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Sócrates e Platão com diabetes

13/12/2007

Biga de dois cavalos e um cocheiro em moeda greco-macedônica (323-319)

  • [Ouça pelo podcast aqui] [ou ouça no próprio site]

  • Estou diante de um fascinante pedaço de torta de maçã. Posso não ser nenhum anão da Branca de Neve, cujo prato preferido é torta de maçã, mas esta torta de maça de que estou falando é irresistível. Seu cheiro sobe pelas narinas e vai dos pulmões direto para a alma. Não paro de salivar. Não consigo pensar em outra coisa que não em torta de maçã. Por que não devoro a torta? O que me impede? Ah, sim, eu sei e todos ao meu redor sabem: diabetes. É comer e passar mal; talvez mais mal do que o que se pode controlar. Mas, após alguns minutos fitando a torta, eu desconsidero tudo que sei sobre diabetes, jogo no lixo todos os conselhos médicos e, enfim, esqueço tudo que já passei de ruim com a doença e dou umas boas mordidas na torta. Quando acordo no hospital, a primeira frase que ouço é “você fraquejou”. E alguns ainda insistem: “que houve com sua força de vontade”?

  • Força de vontade – eis aí uma preocupação. Para tudo, sabemos, é necessário tal força.  É o que deve nos levar a escapar de inclinações que podem nos conduzir a escolhas que não são as melhores, que são contrárias ao nosso bem. Mas, em determinado momento, falha. O termo grego para quem falha nesse específico sentido é agente acrático. É aquele que age segundo a akrasia, que pode ser traduzida como incontinência, falta de controle sobre si mesmo e coisas semelhantes. Não se trata de ato involuntário, aquilo que fazemos por que em situação normal nosso corpo responde sem nosso comando, como na respiração, o no funcionamento do coração e outros órgãos e aptidões. A akrasia é a situação em que haveria as condições de auto-controle, mas este não é exercido. A vontade sobre si mesmo se esvai. Falando comumente: cedemos à tentação do momento.

  • Uma boa parte dos processos pedagógicas são ligados à educação da vontade no sentido do auto-controle. Os gregos antigos, muito preocupados com processos educacionais desse tipo, não tardaram em buscar explicações sobre em que ponto a educação, após parecer ter tido êxito, poderia vir a falhar. Eles quiseram saber algo que até hoje nos incomoda: o que é, afinal, a ação em que o agente tem tudo para escolher o que é melhor para ele, mas escolhe o que não é a melhor opção?  Há explicação para isso?

  • Sócrates, Platão e Aristóteles dão tratamentos diferentes à situação que denominamos de “fraqueza da vontade” – akrasia. Nós, em nosso cotidiano, não raro repassamos por essas três atitudes da filosofia da ação ao tentarmos entender e explicar porque alguém age contra o que seria sua melhor opção, aquela que lhe traria um maior bem.

  • Sócrates nunca abriu mão de sua máxima: “virtude é conhecimento”. Sendo assim, as virtudes gregas par excellence – sabedoria, temperança, coragem e justiça – nunca se exerceriam de modo cego por qualquer agente. Essas virtudes, Sócrates as viu unidas. Quem tem uma, acabaria tendo todas. Pois o homem sempre agiria segundo seu pensamento e inteligência, isto é, segundo o que sabe, e não escolheria aquilo que não é o melhor para si mesmo. Essa visão socrática é perfeitamente harmônica com o seu filosofar, o de sempre levantar questão morais do tipo “o que é F?”, pois saber o que é F (coragem, por exemplo) é uma das garantias para que F possa ser visto como algo que está presente entre as pessoas da cidade ou não. Como se pode dizer que uma atitude é corajosa ou sábia se não se sabe, por um conceito que deveríamos poder definir, o que é a coragem ou a sabedoria?

