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Santo Agostinho e os dramas do catecismo

14/12/2007

 Santo Agostinho, por Botticelli (1480)

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Uma boa parte de nós, brasileiros, é católica. E a Igreja Católica tem algo chamado “catecismo”. Ao contrário do que diz a maioria (ou para louvar ou para condenar), que crianças não possuem contato com a filosofia, lá por volta dos 7 ou 8 anos, somos levados da escola para a Igreja para aprendermos alguma coisa de filosofia e religião cristãs. Não raro, as moças catequistas – ao menos na minha época de “primeira comunhão” – eram jovens normalistas que exerciam um grande fascínio sobre nós. Em vez de nos encontramos com um homem vestido de negro, chamado “padre”, encontrávamos uma moça atenciosa, bonita (todas as normalistas eram bonitas) e com um bom poder nas mãos, pois iria nos colocar em contato com Deus. Todas as vezes que a Igreja Católica usou dessa estratégia, ela acertou em cheio.

 Todos nós que fizemos “catecismo” passamos pela mesma tensão: a espera do dia da primeira comunhão. Não por causa da entrada formal na Igreja ou da festa depois (onde comeríamos pão com manteiga saboroso e beberíamos um chocolate encorpado), mas pela data fatal, dias antes da comunhão, que era a da confissão. A maioria de nós não estava apreensiva por causa dos pecados, e sim pela falta deles. Ou pela incapacidade de saber mesmo o que havíamos feito e que deveria ser contado como pecado. Eis então que no dia esperado apareceu o padre. Não veio de preto, veio de cinza. Era baixinho e tinha os cabelos grisalhos, fala mansa e um grande sorriso daqueles de personagem de história em quadrinhos. Parecia uma pessoa muito boa e, enfim, se a catequista havia nos deixado nas mãos dele, não havia razão para duvidar de que estávamos em situação confortável. O padre não levou ninguém para o confessionário. Apenas nos ensinou que pecamos não apenas “por atos”, mas também  “por pensamentos” e “por intenções”. Mas disse que era difícil que tivéssemos algum pecado, sendo tão jovens, e então nos ensinou uma oração, que rezamos coletivamente, onde pedíamos a Jesus perdão por termos ofendido alguém e por termos, talvez, tido “maus pensamentos” (que cada um interpretasse como quisesse). Fomos todos abençoados e saímos de lá totalmente sem pecados. Dali em diante era só esperar o dia da comunhão e treinarmos um pouco para esticar bem a língua, para captar a hóstia, e então vermos ser conseguíamos dissolver aquilo, sem morder. Se mordêssemos, sairia sangue – todos sabíamos disso, e pensar nisso era apavorante para alguns.

É claro que tudo isso era feito sem grande peso, e dependia de cada um de nós darmos ou não ouvidos para todas aquelas histórias contadas durante aquele ano de “catecismo”. Uma das histórias que perturbava alguns de nós era a do “pecado original” – célebre. Nós a problematizávamos nesta forma: Deus era não só criador de tudo, mas também arquiteto de tudo, ou seja, havia feito as coisas segundo seu planejamento, e então qual a razão de ter feito Adão e Eva, nossos pais, capazes de pecar? A resposta que a catequista havia nos dado era simples e direta: Deus não nos criou como animais, ele nos fez especiais, como filhos dele, à semelhança dele, e tal coisa estava estampada no fato de ter nos deixado com a vontade livre.

Uma resposta como esta podia não ser suficiente, mas era o bastante para ficarmos com ela até mais ou menos o final do ginásio (hoje a oitava ou nona série). Então, os estudos de história começavam a fazer algum efeito. Aprendíamos sobre a cultura de outros povos, em especial os antigos, e ficávamos sabendo que eles, tão ou mais inteligentes do que nós, não trabalhavam com a hipótese da “vontade livre”. Podiam se dizer livres, mas não como nós, que somos, como Adão e Eva, capazes de conscientemente optarmos por algo que é um bem menor, momentâneo, em vez de ganhar um bem maior, dado direto por Deus. Eis, então, que as coisas se complicavam bastante.

