estoicismo. Todavia, sem dúvida, foi uma filosofia combatida ferozmente pelo catolicismo.

Ora, quando Dante coloca Epicuro no Inferno, ele age com respeito. Ele faz Epicuro pagar o preço de suas próprias crenças, que ele se responsabilizasse pelo que adotou como própria bula do pharmakon. Faz o filósofo ficar morto, sem poder ressuscitar, já que não acreditava na vida após a morte. Os outros filósofos pagãos que, por algum detalhe do que disseram, poderiam vir a ser convertidos pelo cristianismo, foram apenas colocados no Limbo. Não foram para o Inferno. Epicuro, que havia fechado questão, pagou mais alto; ele que ficasse morto, já que advogou isso.

Nada de preconceito existe aí. Dante colocou até Papas no Inferno. Portanto, longe dele a idéia de ser um defensor incondicional da Igreja. Aliás, em Dante o amor cristão (agape) pela primeira vez aparece de braços dados com o amor pagão, grego (eros e philia). Ou seja, o amor de amizade e o amor sexual, tipicamente gregos, não são exilados diante do amor do homem por Deus e de Deus pelo homem ou dos homens entre si.[2] Então, nem passa pela cabeça de alguém informado ver em Dante um carola. E Dante agiu de fato como um não-carola ao colocar Epicuro no Inferno. Todavia, um carola como Marías teria conseguido agir como não carola ao escrever sua História da filosofia? Talvez. Mas, não foi isso que ocorreu.  O seu catolicismo falou mais alto. Não há em seu livro, ao menos nessa parte do “helenismo tardio”, algo perdoável como juízos apressados, nem há juízos inteligentemente irônicos como os de Dante, o que se verifica, sim, são frases que avalio mal cuidadas, conscientes, e que podem muito bem serem tomadas como exemplos de preconceito. Preconceito no sentido exato que quero caracterizar aqui.

 Paulo Ghiraldelli Jr. – O filósofo da cidade de São Paulo – pgjr23@yahoo.com.br [Escute outro podcast] 


[1] Marías, J. História da filosofia. Trad. Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2004, pp. 96-97.

[2] Sobre as diferenças entre Eros, ágape e philia: Santas, Gerasimo. Plato and Freud two theories of Love. Nova York: Basil Blackwell, 1988, p. 9. Sobre a fusão dos amores: Nussbaumm, Martha. Upheavals of thoutht. Cambridge: Cambridge University Press,2001, 557-90.

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