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Filosofia da Percepção Social

20/04/2008

•1.      O “Note” não aponta para um “espetáculo”

uma estética de hoje?Um dos postulados do “Maio de 68” foi a tese do livro A sociedade do espetáculo, de Guy Debord. Segundo o livro, estaríamos vivendo em uma “sociedade do espetáculo” – o mundo das imagens. Mas não de um modo simples. O espetáculo seria o resultado das artimanhas da mercadoria, e não os fenômenos de profusão de imagens pela onipresença das mídias.

A idéia de Debord nos anos sessenta, e que ele praticamente sustentou até 1994, quando cometeu suicídio, não dizia respeito à palavra espetáculo como ela é usada por nós, no cotidiano. Não se tratava do que é desejado de ser visto como entretenimento, embora também o seja. O espetáculo de que falou Debord não necessariamente tinha algo de espetaculoso. Não era o “show”. Espetáculo, no sentido que ele usou, tinha a ver com uma compreensão neomarxista (mas, a meu ver, também heideggeriana) dos resultados do mundo reificado-fetichizado posto pela mercadorização, enquanto fruto da maneira como vivemos sob o capitalismo.

Os desenhos eróticos de Serpieri usam de todo o volume necessário para o tipo de nossa percepção atualPor isso, quando falamos de uma “sociedade do espetáculo”, podemos ser mal interpretados, caso estejamos querendo dizer, simplesmente, que nossa sociedade é a sociedade do que “se mostra”, do que “aparece”, e que nessa sociedade há uma certa verdade na frase de Debord para falar de sua “sociedade do espetáculo”, “o que aparece é bom, o que é bom aparece”. Tentarei, então, evitar o termo espetáculo. Caso Debord não o tivesse usado no sentido que fez, talvez fosse o título ideal deste meu texto. Mas, o modo como comento a sociedade atual não é pela universalização da mercadoria, no sentido marxista. E também não é no sentido da profusão de imagens, naquele sentido que Debord disse que não era o seu.

No meu modo de falar da sociedade atual, há outros elementos que me tornam curioso. Penso que se quisermos caracterizar o fenômeno comum que nos une no Ocidente atual, nos centros urbanos, o melhor caminho é seguir nossos vocabulários. Eles vão apontar para o que mais comentamos, e isso será um indício claro do que preferimos, uma boa pista sobre o que fazemos sempre e sobre o que não temos feito de igual.

Duas palavras que se tornaram freqüentes entre nós foram o “note” e o “tipo”. Isso também é verdade para os Estados Unidos: “look” ou “see” ou “look at” e “something like that” ou “sort of” – tudo isso tem tido muito uso no mundo urbano, variando de aplicação de um modo mais amplo que no passado. A idéia é a do império da semântica do “note” – veja ou escute ou pegue. Enfim: note. Não no sentido de “anote”. Não, apenas no sentido de “veja aquilo que se destaca”. E fim. Passamos para a frente, para outro “note aquilo”.

volume acentuado e facilidade de desterritorializaçãoEis então nosso comportamento: de um lado, somos cobrados a notar, de outro, devemos ser notados. Então, para ser notado, temos de ser “um tipo”. “Que tipo!” – eis também outra expressão do momento. Ou ainda: “Ele é o cara”, “the man”.

Não estamos na rua para sermos olhados. Estamos na rua para sermos vistos e percebidos – notados. A TV não conseguiu nos dar isso que queríamos. A Internet, esta sim, veio junto dessa momento especial: “broadcast yourself”, que é o lema do Youtube, se tornou uma regra mundial. Mas, nem na rua nem no Youtube aparecemos para o “espetáculo”. Não aparecemos para o espetáculo como “produto das realizações da mercadoria” ou para o espetáculo do “show time” como fruto da onipresença da mídia. Aparecemos apenas para sermos notados, de uma maneira simples, sem que isso seja um espetáculo, no sentido mais comum do termo. Temos de ser percebidos. Não vamos “dar um show” e nem vamos fazer parte do “mundo fetichicizado-reificado da mercadoria”, ainda que isso possa também acontecer. Vamos apenas “não passar desapercebidos”. Temos de não passar desapercebidos – para um grupo social que elegemos como importante, e às vezes para qualquer grupos social, momentaneamente.

Não estou dizendo que o espetáculo, tanto no sentido banal, provocado pela onipresença da mídia, fotógrafo que privilegia a forma geométrica e o exageroquanto no sentido neomarxista (como Debord fala, alertando para esses dois sentidos do “espetáculo”), não serve como noções para conversarmos a respeito da sociedade atual. Claro que servem. Podemos falar coisas ainda interessantes utilizando o aparato de McLuhan para o primeiro caso e o ensaio de Debord para o segundo. Mas, para falar do que é comum entre nós, o que está dando direção para nosso comportamento, é melhor teorizarmos menos. Se quisermos ver o leito por onde corre nossa sociedade no que ela tem de comportamento coletivo e busca de felicidade cotidiana, é bom que olhemos para o que a linguagem aponta.

