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Tapas – no sexo e na educação

29/03/2008

Gato e Rato ·         Tapa

·         Quem nunca foi solicitado por uma mulher a lhe dar uns tapas na cama pode até acreditar que viveu, mas não viveu – passou ou está passando “em brancas nuvens”. Nem como homem nem como ser humano entendeu alguma coisa. Agora, se uma vez solicitado, não conseguiu bater ou bateu sem “acertar a mão”, aí é outro problema. Pode ter faltado maturidade ou mesmo compreensão da atividade sexual. Por outro lado, quem nunca foi solicitado – explícita ou implicitamente – a fazer isso, andou com parceiras erradas durante o tempo todo. Está na hora, urgente, de mudar! A mulher que nunca sentiu o gosto do chamado “tapinha de amor” (no sentido correto do termo), deveria repensar o que faz na cama. Talvez, trocar de parceiro urgente.

·         Bem, com esse parágrafo acima penso ter provocado o ódio dos impotentes, incultos e incultas. Assim, posso agora usar da filosofia para o que está em questão aqui, sem que eles continuem a ler o resto do texto. O tema é o tapa. E o mote é a condenação de um grupo de Funk pela música que contém a frase “um tapinha não dói”.

·         A decisão da Justiça de Porto Alegre é altamente controversa, pois ao mesmo tempo em que condena uma música, por “incentivar agressão à mulher”, colocando contra a gravadora uma multa muito alta (500 mil reais), isenta outra gravadora pela música “tapa na cara”. Isso depõe contra a Justiça. Mas não é sobre a honestidade da sentença que coloco a filosofia para agir aqui. Comento aqui a função do tapa, tanto no ato sexual quanto na educação. Isso porque, ao tentar explicar o caso, o cantor punido disse que ouviu a frase “um tapinha não dói” da sua filhinha. Então, colocou na mesa o tema para a minha observação filosófica, que vai do campo da educação ao campo do sexo e correlatos – um campo que tenho atuado já há algum tempo, e que recentemente abordei novamente com o livro O corpo – filosofia e educação (São Paulo: Ática, 2007).

·         Educação

·         O tapa na criança, na educação, não é algo executado sem uma teoria. Não é um ato de violência, pura e simplesmente. Pode até ser. Mas, não nasceu assim na escola moderna. Apareceu na pedagogia moderna de modo muito bem arquitetado. John Locke não só o recomendava como elaborou um manual para que o educador pudesse aprender a bater (veja: Ghiraldelli Jr., P. O que é pedagogia. São Paulo: Brasiliense, 2007).

·         Punir fisicamente uma criança nunca foi levado pouco a sério. Sempre foi uma tarefa consciente, principalmente no mundo moderno. Exagero nos maus tratos e dano físico associados a uma compreensão de elementos da psicologia que levaram a prestigiar a motivação, idéia gerada pelo movimento romântico e não pelo iluminismo, é que trouxeram argumentos para a pedagogia que se opôs à punição física. Países como os Estados Unidos levaram a sério esse romantismo associado ao pragmatismo. Os países europeus levaram a novidade romântica bem menos a sério. Rousseau venceu na América, não na Europa. Na Europa, a “educação do gentleman” de Locke nunca deixou de fazer certo sucesso.

·         Por isso mesmo o filósofo da Escola de Frankfurt Theodor Adorno escreveu com tranqüilidade que, diante de uma criança que tivesse cometido a maldade de tirar as asas de um inseto, ele não hesitaria em lhe dar um tapa na mão. Adorno era completamente avesso à violência. Mas nunca abriu mão da chamada “pedagogia rígida” dos alemães.

·         No Brasil tivemos formação européia, ao menos até os anos trinta. Quando a literatura americana de cunho “escolanovista” começou a ser divulgada entre nós, passamos a adotar uma forma mais romântica e mais branda de tratar as crianças. Isso chegou primeiro às classes médias e, atualmente, por meio da legislação, também aos mais pobres. Assim, filmes como “Sociedade dos Poetas Mortos” fazem sucesso entre nós, pois mostra o que gostaríamos de ver, que é os Estados Unidos, mesmo no pós-Guerra, ainda envolto com uma não completa revolução romântica. De fato, o romantismo em educação e o movimento da Escola Nova não ganharam os Estados Unidos como um todo de modo tão rápido quanto os livros de história da educação no contam. Mutatis mutandis o mesmo ocorreu e ocorre aqui. Embora hoje em dia a questão da violência nas escolas brasileiras já nem seja mais uma questão pedagógica, pois se trata da violência contra o professor, em uma sociedade onde a distância entre ricos e pobres tem se tornado insuportável.

