Skip to content

A Beleza Merece Viver

03/01/2008

Bilawal BhuttoA beleza puramente estética é uma noção do Ocidente. Ela não está presente no Oriente. Pode ser que o Ocidente esteja completamente errado, e que não exista algo belo por meio de uma avaliação “sem conceito”, como queria Kant na sua defesa da autonomia do juízo estético. E talvez seja impossível falar em beleza de modo isolado da noção de “experiência estética” – a maneira pela qual apreciamos os dotes estéticos de algo –, e muito menos imaginar tal “experiência” desligada de elementos da esfera ética e moral. Todavia, às vezes uma frase solta no ar nos dá a entender que há algum tipo de asa no juízo estético. O juízo estético, por mais amarrado ao mundo, parece poder se despregar dele, dar uma grande volta no céu e, então, voltar a ele como que uma seta ferina arremessada em tempos de paz. 

De um modo até mais pragmático do que Dewey e Rorty, penso que o não pragmatista Arthur Coleman Danto foi quem contribuiu decisivamente para essa idéia contemporânea de que a “experiência estética” de cada um de nós está sobrecarregada de elementos simbólicos que a inflacionam com a moeda da avaliação moral. Todavia, não no sentido de dizer que teríamos de aceitar a redução da estética à moral, mas, ao contrário, no sentido de mostrar como que, às vezes, avaliações estéticas adentram no campo ético-moral, político e histórico de modo tão inusitado que, então, revelam o quanto a estética é um campo autônomo e distinto. Isto é, o juízo estético não aparece como autônomo, como em Kant, mas aparece de modo tão intempestivo e desterritorializado no âmbito do campo das esferas que não são as da estética que, então, pelo contraste e pelo inusitado, nos dão a sensação de que realmente há algo mais ou menos como o belo “sem conceito”. E eis que, sem saber, esse juízo estético muda o campo no qual entrou meio que abestalhado, e então se retira para sempre, deixando uma marca profunda naquele campo, uma alteração às vezes eterna na disposição dos móveis da casa estranha. Muito mais tarde, talvez ninguém venha a ficar sabendo o que realmente provocou a mudança notada naquela casa.  

Danto nos ensinou a observar a história da arte segundo um prisma interessante e atual. Hegel estaria correto, ao menos até um momento, na sua insistência de que a arte teria sua auto-consciência  dada pela filosofia. A obra de arte seria algo a ser apreciado e, ao mesmo tempo, uma forma de consciência do mundo o seu redor. Todavia, para uma visão sobre si mesma e sobre seus críticos, ou seja, para a autoconsciência, ela teria de recorrer à filosofia. Mas, a partir de um determinado momento, essa visão hegeliana teria deixado de valer. Pois a obra de arte teria então passado, ela própria, sem recorrer à filosofia e sem querer fazer o papel de meta-arte, a mostrar uma espécie de auto-consciência. Os trabalhos de Duchamp e de Warhol, para Danto, teriam indicado esse momento de “fim da arte” ou “fim da história (hegeliana) da arte”. Eles apresentaram obras de arte que deslocaram para um terreno completamente novo e desconhecido a própria noção do que é e do que não é arte, e chegaram mesmo a deixar todos sem resposta para a pergunta “o que é arte?”. 

Imagino que isso que Danto determinou como o “a arte após o fim da (história) da arte” é uma peça de uma história que, do meu ponto de vista, pode acolher mais um capítulo: a valorização de expressões ou frases do âmbito da estética como elementos com algum poder no âmbito da ética, todavia, única e exclusivamente por causa de permanecerem como expressões estéticas. E é isso que está implícito no sucesso (ao menos de mídia) da frase sobre Bilawal Bhutto. Eu explico. 