Em vez de teorias sociológicas de grande porte, seria melhor usarmos apenas a corriqueira atividade de seguir a linguagem. Veremos com isso que o lema é “note”.

desterritorializaçãoAssim, de um lado, tudo que puder ser “um tipo” para ganhar a expressão, corresponde ou quer corresponder ao que, do outro lado, é o “note”. Na linha que liga esses dois pólos, o do “tipo” e do “note”, é que temos que conseguir viver. E tudo que fazemos é dizer “note”, para aqueles que conseguem ser “um tipo”. Nossa sociedade é uma sociedade em que quem não é notado torna-se um sério concorrente para cair no campo dos frustrados. E a frustração, no nosso caso atual, é sinônimo de desprazer intenso e, no limite, infelicidade.

O note não é os “quinze minutos da fama” (diminuído para cinco, atualmente). Pois, volto a dizer, o “note” e o “tipo” fazem parte de um show que não é espetaculoso. O “tipo” é digno do “note”, mas sem produzir o entretenimento que poderia se tornar elemento profissional ou mesmo fonte de algum lucro ou poder substancial para o notado. O “note” e o “tipo” apenas são isso que são: o tipo é notado porque é um tipo e o note é o som que solto pela boca pois meu colega do lado não notou o que devia ser notado – o tipo.

•2.      O alvo do “note”

completa desterritorializaçãoÉ claro que isso tudo que disse nos induz a imaginar que coisas como o esporte de massa, a pornografia e o erotismo, as façanhas urbanas e, enfim, o exotismo urbano podem ser os elementos dominantes hoje em dia. Cuidado! Não são esses elementos por si mesmos que criam o “note”. Eles certamente são uma força constituinte do “note”. Mas, sozinhos, não dizem nada. Não causam ou provocam o “note”, não chamam a atenção. Precisam entrar no ambiente focalizado com a capacidade de fazer o mecanismo de nossa percepção funcionar corretamente. Ou seja, eles devem ser construídos segundo o modo como nossa percepção está querendo ser acionada, de acordo com seu funcionamento no mundo atual.  

Esses mecanismos de percepção estão sendo montados segundo alguns elementos determinados, e não outros. No máximo, tangencio uma filosofia descritiva da percepção social. Não quero aqui sair do campo imediato do meu objeto, remetendo a elementos sociológicos. Aponto aqui para elementos do âmbito próprio da percepção. Um desses elementos – talvez o mais forte – é o volume, ou seja, o exagero do sólido no qual o que é para ser notado se encaixa ou no qual o objeto em questão se faz e se coloca socialmente. E digo a palavra “sólido”, aqui, em todas as suas acepções – inclusive e sobretudo na sua acepção que, talvez, seja a literal: a geométrica. O que quero dizer é que a tridimensionalidade nunca foi tão forte como agora no campo da estética visual. Tudo que é volumoso é dono do “note”. Não importa aqui se os sólidos são cones, esferas, cilindros ou cubos. Essas formas vão competir e do resultado teremos a moda. O que importa é que eles apareçam garantindo a tridimensionalidade. Isso será o básico para que a moda aconteça.

O volume do qual estou falando não é o volume necessariamente grande, mas é o volume volume, peso e desenhos no ar que são a tridimensionalidade em apologia - nada do proporcional ao que tínhamos. Tudo que podia ser aceito na sua bidimensionalidade perdeu para o campo da tridimensionalidade. É nisso que aponto o exagero. É nisso que o “tipo” se instrui, se funda e se cria: no que aguça.

E digo isso não apenas quanto ao campo visual. O análogo do volume visual é a acústica capaz de distribuir e receber os sons de variados locais. O som digital ampliou em muito aquilo que chamávamos de “stereo”, e que agora denominamos de “surrounding”.

Esse fenômeno – o do comando do mundo pela tridimensionalidade – mudou nossa concepção dos objetos notáveis. A pornografia e o erotismo, o esporte e as façanhas urbanas, o exotismo e o heroísmo cotidiano e, até mesmo, o espetáculo no sentido produzido pelo mundo fetichizado-reificado da mercadoria – seja lá por quais meios venham até nós – precisam se apresentar nos seus aspectos estéticos o mais exageradamente possível. Precisam dar ganho às formas. O volume e o “surrounding” dão a linha para tudo nesses campos do já notável. Assim, o desporto precisa apresentar os movimentos exagerados e executados por homens e mulheres exagerados. O basquetebol é um exemplo claro disso: homens e mulheres enormes, que antes eram magros e sem agilidade, hoje são musculosos e ágeis. O basquetebol não é só um jogo de exagero de contagem, mas de exagero de brilho – na pele dos jogadores e jogadoras suados e suadas – e de força. Esteticamente a questão toda é mostrar para quem assiste que se está diante do volume: volume de músculos que desenham no ar sólidos volumosos com seus movimentos. O basquete se tornou um “balé de monstros bronzeados”. O sexo tem seguido o mesmo padrão – o festival do silicone deve dar sensação de profundidade, de uma tridimensionalidade jamais vista. O som acompanha isso: o basquete musicado e o gemido em cadência da música nos pornôs são essenciais.