Quando perguntávamos ao padre sobre tal coisa, ou aos mais velhos, eles repetiam o que já sabíamos, e que era problemático: as outras civilizações do passado, neste particular, estavam atrasadas, e deveríamos ver que a nossa resposta era boa; afinal, a nossa semelhança com Deus estava exatamente em sermos pessoas de vontades livres. Deus não quis criar um parque de diversões, quis criar o mundo real, como é o nosso mundo, onde os humanos fazem coisas inusitadas; e não haveria incompatibilidade entre determinismo (divino) e liberdade (humana), uma vez que já no plano divino estava incluída a liberdade humana. Teríamos de olhar Deus como nos ensinaram, um pouco mais tarde, a notar a tal “mão invisível” do mercado, como está em Adam Smith, ou a “Razão”, como está em Hegel. Ou seja, nos detalhes fazemos o que queremos e temos de nos responsabilizar por nossos feitos, mas na somatória dos vetores de todas as nossas ações o vetor resultante final não é um vetor de módulo zero ou negativo. No final, temos um vetor positivo que realiza o plano de Deus, ou seja, a vontade daquele cuja vontade é superior às nossas vontades.

Essa resposta está prenhe das construções teóricas dos primeiros anos da Igreja. E Agostinho, ou Santo Agostinho, foi um filósofo que colocou a mão na massa para formular coisas desse tipo. Para que essas coisas pudessem virar uma doutrina coerente e capaz de concorrer de igual para igual (e talvez vencer) na maratona contra as doutrinas da cultura greco-romana, Agostinho teve de botar sua cabeça para funcionar. E, de fato botou. Ele inventou algo que, talvez, seja muito mais importante que qualquer outra invenção tecnológica de nosso tempo. Ele inventou o “eu” – a noção de “eu” que perdurou durante muito tempo, e que, de certo modo, ajudou na construção da noção de sujeito que construímos na modernidade. E ele fez isso ponderando a respeito do dualismo da concepção platônica. Contra o neoplatonismo que ele aprendeu, ele criou a noção de “eu”.

Platão e Aristóteles nunca separaram razão e eu. A concepção de alma ou psyché de Platão, aquela da imagem da biga de dois cavalos mostra isso. Um cavalo funciona como espírito e coragem, e segue a trilha, outro cavalo funciona como rebelde e é facilmente seduzido por tendências vindas do desejo, que o fazem não seguir a trilha, e além disso parece meio surdo quanto às ordens de comando, e por fim há o terceiro elemento, o cocheiro da biga, que é a razão, e deve harmonizar os dois cavalos para que  biga possa seguir seu caminho em velocidade razoável e sem se perder. Platão não põe uma instância, no interior da alma, que assista esses três elementos atuando. Vontade e razão não se separam, se é que se pode falar de vontade nesse caso. No entanto, Agostinho teve de levar em conta o preceito cristão da autonomia da vontade. Ele tinha de imaginar uma alma montada a partir dos ensinamentos dos apóstolos, ou seja, uma alma com razão, paixões e coragem, mas também com vontade livre, e livre em um sentido especial: a vontade deveria ser consciente, de modo a podermos falar em responsabilidade e culpa de atos tomados por cada um.

A biga de Platão pode permitir que responsabilizemos o cocheiro, caso a biga fique descontrolada e atropele alguém. Responsabilizamos o cocheiro por causa de sua incompetência no trânsito. Ele não soube harmonizar os dois cavalos e, enfim, a biga não andou por onde deveria andar, saiu dos trilhos e pegou alguém na calçada. Mas esse tipo de responsabilização não é a responsabilização moderna. A responsabilização moderna deve muito mais ao cristianismo do que esta responsabilização pagã.

No caso da biga, uma vez vista por Platão, quando ela atropela alguém na calçada, isto tem de ser explicado pelo fato de que na disputa entre os dois cavalos, um foi mais forte ou ambos criaram uma situação desastrada e o cocheiro não conseguiu a harmonia esperada. Criamos aí uma teoria da ação em que o resultado é uma soma de vetores. Razão, paixão e coragem seriam os vetores e, no caso do desastre, a alma seguiu um resultado vetorial infeliz. Então, cada alma estaria em movimento segundo uma resultante vetorial. Haveria responsabilidade na condução da biga, é claro. Haveria punição para quem a conduzisse mal na cidade. Mas não haveria culpa, no sentido moderno do termo, pois no sentido moderno do termo a culpa envolve o querer. Pois o pecado – algo próprio dos modernos – envolve a decisão, o querer e, portanto a vontade.

