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Tibet Livre

22/03/2008

Miss TibetO filósofo Richard Rorty, de quem fui amigo e tradutor, escreveu um prefácio especial para um de seus livros publicados no Brasil[1], e este prefácio tem se tornado cada dia mais atual. Ele dizia que esperava que os países emergentes, entre eles o Brasil, a China e a Índia, pudessem levar adiante um projeto que havia sido dos Estados Unidos. Ele falava do projeto democrático. 

·         O século XX foi o século americano. Será o século XXI um século chinês, brasileiro ou indiano? A China parece ter saído na frente, em vários aspectos. Todavia, o Brasil e a Índia possuem um projeto melhor. Mantemos a sociedade de mercado, mas não precisamos, para tal, abolir a democracia. O projeto da China, por enquanto, não se mostrou universalizável. Uma boa parte do mundo que foi conquistado pela democracia americana, pode vir a apoiar a hegemonia chinesa um dia, contanto que os chineses mostrem que, como nós e os indianos, eles também aprenderam alguma coisa a mais com o século americano do que simplesmente construir shopping centers, sediar jogos e comer hamburguers. 

·         Desde o governo Carter, nos Estados Unidos, a China vem sendo alvo de constantes manifestações americanas, que se espalharam no mundo todo, que pedem a “abertura do regime chinês”. Ninguém no mundo ocidental parece estar contente com uma China não democrática.  

·         No passado recente, os comunistas do mundo todo empurravam para debaixo do tapete as atrocidades do governo chinês e o completo desrespeito aos direitos humanos naquele país. Todavia, hoje, como a China não tem mais nada de socialista a não ser nomes oficias, não deveria mais existir para ela nenhuma proteção. Princípios de mercado entraram na China, mas os princípios do liberalismo e da democracia, em um sentido social e político, não vingaram. Então, só uma parte do que parece bom do Ocidente chegou aos chineses. Para nós, os amantes da liberdade, o mercado livre é bom quando outras liberdades são instituídas – liberdade de imprensa, partidária, sindical, de ir e vir, de igualdade perante a lei em tribunais visíveis e com amplo direito de defesa. Sem esses “detalhes”, nós, os democratas do Ocidente, não achamos que uma nação é completamente civilizada. 

·         Podem nos achar autoritários por isso? Por gostarmos da democracia e acharmos que ela é tão boa que outros deveriam adotá-la, somos autoritários? Gostamos tanto que acreditamos que o título de “civilizado” só valeria para nós, os democratas? Talvez estejamos, sim, nessa contradição. Mas, no momento, estando nela ou não, é difícil que alguém de bom senso não queira nos acompanhar nos protestos contra o governo chinês pela sua manutenção do Tibet nas condições de “prisioneiro interno”. 

·         O Tibet é uma nação. Não é a China. Não é uma “província”. A história do Tibet não é a história da China, em nenhum aspecto. Só uma coisa faz o Tibet ter alguma relação com a China: o então país comunista, com Mao Tsé-tung à frente, começou aquilo que os comunistas acusam os capitalistas de fazerem: o imperialismo. Mao anexou na base da força o Tibet ao seu império. A idéia de exportar a Revolução, vinda de Napoleão, ganhou Lênin e outros e passou por Fidel Castro. Teve em Mao um adepto a mais. Todavia, nem com Napoleão nem com nenhum dos outros a exportação da revolução foi outra coisa senão a anexação pura e simples, pelas armas, de nações independentes. O resultado desse tipo de política não é alvissareiro. Nem Napoleão terminou bem nem a URSS conseguiu sobreviver. Nós, os bípedes sem penas, somos seres do chão, gostamos da terra, temos raízes demais. Falamos o “som do lugar”. A democracia nos parece boa exatamente por isso, ela diz que será feita a vontade da maioria enquanto não forem ultrapassados os limites dos direitos das minorias. Podemos ser universalistas e cosmopolitas, contanto que, no nosso rincão, todas as crenças e costumes que vínhamos seguindo, e que não afetam em nada o universalismo, possam se cultivados. 

·         A idéia de um Tibet Livre é exatamente esta: os “da terra” querem que o canto da terra possa ser cantado. Afinal, qual a razão de silenciá-lo?  

·         Alguns secularistas querem nos convencer que o Dalai Lama é um agente de um estado teocrático. Nesse sentido, em nome de Buda, um dia iria ter a Bomba Atômica e nos ameaçar como o Irã faz hoje. Mas ninguém acredita nisso. Há teologias e teologias. Há teocracias e teocracias.  

·         A cultura do Tibet é vista pelo mundo culto como um patrimônio da Humanidade. É uma Tibetcultura de paz, de serenidade. Nada tem de parecido com as “paradas militares” da China ou com a perseguição a homossexuais do Irã. Se a China quer mostrar ao mundo uma faceta “ocidental”, sediando os jogos Olímpicos, como o Japão já fez para se ocidentalizar, seria bom que começasse a pensar que ser ocidental, participar da cultura ocidental é, antes de tudo, não repetir nossos erros, nosso imperialismo, e ficar com nossos acertos, nossa democracia. No ano dos Jogos Olímpicos valeria, sem dúvida, uma pressão para a China se democratizar, como a que fizemos com a África do Sul, para botar fim no regime do apartheid. Seria legítimo e todos nós teríamos a ganhar.  

·         O tamanho da China e a quantidade de chineses existentes representam algo fantástico. Uma nação daquele tamanho, inteirinha democrática, como foram os Estados Unidos na maior parte do século XX, seria uma conquista do ser humano que daria orgulho a todo homem e mulher nesse planeta no século XXI. Mesmo os não amantes da democracia iriam adorar, pois eles só podem desgostar da democracia e falar mal dela quando estão nela. Quando não estão, mesmo se estão no poder, não podem falar mal da democracia. Então, até seus inimigos iriam poder dizer: temos o melhor. Estamos no melhor.  

·         A idéia de um Tibet Livre seria um bom passo para a China começar a pensar em uma distensão política e social, uma transição para uma situação que pudesse dar ao povo chinês mais maturidade. O escravo, o que não decide por si mesmo, não pode querer colocar seu modo de viver como modelo para o mundo – seria uma pobreza de espírito aceitar isso. 

·         Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo, site www.ghiraldelli.pro.br


[1] Trata-se do Pragmatismo e política, da Martins Fontes, 2005.

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