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Ética “Chapa Branca” da Globo-Janine

09/03/2008

Sobre a série de ética da programação

educacional da Rede Globo

Renato Globo

[Veja aqui os vídeos comentando o programa]

Longe de minha intenção criticar a Rede Globo. Não sou daqueles populistas – da esquerda ou direita – que batem de modo furtivo em instituições poderosas para aparecer como herói vingador. Também não quero aqui criticar o professor de filosofia da USP, Renato Janine Ribeiro que, afinal, praticamente não exerce nenhuma função propriamente de professor no programa. Minha idéia é colocar um pequeno foco de luz sobre a característica do programa como uma atividade educacional, como um programa popular de filosofia com objetivos educativos.

Fico incomodado quando a filosofia é um nome para batizar uma atividade que não leva a pensar diferente, a fazer fluir a imaginação e, enfim, quando não atua senão no sentido de reiterar o que é o estabelecido. E é exatamente este o formato do programa de ética da Rede Globo: ele tenta ser didático, e consegue, mas a didática não leva o programa a ser um programa de filosofia – nem mesmo de popularização da filosofia. Também não é um programa informativo, capaz de melhorar a cultura de um estudante entre 12 e 16 anos.  Pois tudo que é dito é o que se pode tirar do cotidiano, sem qualquer acréscimo, e nesse cotidiano as pessoas já estão – elas o vivem. Elas não precisam de um professor da USP e do dinheiro da Rede Globo para andar em um taxi recordando de uma novela do passado.

Assim, a “aula” de Renato Janine Ribeiro é uma aula “chapa branca”. Isto é, ela é “oficial” no sentido que apenas reitera o que já está dado, o que já é o sabido por todos. Nas intervenções que ele faz, expondo ou perguntando, em nenhum momento ele cria uma situação que possa levar quem assiste a questionar o que foi dito. Terminada uma tomada externa, ele aparece ou para mudar de assunto ou para falar algo que de modo algum fustiga ou põe em cheque o que foi falado. A “aula” ou o “programa” é todinho montado por frases esparsas de pessoas na rua. Quando não, como é o caso da entrevista com o padre e com o gay, Janine faz o papel de repórter, e fica aquém de certas reportagens das meninas do MTV, muito mais críticas.

Agora, o maior defeito do programa é o seu entendimento do que é ética. Nesse caso, realmente Janine, como professor, deveria ter corrigido o texto que a Globo lhe deu para falar. Pois ética pode ser tudo que é prática, sim, mas ética não pode ser de modo algum algo reduzido a dilemas. Decisões podem ser algo observado na ética, mas estão longe de representarem a ética. Um programa todo em cima de decisões, e todas elas tomadas a partir do senso comum, é algo bem desgastante para quem, porventura, assistiu o programa imaginando que iria aprender algo filosófico em ética.

Quando falamos em ética kantiana, que é uma ética do dever, ou quando falamos em ética utilitarista, que é uma ética das conseqüências, as questões das decisões ético-morais importam. Então, nesse caso, a questão de “agir certo ou errado” é um elemento de destaque na ética. Mas só nesses casos. Outras formas de ética, como a dos gregos antigos ou das filosofias contemporâneas pós-modernas, implicam em outras posturas. Então, caso esse fosse o enfoque, um programa tipo “Você Decide” empobrecido não serviria.

Bem, quem não gostou de minha crítica até aqui pode objetar: mas Paulo, o Renato quis ficar só na ética moderna, e de modo simples. Ora, mesmo assim: nossos comportamentos não são guiados apenas pela idéia da ética do dever, que é a de seguir um princípio, ou de julgar resultados caso a caso, como os conseqüencialistas pedem.  Reduzir esses dois paradigmas ao “Você decide” didático, empobrecido, é exatamente o que eu chamo de “ética chapa branca”. Um programa popular de filosofia deveria introduzir outros paradigmas, exatamente para fazer a imaginação de quem assiste começar a voar. Afinal, ética é isso, ter a imaginação livre para poder criar a si mesmo. Janine chega a falar a frase “inventar” a si mesmo. Mas não a desenvolve. E não cria situações para que isso ocorra.

Tudo se passa como se ele, Janine, estivesse ali feito um fantasma, morto, mas falando por meio de aparelhos – um robô fantasiado de Janine. Em tom professoral, extremamente estranho para a vida cotidiana, ele mostra bem que está fingindo escutar as pessoas com quem ele fala. Mas ele está longe. Pois ele mesmo parece enfastiado com a reiteração de crenças comuns, de frases que poderiam ser aproveitadas para serem contraditas, mas não são.

É como se Renato Janine nunca tivesse feito um curso sequer de filosofia na universidade. Pois ele desconhece o filósofo que introduziu a ética como paradigma filosófico, Sócrates. Sim, ele não consegue levar adiante uma conversação que possa colocar o interlocutor na situação de se ver em cheque. Assim, a “vida examinada” não ocorre. Nenhum dos interlocutores se vê com chances de inventar a si mesmo. E quem assiste não tem nenhum gancho para iniciar uma atividade redescritiva de si. Não há a entrada de quem assiste no âmbito da criação de costumes, hábitos, prática e humores – tudo o que compõe o ethos. Há apenas o certo e o errado, ditado por regras religiosas ou do bom convívio. O resultado é um programa que, da pretensão de neutralidade, cai para o conservadorismo.

Éticas antigas e pós-modernas falam de algo que grosso modo poderíamos expressar por meio do termo “estetização da vida”. O grego se faz como quem faz uma obra de arte. O pós-moderno se redescreve sucessivamente, do modo como quem pinta um quadro que precisa, cotidianamente, de retoques e manutenção, e que vai se mostrando ao longo do tempo um outro quadro. Na conversa com o padre, o gay e as crianças, Renato Janine poderia ter colocado, contra elas, a experiência dele próprio. A vida dele ou de outros. Poderia, após isso, mesmo com simplicidade, ter mostrado como que paradigmas em ética popular estariam se relacionando com paradigmas em ética enquanto a ética dos filósofos. Não é difícil fazer isso na TV. Os recursos são muitos e a linguagem de Janine é a do jornalista, daria para ser entendido. Mas não ocorreu.  As frases do senso comum viraram lei. Elas deram o conteúdo da ética. O oficialesco ganhou e levou. Foi chato, decepcionante.

Por fim: qual a utilidade de um programa daqueles às seis da manhã? É só uma questão de dar chances para a Globo no seu Imposto de Renda, ganhando por meio de ter “feito educação” no Brasil? Bom, caso isso seja verdade, então, a relação com a ética fica ainda mais distante.

Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”

pgjr23@gmail.com

One Comment leave one →
  1. literatorium permalink
    13/03/2008 14:24

    Estimado Paulo, quería felicitarle por su blog y decirle que ojalá abundara la gente como Usted.
    Saludos desde Granada.
    Francis

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