  • Sócrates nunca admitiu a existência do agente acrático. Essa historieta que contei acima, de quem come a torta de maçã, nas mãos de Sócrates seria recontada de mil e uma formas, até ele conseguir mostrar que de fato faltava conhecimento mais completo ou melhor a respeito do mal que a torta poderia causar, ou então que, efetivamente, de acordo com o conhecimento disponível, aquele que abocanhou a torta sabia que o mal seria passageiro ou contornável, e resolveu arriscar dentro do conhecimento que tinha. Não houve qualquer fraqueza da vontade, mas cálculo e aposta. Essa posição de Sócrates é chamada de intelectualismo.

  • Não raro, diante de uma situação que alguns dizem que é a akrasia, um socrático ortodoxo sempre irá sugerir: observemos o que o agente sabia, investiguemos seus conhecimentos e seu intelecto (ele conseguia ou não responder “o que é F?”), e só então diremos o que de fato ocorreu. E o socrático acrescentaria: acho que veremos que houve cálculo na ação, e ao fim e ao cabo o agente praticou a ação ciente do perigo, mas segundo o que ele sabia do perigo, que este não o levaria à morte ou a uma situação tão ruim que não valesse a pena comer a torta. No jogo dos prós e contras, o agente teria atuado, então, segundo a melhor escolha. Não ficou privado da torta, e acordou no hospital, tudo que ele já sabia que iria acontecer. Comer a torta não foi um ato de fraqueza da vontade. A fraqueza da vontade não existe. Nunca. Ela é um engano da explicação. É uma explicação errada de determinadas ações. Eis aí como o socrático ortodoxo responde ao problema da akrasia.

  • Platão não foi um socrático ortodoxo. A partir de algumas incursões de Sócrates pelo assunto da alma, Platão criou duas (ao menos duas) teorias sobre suas funções. Em uma delas ele traça a bela imagem tripartite do condutor da biga de dois cavalos. É uma imagem de união de funções: o condutor da biga é a razão, o cavalo imponente e que segue o curso faz o papel do espírito, o outro cavalo, que é atarracado e não segue o curso faz o papel da paixão; e cabe à razão ordenar as duas partes e, então, criar uma harmonia das três partes de modo a manter o conjunto funcionando. Essa é a imagem da alma que Platão apresenta no Fedro. Em A República as coisas são um pouco diferentes.

  • N’A República alma é dividida em três partes e não há uma harmonia equitativa entre as partes. Ocorre a preponderância de uma parte sobre a outra, de acordo com as funções de cada pessoa no grupo social a que vai pertencer, dentro da estrutura da cidade perfeita – justa. O intelecto é próprio dos que vão governar a cidade. Nos que irão ser governantes, nota-se que o intelecto se sobrepõe aos apetites (do âmbito do sensível) e à coragem, que são, respectivamente, o que é característico dos artesãos e soldados. Nestes, respectivamente, são os apetites e a coragem que se sobrepõem. Com esse tipo de desenho do que é a alma humana, ou melhor, a psiquê, Platão se afastou da posição intelectualista de Sócrates. Ele passou a considerar que o agente acrático de fato era alguém que, sabendo ou não do mal causado por uma determinada escolha, ainda assim a tomaria, e aí ocorreria um atropelamento de desejos não racionais – paixões – sobre o que seria uma vontade correta, regida só pela razão.

  • Diante do diabético comedor de torta de maçã da Branca de Neve, um platonista consideraria que  essa pessoa agiu segundo a fraqueza da vontade. Não teve fibra. E agiu sem autocontrole porque sua razão foi nublada pela paixão, por forças do desejo irracional.