·         Sexo

·         Na atividade sexual a objetificação é um tema típico do feminismo (ver: Leiter, B. The future of philosophy. NY: Clarendon Press, 2005). É a versão feminista do tema da reificação no marxismo. Tratar os humanos como coisas é algo inerente ao prazer sexual. Quando ouvimos Kant em demasia, de modo pouco inteligente, e desprezamos isso, o sexo perde o elemento de “gana”, de “adrenalina” que deve possuir. Então, o sexo passa a ser uma atividade que mais lembra a relação paterna ideal ou a relação fraterna ideal – a maior parte das mulheres não anorgásmicas odeia isso. E com razão.

·         Assim, as feministas tiveram de parar de condenar o tapa na mulher e se obrigaram a estudar o fenômeno. O feminismo ampliado, trazido para o interior da universidade, como o que se instalou nos Estados Unidos, possibilitou uma visão mais intelectualizada do assunto. É claro que a maior parte das feministas ainda trabalha com tabus. Todavia, algumas feministas passaram a admitir abertamente que gostavam de “levar uns tapas” na cama, e que não se sentiam nem um pouco humilhadas ou diminuídas por isso. Hoje em dia, muitas mulheres altamente senhoras de si, independentes, dizem abertamente que se sentem rejeitadas e diminuídas quando o tapa não ocorre. As feministas que assim admitiram começaram a tentar investigar a relação sexual de modo mais científico, e menos como uma forma delas próprias se esconderem.

·         Isso, do tapa no sexo, nada tem a ver com masoquismo. Segundo o que a filosofia feminista tem trabalhado, ao menos nas vertentes não grotescas, a questão da “objetificação” no sexo é um tema sério. A piada de Wood Allen tem se tornado algo para ser refletido. Perguntado se o sexo é sujo, ele respondeu: só quando é bem feito. De fato, as práticas de “sodomy”, para usarmos o termo americano que cobre corretamente o coito anal, os tapas e o tratamento objetificante (mas não a agressão que causa danos físicos), quando consentidos, têm sido repensadas pelo movimento feminista. Cada vez mais as questões estão caminhando para a investigação em psicologia em associação com a filosofia da mente e a neurofisiologia, de modo a se chegar a uma avaliação menos esteriotipada do que é o prazer e o desprazer.  

·         Em nossa sociedade atual, prazer e desprazer são quase que tomados como sinônimos de felicidade em geral, ainda que muitos não admitam isso. Prazer e desprazer sexuais estão ligados à felicidade em geral no Ocidente moderno – deveríamos procurar compreender isso, em vez de lutar contra o que, de fato, aceitamos. O movimento feminista não tem desconsiderado essa questão. E se ficarmos atento à semântica envolvida nos termos, veremos que estamos de fato vendo a felicidade sexual como um componente muito grande – e a meu ver correto – na idéia de felicidade em geral.

·         Em alguns lugares o feminismo ainda trata esse assunto, o da “objetificação”, como tabu. Em outros, onde o feminismo reabriu suas portas para a feminilidade, a “sodomy” e mesmo a pornografia tem recebido estudos mais sérios. Há menos feministas ligando práticas de “sodomy” à violência contra a mulher – registradas em casos policiais – do que no passado. E até mesmo a pornografia começa a ser um tema sobre o qual é possível, talvez, escrever sem ter de condenar. Onde o feminismo tem ficado inteligente, ele tem se aberto para uma visão moral, não para um moralismo.

·         Todavia, no Brasil, caso possamos entender que a ONG que entrou na Justiça contra as músicas citadas seja uma entidade séria (nada sei sobre isso), então podemos dizer que o que motivou a ação foi a ignorância do próprio feminismo atual.