Bilawal Bhutto é o filho de Benazir Butto, a líder paquistanesa de centro-esquerda assassinada em atentado terrorista no final do ano (2007). No “Facebook” (um “Orkut” apreciado por não brasileiros) surgiu uma comunidade com o slogan: “não matem Bilawal Bhutto, ele é tão gatinho” (Estadão, 01/01/08). A linguagem que segue a frase é feita no estilo “patricinha-online”: “não vamos assassinar Bilawal Bhutto, pois ele é muito gato, ok?”. E eis que a comunidade cresce com fãs e mais fãs. As brasileiras entre 11 e 21 anos podem, talvez, não aderir, pois realmente não sei se o tipo “macho jovem paquistanês” é o ideal de beleza masculina aqui. Talvez seja. Mas, nos Estados Unidos, os paquistaneses emplacam com facilidade. E o número de paquistaneses vivendo na América e buscando cidadania não é pequeno. Na minha avaliação, Benazir Bhutto era uma mulher linda. Foi uma jovem bonita e se transformou numa mulher de cinqüenta anos que sabia usar a maquiagem como ninguém, na associação com o véu e as roupas de seu país. O filho puxou a mãe (e também o pai). 

Os cientistas políticos que não leram filosofia podem simplesmente desprezar essas frases das Benazir Bhutto no dia do seu casamentofãs (ou dos fãs) online. E os que leram filosofia carcomida também. Mas os que leram com olhos criativos, saberão que essa frase está na jogada do vocabulário que determinará a sorte do jovem de 19 anos, que está sendo educado no Ocidente, e que, como a mãe (educada em Harvard), comunga valores liberais. Os nossos tempos são tempos em que a frase “não matem Bilawal Bhutto, ele é tão gatinho” pode muito bem ser lida como “a beleza merece viver”. Para muitos é assim que ela vai soar. É uma frase que dá ao jovem Bhutto uma proteção extra-política, extra-moral – quase que divina. Sendo bonito, sua morte acarreta em crime que extrapola o círculo daqueles que pensam politicamente. E, em determinados momentos, o que vale é a força política dos que não pensam politicamente. 

Não estou dizendo que Bilawal vai ser um grande líder por ser bonito. Ninguém tem a menor idéia do que ele pode ou não pode fazer. É jovem demais, não queria largar os estudos para assumir a vida política agora e, enfim, a situação de seu país não é fácil. Todavia, tudo isso não importa aqui. Minha observação caminha em outro sentido. O que quero mostrar é que a frase puramente estética e aparentemente tola pode ser “um raio em céu azul”. E o raio em céu azul é apenas uma segunda versão da imagem que usei acima, a da seta ferina solta em tempos de paz. 

Assim, se terroristas matarem Bhutto amanhã (“toc toc” na madeira), ele, sem ter feito absolutamente nada na política, irá contar com aquilo que a Princesa Diana contou, ainda que, no caso dela, a participação social já tivesse sido demarcada. Ele vai contar com a beleza. “Ele é um gato” – e pronto. E a advertência das garotas (e garotos) é clara, nada ridícula, ainda que, para nossos ouvidos velhos possa soar ridícula: “não vamos assassinar Bilawal Bhutto, pois ele é muito gato, ok?”. Essa linguagem inocente, e com o “ok” no final, quase que em diálogo com os que poderiam se candidatar a assassinos, denota algo que está além da ética e da política.  

Que se tome muito cuidado aqui. A morte de Bilawal não traria o mesmo tipo de comoção que a morte de um cantor de Rock, bonito ou não, pode provocar. Lennon não era bonito. Quando morreu, foi uma comoção geral. Os Mamonas Assassinas não eram bonitos, e guardada as proporções, a comoção foi geral. A morte de Butho-filho poderia mobilizar as mesmas pessoas, em histeria geral, mas não seria o mesmo tipo de comoção.  

A morte de Lennon é o tipo de morte em que o símbolo de uma época morre porque a época já morreu. Lennon parecia indicar que gente como ele não tinha mais razão para continuar viva, pois de fato as coisas estavam mostrando uma vitória da “geração yuppie” sobre a “geração hippie”. Caso ficasse vivo, poderíamos ter o desprazer de vê-lo, um dia, em um show popular ao lado de Iglesias ou algo parecido. A morte de Lennon, portanto, é a morte significativa. É morte histórica. 

