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Como cumprimentar o Outro neste Natal

18/12/2007

 Eva por Paulo Ghiraldelli

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Em escritos recentes o professor de Oxford Richard Dawkins tem lembrado que a data de nascimento de Jesus não é consensual entre bons scholars. Então, alguns poderiam utilizar “Happy Holiday Season” em vez de “Happy Christmas”. Até aí, nada de novo. Entre nós, mesmo cristãos desejam “Boas Festas” e, não raro, deixam em segundo plano o “Feliz Natal” ou o “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”. Mas a segunda opção de Dawkins já é mais provocativa. Dia 25 de dezembro poderíamos dizer “Happy Newton Day”. Pois, de fato, é o dia de nascimento de Sir Isaac Newton. E todos sabem que este foi o homem que explicou o funcionamento do universo sem precisar da “hipótese de Deus”.

A militância ateísta de Dawkins é conhecida. E é mais ou menos natural que em um mundo anglo-saxão, em que a equação Deus=Verdade=Governo tem sua força, surjam ateístas militantes. São pessoas preocupadas com o poder nada celestial da crença em Deus. Todavia, há um componente nos trabalhos de Dawkins que atrapalha o bom senso. Enquanto a disputa sobre a existência de Deus fica no plano teológico e religioso, não há o que reclamar. Mas quando ele insiste em comparar religião cristã e ciência moderna para, então, destituir a primeira de um suposto pódio, ele parece apenas fomentar os preconceitos de ambas.

Seja lá qual a religião que se tenha, nenhuma pessoa de bom senso, no Brasil, vai deixar de desejar “Feliz Natal” . E eu espero que essa atitude fique sendo a vigente em nosso país, e que não enveredemos pelo erro anglo-saxão de voltar a colocar na arena algo que o Papa atual parece gostar de colocar, que é a disputa entre ciência e religião. Bíblia é uma coisa, tratados científicos são outra coisa.

Não há razão para dizer que “viemos de Adão e Eva” e não de um primo hominídeo evoluído. Pois não há razão, também, para querer proibir alguém de chamar os supostos “elos perdidos” entre nós e os seres brutos de “Adão e Eva”. Podemos contar histórias em formas de poesia ou de contos ou de romances ou de teorias. E elas podem ter alguma equivalência. Não estou dizendo que elas são maneiras de falar a respeito do mesmo fato. Estou dizendo que elas são relativamente equivalentes porque servem para conversamos sobre assuntos que queremos conversar e que, em determinados momentos da conversa, poderão ter algum vínculo.

Não cabe dizer que a “história de Adão e Eva” não é verdadeira, pois ela não está no campo do jogo entre falsidade e verdade. Todavia, cabe dizer (se for o caso) que a evolução pode estar errada, pois ela é uma teoria e, desde o início, aceita o jogo do falso e do verdadeiro. Todavia, quando os religiosos escutam isso, eles pensam estar em vantagem. Mas, se assim imaginam, não entenderam o que eu disse. Digo que não vale colocar as narrativas em campos que não são os delas, do mesmo modo que é um pouco sem graça colocar cinco jogadores de basquete grandalhões, e que não conhecem o futebol, em um campo de futebol.

 Histórias religiosas são essencialmente morais. Elas são feitas para ensinar condutas. Fornecem regras de convívio para um povo. Não há muito como escapar delas. Para um cristão inteligente tanto faz se Jesus nasceu dia 25 ou não, e até mesmo tanto faz se ele fez o que os Evangelhos diz que fez. O que importa é que é um milagre que seres como nós, que vivemos nos matando uns aos outros, tenhamos, em alguns momentos, dado crédito para histórias que dizem que o correto é ajudar os outros, não julgar, não humilhar etc.

Histórias científicas combateram as histórias religiosas cristãs durante um período, do mesmo modo que as histórias religiosas cristãs, antes, haviam combatido a cosmologia helênica. Houve uma fase, sim, de estranhamento. Mas depois de certo tempo, entre os mais inteligentes, emergiu a percepção de que o conflito não faz sentido, pois as funções de um discurso e de outro são diferentes.

Os cristãos que teimam em colocar o “criacionismo” e a “teoria da evolução” em oposição, para dizer que são a favor do primeiro, não percebem que eles, a respeito do “fim do mundo”, aceitam as teses científicas, ou seja, as histórias de gente que é adepta da “teoria da evolução”. Os cristãos “criacionistas” não ficavam bravos quando dizíamos que o mundo iria acabar com uma guerra nuclear entre a URSS e os Estados Unidos. Eles encontravam logo uma história dos Evangelhos para mostrar que era “isso mesmo”. Agora que mudamos nossas histórias sobre o fim do mundo, e falamos em aquecimento global, lá vem eles novamente com alguma história dos Evangelhos para dizer que é “isso mesmo”. Qual a razão deles poderem, para nossas histórias a respeito do fim do mundo, sempre usar suas histórias? Ora, é que elas são histórias genéricas e morais, podem se encaixar nas nossas narrativas que pretendem ser detalhadamente factuais. Bom, se é assim, eles deveriam perceber que teria de valer a mesma regra para as histórias a respeito do início do mundo. Ou seja, a história do início do mundo, dos Evangelhos, pode ser adaptada a qualquer história sobre a origem do mundo ou da humanidade dada pela ciência.

Quando um cristão compreende isso e quando um homem de ciência lembra isso, o debate sobre religião e ciência começa a diminuir. Então, coisas que realmente importam podem ser discutidas. Aí sim, quando todos concordam que vão discutir exclusivamente no plano da ética, começam a surgir elementos de confronto que valem a pena ser pesados. Pois o debate sobre o aborto, as células tronco,  a clonagem, etc. ganha uma arena apropriada – e aí a questão é ver como que as parábolas de Jesus ajudam ou não a minorar o sofrimento alheio, e não ver o quanto Deus, como um feitor de escravos, gostaria de ser obedecido.  Sai de cena a discussão equivocada denominada “criacionismo versus evolucionismo”. Feliz Natal para todos.

·         Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo” pgjr23@gmail.com

Os Evangelhos 2007Mais sobre religião e Jesus? Leia o texto de Paulo Ghiraldelli Jr no livro: Figueira, Eulálio e Pinto, Paulo. Os Evangelhos além das religiões. São Paulo: Editora da PUC-SP, 2006. Este livro é uma coletânea de estudiosos, filósofos, sociólogos, teólogos, jornalistas de várias religiões ou sem tendências religiosas, cada um sobre uma passagem do Evangelho. Pedidos: Eulálio: efigueira@pucsp.br 

 

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