·         Há um campo enorme de estudos que mostram que o ato sexual entre mamíferos depende de uma iniciação, e que esta é feita segundo um jogo. Gatos, cachorros e até mesmo não mamíferos mostram isso. O jogo, não raro, implica em certo nível de “agressividade”.

·         No âmbito humano o jogo pode ser o “pega-pega” – com ou sem “esconde-esconde” e coisa do gênero. Mas não ficamos só nisso. Homens e mulheres completamente não violentos e incapazes de qualquer crime não escondem, em pesquisas sérias e bem feitas, que assistem vídeos de estupros (simulados?) que povoam a Internet. Esses vídeos os ajudam a iniciar “um jogo” que envolve mais “objetificação”, e com isso acabam por entenderem o que é “fall in love” em uma completa associação ao “fuck me baby”. Não são poucos os casais que percebem, já tarde, que seus casamentos acabaram por que a “objetificação” no sexo não foi conseguida. A idéia do “respeito à mulher” terminou por impor um bloqueio na atividade de ambos e, então, ou eles procuraram outros parceiros ou simplesmente aceitaram um destino celibatário.

·         Depressão

·         No âmbito da atividade sexual sadia há um problema: a depressão. Ou melhor, a depressão após crise de ansiedade ou descontrole de níveis de ansiedade.

·         Anorgasmia e depressão andam de mão dadas. É preciso, então, saber dosar os remédios. Há pessoas que não entendem que a paroxetina, utilizada muito hoje em dia, não é um inibidor sexual. Ela regula a atividade sexual na medida em que consegue regular a ansiedade, evitando a crise depressiva. Ela diminui o número de vezes que se pode ter orgasmo em um dia, mas ela não interrompe a atividade sexual nem é responsável por um orgasmo menos esfuziante. É um bom medicamento.

·         O trabalho da paroxetina é diminuir o grau de ansiedade, regular efeitos que podem ser os de “síndrome de pânico” e as pequenas paranóias. Então, para homens e mulheres cuja atividade sexual poderia ser a de dois a três encontros no dia, ela pode reduzir isso a um encontro no dia ou trazer o casal para um encontro na cama a cada dois dias. Mas, em um casal já desinteressado, realmente a paroxetina pode tirar a ansiedade e, no entanto, não lhes trazer motivação para a cama. Cada caso é um caso e é necessário, aí, um auto-conhecimento grande de casa usuário.

·         Ao contrário do que os psicanalistas dizem, o auto-conhecimento, no caso, não é necessariamente adquirido na clínica ou no divã. Ele é adquirido no próprio jogo sexual. O diálogo não é essencial no caso. A conversa mais atrapalha que ajuda o auto-conhecimento e o conhecimento mútuo. Sexo é prática e “feeling” – maturidade. Os deprimidos devem encarar que são deprimidos, não apenas tristes. Devem perceber que a condição de deprimido é “física”, e que, não raro, ela pode ser fruto da ansiedade descontrolada que leva, no outro dia, a uma frustração óbvia. Devem aceitar que a paroxetina é um dos caminhos para eles. E devem compreender que estarão saindo de tal situação exatamente na medida em que estiverem conseguindo perceber que o “tapinha de amor” não só não dói, mas ele é uma parte essencial do sexo atual. Quando perceberem isso, sentirem isso, terão sido sinalizados: estarão a um passo de se considerarem fora do time dos deprimidos. Mas não devem parar com a paroxetina (ou derivados e similares) por causa disso.

·         Tudo que falei acima é para pessoas inteligentes. E maduras. Ou procurando amadurecer. A filosofia pode bem dar uma mão, como é o caso aqui. E é necessário compreender que ela, a filosofia, sabe bem que tudo isso acima mostra que o caminho do estuprador e do violento não é o dos que vão seguir as minhas sugestões e observações acima. Eles estão em outro time. 

·         Paulo Ghiraldelli Jr. “o filósofo da cidade de São Paulo” – pgjr23@gmail.com

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One Comment leave one →
  1. 14/05/2012 22:35

    Texto corajoso, abordando um assunto de extrema delicadeza por causa da hipocrisia, com certeza deveríamos falar mais sobre sexo, principalmente nas escolas onde ainda reina uma pseudo religiosidade, que não sabe pouco ou nada sobre religião e sobre nada mesmo. Abraço

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