  • Assim, atualmente, nós somos socráticos e platonistas ao mesmo tempo. Nós oscilamos entre uma explicação e outra. Ora acreditamos na existência do agente acrático, como Platão, ora não damos crédito a tal figura, e pensamos como Sócrates. Caso sejamos filósofos, então tentamos melhorar nossa clareza a respeito dessas posições. Gostaríamos de elaborar nosso próprio entendimento disso tudo. É o que  alguns dos filósofos atuais fazem. Há uma série de outras considerações sobre o assunto neste tema, no que hoje chamamos de filosofia da ação. Donald Davidson e Elizabeth Anscombe, por exemplo, são teóricos contemporâneos do assunto, com textos famosos e brilhantes. Mas eles não avançaram sem terem lido uma terceira posição, diferente das de Sócrates e Platão. Essa terceira posição é a de Aristóteles.

  • Aristóteles teve de tentar resolver a questão do agente acrático não por estar em continuidade de estudos que viriam de problemas listados por Platão e Sócrates, mas pelo próprio encaminhamento de sua ética.

  • Aristóteles definiu o bem como aquilo que é perseguido pelos homens. E entendeu que o que é perseguido, em um sentido final – quando não cabe mais argumentação – é a eudaimonia (felicidade). Quando dizemos algo como “fiz isso porque queria ser feliz”, então, para Aristóteles, a discussão cessa. E podemos bem entender isso. Ninguém pensa em continuar a conversa com o intuito de perguntar: “mas por que você queria ser feliz?”. Gregory Vlastos denomina isto de “o axioma da felicidade” de Aristóteles. Todavia, a questão é reposta e faz sentido voltar para a discussão se perguntarmos algo como “o que fazer para ser feliz?”

  • O que é próprio do homem, para Aristóteles, é a razão; então, se é para se atingir a felicidade, o melhor que temos a fazer é usar o que nos é próprio. Para a busca da eudaimonia, nada seria melhor que a razão. Mas o que é, enfim, isso que a razão busca; o que é a felicidade? O que é um homem feliz (próspero)? Eis aí o início de uma investigação ética. O final dessa investigação nos leva às virtudes.  Falando da felicidade e das virtudes, o filósofo estagirita distinguiu entre o que é uma avaliação de atos e o que é a avaliação de uma vida. Atos são virtuosos ou não. Mas, quando se trata de avaliar a vida – em sua completude – então teríamos de usar os adjetivos “feliz” ou “infeliz”. Assim, ainda que não saibamos direito descrever o que é felicidade, nossa linguagem indica que a utilizamos não para adjetivar contingências em uma vida, mas para falar de algo que é o todo da vida. “Andorinha sozinha não faz verão” – eis aí a frase de Aristóteles a propósito dessa questão. Ou seja, não é por pontos isolados nos céu que dizemos que as andorinhas estão migrando, “fazendo o verão”. Momentos bons não são adjetivados corretamente se o denominarmos de felicidade. A prosperidade ou a felicidade, a eudaimonia, enfim, é o que se põe como o que se pode alcançar em uma vida completa, esmerada, virtuosa. A própria idéia da completude da vida se coloca, aqui, como sinônimo de vida feliz.

  • Com isso em mãos, fica fácil perceber que o problema da akrasia foi central para Aristóteles: como que alguém pode prosperar, ser feliz,  se, no caminho das virtudes, toma decisões que não lhe são boas? Decisões contrárias ao que é seu bem não vão fazê-lo prosperar – vão ser o seu fracasso. Eis aí que voltamos ao problema simples da torta de maçã de Branca de Neve. O que Aristóteles diria daquele que está doente, que não pode consumir doce, e ainda assim devora a torta?

  • Sempre confiante na razão, o filósofo estagirita não podia simplesmente jogar uma pá de cal sobre as observações socráticas. Ele não podia dizer que não há uma ligação entre razão e ação. Caso ele falasse que não há, ele não estaria mais tratando do homem, pois para ele o homem é caracterizado exatamente por esse elo. Então, ele teve de levar em consideração o conhecimento (ou a falta dele) quando da ação – a ação acrática. Mas, sabemos, Aristóteles foi aluno de Platão. Ele não podia negar o papel das paixões, a forma abrupta delas entrarem em cena e fazer nossos comportamentos serem aquilo que não pareciam que seriam. Assim, necessariamente, ele teve de traçar uma análise mais cuidadosa sobre como que ocorre a akrasia. Sua saída foi a de olhar como é que as decisões do agente acrático são tomadas. Ele usou para tal duas situações, uma empírica e outra de seu sistema lógico.