Em outras palavras: o grego possui uma concepção de responsabilidade que implica em certa passividade, e isso está em acordo com sua concepção do que é o cosmos. A palavra cosmos quer dizer “o todo organizado e belo”, e se coloca em contraste da palavra caos. O cosmos é o fim do caos. Ora, os modernos, em boa parte por causa da doutrina judaico-cristã, falam em plano divino, em ordem do universo gerada por Deus, mas mantêm a idéia de que cada ato do ser humano possui algo de não passivo, de ativo. Cada ser humano é ser humano na medida em que decide e diz “quero” ou “não quero”. Este “eu“ que escolhe não é visto por Santo Agostinho, portanto, como um ato de intersecção de forças psíquicas. Ele ganha o caráter de instância decisória;  é identificado com algo que, na imagem platônica, não aparece, que é a vontade decisória.

Agostinho não podia tratar os erros humanos como erros de direção da biga. Caso se mantivesse com a teoria de Platão, a descrição do homem que teria em mãos não seria coadunável com a descrição exigida pela doutrina dos apóstolos. Ele precisou considerar os atos de uma alma que podia não agir de um determinado modo e, no entanto, intencionalmente agiu daquele modo. Agostinho tinha de colocar na jogada algo como aquilo que entendemos como “eu”.

Essa interpretação que dou de Agostinho não é unânime, mas é certo que ela é uma possibilidade. Isto é, o “eu” seria não aquele que diz “penso, e sei que penso”, mas aquele que diz “quero, e sou eu que quero” (ou, talvez, quero, e sei que quero). Quando eu quero, sou eu que quero. Aristóteles não considerou em sua concepção de vontade algo além das partes racionais da alma. Mas Agostinho parece ter considerado uma vontade além de tais partes. Criando a noção de vontade como aparte de desejos racionais e de paixões, ele não viu o “eu” como o resultado de forças psíquicas, e sim uma alma que tem um núcleo superior, que é a instância decisória. Esta instância é a vontade. Na sua abordagem, é pelo poder de decisão que cada um de nós se vê como um “eu”. Ele afirma claramente isso na sua obra chamada Livre-arbítrio:

Nada há que eu esteja consciente, tão segura e intimamente, quanto o de que tenho uma vontade e que sou movido por ela em direção a usufruir de alguma coisa. Pois não posso, absolutamente, encontrar algo para chamar de meu propriamente se a vontade, pela qual quero e não quero, não é minha. E assim a quem deve der atribuída a responsabilidade, senão a mim mesmo, quando eu faço algo de mal por vontade?[1]

É claro que, a partir daí, uma série de interpretações são possíveis. Seria o “eu”, a vontade, algo racional? Ou seria algo a-racional? Seria uma “pura vontade”, sem qualquer dependência em relação à razão? E como se dariam as relações com as paixões? Cada resposta a uma pergunta desse tipo abriu uma frente medieval de filosofia. Isso pode dar todo um caminho de estudos em história da filosofia, em história da teoria da ação e da psicologia. No que importa aqui, fica a idéia de como que demos os primeiros passos, no campo filosófico, para falar de “eu”. Como que este “eu”, enfim, teve de ser inventado pela filosofia para que pudéssemos, de fato, dizer que não mais nos bastava a descrição do homem como ela vinha sendo feita pelos pagãos. E não nos bastava mais aquela descrição, não porque ela estava errada, e sim porque o homem cristão, dito proprietário de livre-arbítrio, tinha de ser descrito de outra maneira. Agostinho cumpriu seu papel. E, de certo modo, resolveu alguns problemas que tínhamos lá no “catecismo”.

 

Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”, pgjr23@@yahoo.com.br

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[1] Apud Irwin, Terence. The development of ethics – a historical and critical study. Oxford: Oxford University Press, 2007, p. 401

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