A morte dos Mamonas é outra coisa. As frases sobre a juventude, sobre a vida que poderia ter sido e não foi etc. povoam as mentes. Não morrem depois, como Lennon, morrem antes. Todavia, na medida em que não deixam sucessores e o campo no qual militavam na música não encontra substituto, mostram o aborto de um movimento. Nesse sentido, também aí temos a morte significativa. Neste caso, também temos morte histórica. 

O que estou querendo dizer é que uma fã de Lennon ou dos Mamonas, que poderia escrever uma frase bobinha como essa que foi pronunciada sobre Bhutto, não estaria dizendo a mesma coisa ao chorar a morte de seu ídolo, caso o jovem paquistanês tivesse sido assassinado agora, após tomar posse na liderança do partido em que sua mãe era a estrela máxima. No caso de Bhutto, valeria única e exclusivamente o que eu já disse da imagem de Che Guevara: há uma conotação puramente estética que capta muitas pessoas de modo independente de conceitos de qualquer espécie e de juízos morais. Bhuto-filho morto, traria comoção geral, mas seria uma morte sem significado. Todo o significado já teria sido abocanhado pela morte da mãe. Então, a comoção se daria de maneira forte, fora do Paquistão, por meio do eco amargo da frase do Facebook: “não vamos assassinar Bilawal Butto, pois ele é muito gato, ok?” 

Que os leitores ruins não digam que o que estou contando é que, como sua mãe, Butto terá adeptos por causa de sua “presença”. Não – não façam essa leitura tola do meu texto, pois ele é um texto inteligente. Achar que o que estou dizendo é sobre a “presença” de Bhuto seria não entender nada. Isso seria ver no Bhuto-filho o velho “carisma”. Sua mãe era bela e carismática. Butho-filho nem falou nada ainda. Do mesmo modo que a imagem de Chê nunca falou nada para aqueles que a admiram (aliás, nem o próprio Che disse algo para a maioria daqueles que admiram a imagem da camiseta). O que ocorre é que essas imagens são imagens. Elas têm força como imagens. Elas dão para muitas pessoas o que é a “experiência estética”. E em um mundo cada vez mais visual, como o nosso, as imagens são astros de primeira grandeza. 

Não se trata de apontarmos para uma experiência estética carregada de política. O que se tem é uma experiência política que não faz política, faz do mundo uma passarela. O mundo é para ser visto. É espetáculo das mídias. E, portanto, nesse mundo, que todos sejam não mais cidadãos por conta de causas políticas, e sim cidadãos (políticos) por causas estéticas. Isso não é pouco. Não é pouco para ninguém, não é pouco para Bhuto. E o fato dele ser um democrata (espero que seja), é uma sorte a mais. Essa sua beleza conta agora, e vai contar no futuro, talvez.

Há muitas pessoas que, hoje, estão dispostas a dar um espaço social e político para o corpo. Pessoas que acreditam verdadeiramente que o que é belo, por ser belo, merece viver. Essas pessoas estão longe da política. Uma boa parte delas é jovem, mas não só. Alguns já estão no âmbito da apreciação estética do corpo como elemento marcante de sua vidas há mais tempo. A “estetização da vida”, que é um fenômeno que já foi aclamado como uma das características centrais da pós-modernidade, está durante todo esse tempo se ampliando. E é tal fenômeno que se abriga na base do êxito que a frase da fã de Bhutto-filho fez na mídia no dia 3 de janeiro de 2008.

———

Paulo Ghiraldelli Jr “O filósofo da cidade de São Paulo”

pgjr23@gmail.com   

One Comment leave one →
  1. therezaw permalink
    14/01/2008 16:50

    Sempre tinha medo da Beleza. Parecia, de algum modo, que afastaria o Amor. Seria desejada pela quantidade de Beleza que tinha. O que provocou efeitos ruins: roupas deselegantes, desajeito social e outros do gênero. Veja que a Beleza deu medo nesta mulher.

Deixe uma resposta

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: