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Desassossegando a Coruja

08/02/2008

Super Coruja de Minerva, por PGJR

Dewey, Marx e Mill no passado, Rorty e Habermas no presente, resolveram desobedecer Hegel. Todos eles nada tinham contra animais (creio!), mas decidiram dar um tipo de “pedala Robinho” na Coruja de Minerva. Hegel dizia que ela levantava vôo ao entardecer. Eles quiseram que ela madrugasse.

Hegel entendia que a Coruja de Minerva só podia mesmo fazer algo à noite, como toda boa coruja. Vinha para cobrir com a razão tudo que a história havia produzido e que era irracional. Na linguagem de Hegel: o que parecia irracional. A filosofia não podia mudar nada, dado que ela era uma interpretação do mundo – uma racionalização tardia. Napoleão no seu cavalo era a Razão caminhando e fazendo a história. Ele era o “Espírito a cavalo”. O autêntico Sujeito. Mas a Coruja não. Ela vinha depois, catando os feridos e mortos e vendo que cartórios os homens de Napoleão haviam queimado e quais as mulheres eles haviam sido autorizados a estuprar. Ao final da noite, a Coruja já havia convencido muitos de que tudo aquilo tinha um sentido: mais liberdade. O mundo burguês que Napoleão estava instaurando tinha um preço – tudo tem um preço, dizia a Coruja. E então, eis que a filosofia terminava sua interpretação, e salvava de qualquer condenação piegas a Revolução.

Quando filósofos como Adorno e Horkheimer se depararam com isso, eles alertaram Marcuse de que a leitura de Hegel não era revolucionária, era a justificação de uma revolução que já havia feito suas atrocidades. Mas Marcuse não quis ouvir. Ele preferia ficar com Marx.

Marx pos a Coruja para correr. Ela deveria não mais ficar sonolenta de dia. Deveria levantar logo cedo, botar uma fantasia de águia e servir como batedora para Napoleão – ou melhor, para Lênin ou qualquer outro que quisesse exportar a Revolução – a nova Revolução.

Dewey, Mill, Rorty e Habermas fizeram a Coruja madrugar, mas não para ela ir adiante do cavalo de qualquer aventureiro. Seria melhor que ela se passasse menos por águia e mais por papagaio. Ela teria de falar. Em vez de ficar justificando o mundo, a filosofia teria de falar, teria de fazer novas interpretações com novas linguagens – para realmente transformá-lo. Dewey, Mill, Rorty e Habermas nunca acreditaram que estuprando mulheres e queimando cartórios o mundo seria mudado. Fazendo isso, o mundo seria sempre o mesmo. Afinal, isso foi o que sempre ocorreu. Para mudar mesmo o mundo era necessário mudar comportamentos, e isso nós só fazemos quando começamos a conversar de um modo novo. Nosso principalmente comportamento é, afinal, o lingüístico – o comunicacional.

Dewey usou o termo “re-significação da experiência” para dizer o que Rorty chamou de “redescrição”. Ambos fizeram isso para tentar encaminhar as pessoas pragmaticamente para a sociedade democrática defendida por Habermas e Mill. Com eles, a Coruja teve, ao final, de ser mais que papagaio. Ela teve de virar gente: falar, sim, mas cada dia falar com um novo vocabulário, ampliando o “espaço lógico” de pensamento e ação. A filosofia finalmente teve de assumir sua condição não mais animal, mas humana.

Por mais que Hegel tenha sido um amante da história, ele deu à Coruja de Minerva o mesmo papel que ela tinha entre os gregos. Para estes, a filosofia era contemplação. Platão e Aristóteles nunca conseguiram não ficar seduzidos pela idéia da filosofia como uma relação que, no limite, mais ensina o contato com a Verdade, o Bem e o Belo do que produz enunciados que podem ser verdadeiros, juízos que podem ser corretos e expressões que podem mostrar o gosto. Dewey denunciou isso como uma atividade contemplativa. É claro que Hegel botou a filosofia em movimento, e Dewey sabia bem disso. Afinal, a filosofia era o cume de um processo de feito pelo Sujeito – o Espírito do Mundo. Mas o que era o Espírito do Mundo senão o invólucro das ações humanas? Então, para pessoas como Dewey, que haviam lido Nietzsche, o melhor era ver o homem perdido no universo, e não o homem como peça acertadinha em um cosmos acertadinho. Pois, vendo-o perdido no universo, veríamos melhor aquilo que Hegel parecia encobrir: que o sofrimento humano não pode ser chamado de “racional” sem que tenhamos alterado demais nossa noção do que é racional.

