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Um computador para cada diabinho

13/03/2008

Marshall McluhanHá pesquisas nos Estados Unidos com dados alarmantes sobre a queda de rendimento na aprendizagem de crianças que passaram a ter a posse de laptops individualizados em sala de aula. Essas pesquisas, segundo as universidades que as realizaram, apontam para o fato de que os alunos pioraram ou ficaram na mesma situação a partir do uso do laptop, e isso quase que independentemente do nível sócio econômico das turmas ou de suas diferenças étnicas. Pesquisadores da Unicamp afirmam ter feito investigações na mesma linha, obtendo resultados desanimadores.

Li as pesquisas mais importantes, e creio que posso dizer sem medo que elas tropeçam em pontos significativos.

É importante considerarmos as variáveis que realmente interessam e olhar essas pesquisas com carinho, pois o governo brasileiro atual quer levar adiante o programa “um computador para cada aluno”. Há cálculos nada tolos que mostram que o projeto brasileiro, com as metas de custos que vislumbra não se efetivaria, talvez apenas acumule um conjunto de laptops destinados ao lixo. Computadores com Internet possuem uma manutenção dispendiosa em vários sentidos. Bem, mas a questão aqui, no caso de nosso governo, é decidir se quer ou não sair do mundo do marketing político e fazer algo, ou se quer apenas dizer que fez algo.

Todavia, meu interesse é pedagógico. Do ponto de vista técnico-pedagógico, qual a maior falha das pesquisas disponíveis? O problema todo é que tomam o laptop como meio didático neutro. O que esperam dele é que ele entre na sala de aula, caia nas mãos de cada diabinho diante de um professor e, então, passem a ajudar no ensino que, enfim, deverá ser o mesmo de sempre. Mas a tecnologia da educação nunca foi neutra. A apostila não é neutra, e por isso ela difere do livro. O laptop não é neutro, e por isso ele difere da apostila, do livro e do quadro negro. Não é pelas suas características físicas que ele difere, é claro; como qualquer outro novo meio da tecnologia educacional ele reformula o conteúdo (sim!), ele torna prioritário outros conteúdos e, enfim, ele gera uma transformação em um sentido muito mais amplo e profundo que o imaginado pelos incautos. Ele próprio é um conteúdo!

Quando você aprende um conteúdo por meio de uma apostila, que é um resumo dirigido, os macetes são prioridades. Em vez da longa dedução ou de todo o raciocínio que aparece no livro, a apostila lhe dá os resultados do raciocínio. Ela ensina utilizá-los em casos que exigem presteza e velocidade. Isso é bom? Ora, para o aprendizado substancial, não.  Isso vale para os cursos de treinamento, onde há o suposto de que o aprendizado já ocorreu ou, ao menos, já se iniciou de forma satisfatória, e que o treinamento deverá apenas melhorar a performance do treinado diante de baterias específicas de exames. Portando, o que é cobrado de alguém que melhora sua performance por meio de apostila não é comparável, termo a termo, com o que é cobrado de alguém que aprende com o livro. Aprender é uma coisa, ser treinado é outra coisa.

O menino que tem a Internet à disposição em sala de aula já deve ter passado por um processo de disciplina que não o deixa se dispersar para além do normal. Além disso, é necessário criar mecanismos que possam fazê-lo lidar melhor com o fato de que a Internet, ela própria, é um grande autor. Ela própria cruza informações, nos seus vários mecanismos de busca, e gera uma informação que é mutatis mutandis um elemento desconstruído. Os significados de um texto ou imagem, comumente esperados que sejam os possivelmente apreendidos pelo aluno, podem não ser os que ele vai expor para o professor após ter passado pela Internet; ele simplesmente pode reproduzir significados que à primeira vista vão nos parecer loucura ou simplesmente falta de aprendizado. Ele próprio vai produzir significados que já não estarão nos padrões corriqueiros.

As pesquisas não têm considerado que as crianças-como-Internet não irão aprender o que queremos que aprendam (ou que queríamos), mas não vão deixar de aprender; eles vão aprender outras coisas, aquelas que o laptop e a Internet “querem”. Assim, para sabermos se houve progresso nessa aprendizagem, temos de ver – sem moralismo e falta de inteligência – o que é que esses meios estão colocando como objetivos. E então, temos de mudar nossas avaliações escolares. Só depois disso poderemos decidir se o que queríamos que eles aprendessem é ou não mais válido e melhor do que o que de fato aprenderam. E, além disso, temos nós mesmos de sermos bons usuários da Internet para não gerarmos preconceitos na nossa visão do que são as máquinas e o que são os nossos conteúdos realmente importantes para a vida futura, não para a vida que tivemos, pois essa já acabou para os muito jovens.

A idéia já ficou velha, mas ela continua válida: o meio é a mensagem/massagem. Lauro de Oliveira Lima repetiu esse dito à exaustão. Mas os pesquisadores brasileiros, às vezes jovens, não sabem quem é Lauro de Oliveira Lima. E no exterior, Marshall McLuhan se tornou um desconhecido de alguns importantes professores universitários. Então, as pesquisas sobre o ensino com computador e Internet, não conseguem ver o poder real do meio no âmbito dos processos comunicativos e pedagógicos.

Por fim, outro dado problemático, é que no Brasil os textos dos que são a favor do programa do governo “um computador por aluno”, em parte também consideram o meio como algo neutro. Terminam por gerar a idéia da restrição no uso dos computadores. Aliás, é isso que as faculdades fazem: criam “bloqueios” ridículos de certas áreas da Internet. Nesse caso, a falta de entendimento do que é a Internet gera o anti-ensino por excelência, que é a censura.

Paulo Ghiraldelli Jr “O filósofo da cidade de São Paulo”

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