Essa regra do volume, ou seja, a vitória da tridimensionalidade atingiu até mesmo os lugares onde sua entrada era expressamente proibida. É como se Hulk tivesse se tornado dono do mundo e ele, pela visão de si mesmo, quisesse dar a estética do mundo. Assim, um esporte como o tênis, onde o recato implicava formas esguias, onde o aplauso era a única maneira da torcida se manifestar, e onde a cor branca dava o tom bidimensional para tudo, cedeu para a nova percepção. Serena Williams é o oposto de todo esse passado: musculosa e ao mesmo tempo ágil, negra que rompe com as quadras para mostrar suas nádegas volumosas nas revistas chiques.

linda, mas tradicional - sem volume e sem possibilidades de desterritorializaçãoTudo se passa como se o círculo perdesse para a esfera, o retângulo para o paralelepípedo e o triângulo para o cone.

Esporte e sexo realizam o ideal dessa “sociedade do note”. E eles fornecem os ingredientes para o vestuário, gestos e comportamentos – inclusive lingüísticos – no campo urbano. Por isso, no mundo urbano, os “tipos”, devidamente maquiados e devidamente vestidos, usam gírias e gesticulam como se estivessem ou num campo esportivo ou numa cama de filme pornô. Gestos do esporte e gestos obscenos se fundem e se confundem. Para alguns grupos, isso faz parte até mesmo de um código de entrada e permanência. O importante é que os mecanismos de percepção que cobram volume e exagero possam despertar no outro o gatilho lingüístico do “note”.

“Irado”, “manero” ou qualquer outra gíria que surge e desaparece no mundo dos “tipos” nada é senão um sinônimo do “note”. O que tem valor tem valor por ser percebido. E o percebido é volumoso. Por isso, os homens voltam a ter cabelo comprido e a moda de inverno, na qual você pode acoplar o terno-sobretudo com vários outros ingredientes, é tão esperada pelos “tipos”. Grupos “metaleiros”, que fazem tattoos ou grupos que usam piercings etc. já não sabem mais o que fazer no sentido de exagerarem e seguirem a regra do volume. A democracia da percepção inclui uma ditadura do “note”.

Quem não conseguir se fazer notar, nessa próxima estação, deverá comprar anti-depressivos.

•3.      O império do volume e castelo da desterritorialização

O que faz essa roda tão longe da moto? A desterritorialização se impõe ao design A transformação da percepção, como eu a aponto aqui, exige dos que são amantes de teorias uma explicação. Querem uma narrativa de segunda ordem. Querem uma narrativa que diga como e porque isso é assim e não de outro modo. A percepção por si só não basta para esse pessoal. Devo ceder? E se ceder, encontrarei uma explicação? Afinal, há uma explicação?

Caminho, ainda, mais um pouco, pela filosofia descritiva.

Os lábios de Angelina Jolie – antes e depois do silicone – são os únicos lábios aceitáveis para o “note”. Os lábios de Rachel Weisz são sensuais, mas junto com o conjunto de sua postura e rosto. Os de Jolie são por si só o que o “note” quer porque eles são a apologia dos sólidos, do tridimensional na sua vitória contra o bidimensional, do exagero na sua fornalha ao condenar o comedido. Ou seja, os lábios de Jolie fazem o que o note quer, que o exagero se manifeste pelo seu deslocamento: lábios não devem ficar no rosto, devem escapar dele. O segredo do note é a desterritorialização dos sólidos. O que é de um lugar aparece exagerado se pode surgir em outro lugar.

linda e estupenda, mas para hoje, nada além do que o velho bidimensional que não voltará jamais a imperar.É nisso que o design das motocicletas mais cobiçadas se baseiam: a roda da frente pode aparecer como sendo uma peça separada do conjunto? Então, que seja – é assim que ela deverá ganhar o “note”. Um “tipo” é um tipo quando sabe utilizar a desterritorizalização de si mesmo. Esse é o mesmo fenômeno do travesti. Que um pênis enorme apareça no mesmo corpo de quem tem seios enormes não é atrativo para alguns porque estes seriam homossexuais “de armário”. Isso é uma explicação psicológica que tem lá sua verdade. Mas, no caso aqui, prefiro dizer que muitos que não são homossexuais, que não desejariam ter relações com travestis, acham atraente uma figura assim. Atraente no sentido positivo do “note”. A figura quase hermafrodita não recebe o “note” porque seria estranha. Isso é comum hoje em dia, no cinema ou Internet, etc. O “note” vem porque há aí a desterritorialização do volume. O volume aguça, a desterritorialização torna esse aguçamento o ponto certo do exagero. A desterritorialização casa-se com o volume do exagero dos sólidos. A tridimensionalidade impera exatamente na fuga do objeto de seu espaço tradicional.

Como explicar isso? Como fazer uma segunda narrativa, de outra ordem, para contemplar essa narrativa? Há o que dizer?

Talvez tenhamos de investigar mais os mecanismos da natureza histórica da percepção – e da linguagem – para sabermos o que vem ocorrendo conosco. Isso é matéria para outro texto.

© 2008-04-20

Paulo Ghiraldelli Jr. “O Filósofo da Cidade de São Paulo”

www.ghiraldelli.pro.br

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