  • A partir da empiria, ele encontrou no louco, no bêbado e no que dorme (ou dorme mais ou menos), os tipos que representam algo parecido com o que faz o agente acrático. São aqueles que podem agir contra si mesmos. Por analogia, podemos mostrar como age aquele homem que, não estando na situação do bêbado, do que dorme e do louco, é adepto de comportamentos em que há a falta de autocontrole. São os que mostram atos que são como os daquele homem em que a força da vontade está quebrada. A partir de sua lógica, Aristóteles deu mais passos, e tentou mostrar como funcionaria o “raciocínio” do agente acrático, como que ele elaboraria silogismos práticos, e onde que tais “raciocínios” falhariam.

  • Assim, para a torta, ele poderia bem propor o seguinte raciocínio prático:

    • Torta de maçã é uma delícia              Torta  de maçã faz mal 

  • Isto que tenho na minha frente é torta de maçã

    • Isto é uma delícia                               [Isto faz mal]

  • O que Aristóteles diz é que há dois tipos de conhecimento. Um que está disponível e outro que está presente. Podemos julgar a partir de conhecimentos disponíveis, mas não presentes. Posso saber que a torta de maçã faz mal,  e isso é um conhecimento disponível, mas ele não está – em todos os sentidos que precisa estar – presente no momento em que decido minha ação. Devoro a torta. Então, atuo como o bêbado ou como o maluco ou o como quem está mais ou menos dormindo. Todavia, no caso, não estou nem bêbado nem maluco e nem dormindo. Estou em vigília, sadio e sóbrio. Agi como eles poderiam agir, pois no momento da decisão, no momento da ação, não tive diante de mim, com toda sua força, o “isto faz mal”, que é o saber que está entre colchetes acima. Errei o silogismo.  Eis o que fiz (uma das possibilidade de erro): 

    • Torta de maçã faz mal

  • Isto que tenho na minha frente é torta de maçã

    • Isto é uma delícia

  • Do mesmo modo que faço erros no silogismo teórico, faço no prático. Todavia, no prático, não se trata de afirmar algo errado, se trata de adotar um comportamento errado – o comportamento que vai no sentido contrário ao do meu interesse. Sou responsável por meu comportamento pois, afinal, fui eu e ninguém mais que errou. Todavia, esse meu erro vai ter de ser analisado no caso – temos de pensar caso a caso. Pois é na observação empírica que tenho de compreender o agente acrático, aquele que não consegue ter o conhecimento que deveria ter, de fato, no momento da ação.

  • Aristóteles compara o ato acrático com atos do louco, do bêbado e do que dorme de modo a nos fazer entender o seguinte: também esses podem, no ato de comer a torta, afirmarem em voz alta: “isso vai me fazer mal”. Isso, para o louco, o bêbado e o que dorme, não nos permite dizer que eles de fato sabiam que a torta lhes faria mal. O sentido de “saber” é que está em jogo na análise de Aristóteles. Assim, trata-se de uma análise que ganha profundidade em sua ética e, depois, em sua psicologia e mesmo em sua física. É um passo descritivo importante no que hoje chamamos de filosofia da ação.

  • A posição intelectualista de Sócrates e a posição de consideração da luta entre paixão e razão de Platão, em Aristóteles ganha, como é de seu feitio, o caminho da análise empírica associada à consideração de fatores que mostram raciocínio e investigação. Para tudo Aristóteles caminha dessa forma. O tratamento da akrasia não é diferente. Bem, caso você não sofra de diabetes e não tenha medo de engordar, agora deixe tudo isso de lado e coma a sua torta de maça da Branca de Neve.

  • Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, pgjr23@yahoo.com.br
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