O sistema de Hegel fez água quando ninguém mais queria ver a Coruja de Minerva, gorda e encostada num canto, só trabalhar depois das seis da tarde. Sartre foi quem exigiu dela uma nova postura. Que ela parasse com aquela preguiça toda e viesse, na lida do cotidiano, colaborar com o homem em suas decisões diárias. O homem estava condenado à liberdade, dizia Sartre. E penso que Simone de Beavouir foi quem, a pedido de seu parceiro, andou pelas ruas de Paris à caça da Coruja preguiçosa. Cada homem teria de decidir a cada instante o que queria e para onde ia – solitariamente –, e cada decisão projetaria aquele homem no mundo, mostrando a todos os outros homens que mais uma estrada de possibilidades estava aberta. É claro que uma coruja acostumada só a tecer justificações tentou escapar disso.

Imagino Simone de Beauvoir entrando em uma catedral escura, em Paris, tentando encontrar a Coruja de Minerva escondida. E penso que ela não achou nada em Paris. Por isso ela teve o amante americano. Ela o conheceu quando foi buscar a Coruja no lugar mais provável: Nova York. O mundo havia se deslocado da Europa para a América – como o próprio Hegel previra e como Marx sabia que assim seria – e a Coruja, sempre no serviço de justificar, tratou de ficar mais perto do local de trabalho. Quando Simone de Beauvoir a encontrou na América, a Coruja relutou muito em aceitar a nova missão. Quase que como funcionário público molengão, ela estava há séculos e séculos indo para o serviço só depois da seis da tarde, e aquilo de ter de pegar logo cedo no batente não era com ela. Além disso, ela sabia usar da razão para justificar, e Simone estava exigindo dela que ela usasse da razão para decidir e se responsabilizar. Era muito para ela. Era um serviço … humano. Sim, no fundo era isso. A filosofia tinha de ser humana. “O existencialismo é um humanismo” foi um título de Sartre, exatamente porque decidir e aceitar que mesmo quando não se decide, já se decidiu, é a sina do homem. Nesse sentido o existencialismo era como o humanismo – todo o fardo da liberdade em quem a usufrui.

Hoje em dia, a Coruja de Minerva está sobrecarregada. Faz dois turnos.  Donald Davidson não a deixou abandonar sua função racionalizadora, noturna, hegeliana. Habermas a tem requisitado de dia, nas horas das decisões políticas mundiais. Foucault a colocou até mesmo para entrar em academias, saunas e hospícios! Rorty tem lembrado a ela que muitas pessoas não querem só a justiça, que é algo do âmbito público, mas também querem muito no âmbito privado, querem se reeducar e se transformar, criando-se a si mesmas. E eis então que a Coruja é requisitada até mesmo na sua hora de almoço. Bons tempos aqueles de Hegel, pensa ela. Mas eles não voltam mais. A Coruja de Minerva, agora, não tem mais sossego. A filosofia está muito longe de ser contemplação.

Paulo Ghiraldelli Jr. , o filósofo da cidade de São Paulo

3 Comentários leave one →
  1. 08/02/2008 22:30

    Paulo, esse texto é fantástico. Mesmo concordando com o trabalho exaustivo da coruja de minerve, bem que a pobrizinha poderia tirar umas férias. Ninguém é de ferro. Abraços!

  2. ramonjr permalink
    25/08/2008 16:39

    Olá Paulo,

    “ampliar o espaço lógico” seria algo como ampliar o tipo de coisas que as pessoas achavam não ser possivel e depois passam a achar ‘possivel e importante’ ? Algo como aquele seu vizinho ( do filosofia em menos de três mil palavras) passar a achar <> que o transito, em São Paulo, possa funcionar?

    Abraços

    Ramon

  3. ramonjr permalink
    25/08/2008 16:40

    obs: entre o era pra ser escrito *lógico*.
    Obrigodo!

    Ramon

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