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Educação em São Paulo: um Saviani correto faz falta

22/02/2008

A violentaEm educação, a direita não fascista adora acusar a esquerda ainda estalinista de “massificação”. Diz que a esquerda quer tirar da população, sob o nome de democratização, as opções da “liberdade de ensino”. Por isso, esse tipo de direita sempre evoca o direito à liberdade de ensino como um direito à existência do ensino privado ao lado do ensino público. Perfeito. É sempre assim? Ah! Em São Paulo as coisas são diferentes! Aqui, a direita não fascista, através de Maria Helena de Castro, secretária de Educação, acusou Carlos Ramiro de Castro, da APEOESP, de “baboseira ideológica” quando este criticou que o sistema apostilado introduzido nas escolas paulistas pode “fazer tudo ficar igual”. Ramiro reclama em favor da liberdade de ensino, em favor da criatividade do professor. A resposta de Maria Helena foi infeliz, apenas se limitou a tentar desqualificar o interlocutor. Para ela, tudo que é discordante dela é ideologia, e tudo que sai da sua própria boca é ciência. Velho Augusto Comte.

Mas e nós, os democratas de esquerda, que não temos nada a ver com APEOESP e nada a ver com Maria Helena? O que podemos opinar no caso? Aqui, é necessário lembrar um conceito do filósofo e educador Dermeval Saviani que é pouco entendido e, não raro, reiterado em manuais de modo errado. Trata-se da noção de “pedagogia tecnicista”.

“Tecnicismo em educação”, na acepção de Saviani, não é transformar o ensino em “técnico-profissionalizante”. Muito menos é tirar da grade curricular as disciplinas humanísticas. Quando Saviani elaborou a noção, nos idos da primeira metade da década de 80, ele tinha em mente a leitura do Capítulo Sexto “Inédito” de O’Capital. A idéia básica era observar como que Marx havia tratado coisas como “a aula”, ou seja, aquele tipo de atividade humana que, não sendo”produto material”, resistiria à sua transformação em mercadoria e, então, criaria uma certa dificuldade ao capitalismo. Saviani ponderou, então, que uma forma de tornar a aula, ainda que só em parte, mercadoria e produto em série, para fazer o capitalismo entrar também nesse campo, seria a objetificação da aula em “meios didáticos materiais”. E a apostila seria o meio mais barato e mais condizente para tal.  Nesse sentido a pedagogia tecnicista iria contra a pedagogia nova, que centrava o processo de ensino no aluno, e contra a pedagogia tradicional, que focalizava o ensino no professor. A pedagogia tecnicista deveria fazer dos meios didáticos materiais o centro irradiador do que é e do que não é para se fazer em educação.

Qual o objetivo da “pedagogia tecnicista”? Simples: na prática cotidiana o saber do professor seria expropriado, incorporado aos meios, e então a aula poderia ser ministrada por qualquer um, bom professor ou não. Do mesmo modo que a máquina substituiu o homem no processo produtivo, os meios didáticos substituiriam o professor no processo de ensino. A rotatividade do professor no emprego (na escola) seria possível, e assim isso traria ganhos financeiros para a escola particular, e ganhos em termos de “racionalização administrativa” na escola pública.

Bem, até aí, Saviani; agora venho eu novamente. O que Saviani fez ao caracterizar a “pedagogia tecnicista” foi um bom passo. Não concordo com ele que a pedagogia nova tenha dado origem à pedagogia tecnicista. Acho que Saviani fala assim apenas para ligar uma pedagogia liberal (a pedagogia nova) a uma pedagogia que nem mesmo os liberais suportam (a pedagogia tecnicista). É próprio do marxismo de Saviani fazer isso (como quando dizem que o liberalismo origina o fascismo etc). Outros marxistas da velha guarda pensam assim também.  Todavia, isso não quer dizer que não vejo como uma boa formulação o que ele fez ao delinear a pedagogia tecnicista. Avalio que é uma das melhores elaborações dele, embora muito mal compreendida. Todavia, ela não pode ser aplicada mecanicamente à realidade. É claro que nem sempre um sistema apostilado possibilita uma real rotatividade do professor. Também não é correto dizer que, posto este sistema, o ensino vá decair de qualidade de imediato. Ao contrário, talvez ele melhore. Pois o sistema de apostila só é introduzido quando o saber do professor já foi deteriorado ao máximo, então, tal coisa aparece como uma tábua de salvação que até dá benefícios em casos extremos. Aliás, foi assim que os cursinhos pré-vestibulares salvaram os colégios, diante dos vestibulares, nos anos 70 e 80. Todavia, o que é preciso notar é a não aceitação desse sistema por parte dos grandes colégios particulares das elites. Isso é significativo.

Um colégio de classe média, particular, é apostilado. A classe média acredita na apostila. Então, agora, os pais que tem filhos na escola pública, também acreditam. Mas os grandes colégios das elites mais ricas, ao menos em São Paulo e Rio, não são apostilados. Esses colégios são indevassáveis. São poucos, e a população não sabe o que ocorre lá dentro. Lá dentro ocorre um milagre para os que não sabem o que é o aprendizado: os alunos pagam muito caro mesmo, mas saem de lá para o comando real da sociedade. Ali não há apostila, ali o professor tem mestrado e ele trabalha com livros – bibliografia universitária. O livro não é meio didático. O livro é a ampliação da discussão que só pode ser feita a partir de um bom professor.

Assim, a questão de Ramiro e de Maria Helena não deveria ser discutida no âmbito sindical. Deveria ser discutida no âmbito teórico. Teríamos de começar a colocar na mesa uma análise mais ampla sobre o que é e o que não é introduzir apostila na escola pública. Será que estamos fazendo um bem? Ou estamos no caminho da reiteração da expropriação do saber do professor, feita por uma má formação anterior? Em que medida poderíamos apoiar a atitude de Maria Helena – que então teria de ser vista com uma ação emergencial somente – e, a partir daí, preparar ações a médio prazo para voltar a ter uma escola pública afinada com o livro?  Essas questões deveriam estar na pauta dos cursos de pedagogia e de pós-graduação em educação. Mas duvido que estão e estarão. Pois nesses lugares é onde a leitura de certas peças de Saviani se faz de modo errado, em geral voltadas para debate político partidário com viés comunista e pouco inteligente. Então, talvez Maria Helena fique sozinha nisso e, com a patada “é tudo baboseira ideológica”, possa mandar e desmandar, sem muita reflexão, na educação paulista.

Paulo Ghiraldelli Jr, O filósofo da cidade de São Paulo

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