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Meu pênis quer sua vagina ou meu pau quer sua boceta?

12/05/2008

 

Após os anos 60 fomos desautorizados no uso de expressões como “dormir com” ou “ir para a cama”. Tais expressões vinham de um passado que teria caído sob o simples machismo ou sob a “guerra dos sexos” dos anos 50. Tínhamos de falar em “fazer amor”. Todavia, alguns queriam sexualizar o que era de fato sexual, e então os anos setenta nos ensinaram a falar (ousadamente!) em “transar”. Adeus ao eterno, chulo, bom e simples “meter”.

Vocês se lembram de Carlos Zéfiro?Por isso, encantei-me ao ver que no início do século XXI havia meninas – nunca os meninos – que tinham resistido à avalanche conservadora dos anos noventa e, então, estavam utilizando o “meter”. Poucas meninas fizeram isso, eu sei, mas o que vale às vezes é a qualidade e não a quantidade. O importante é que algumas se mantiveram na terminologia mais explícita, talvez mais fogosa.

Nosso vocabulário sexual diz muito de como podemos ou não enfrentar uma época de liberdade ou de como não conseguimos ultrapassar um período histórico de reação. Os anos noventa foram anos de restos de reação de meados dos anos oitenta. E durante todo esse tempo a ciência, sempre tentando laurear tudo com sua fórmula de neutralidade, insistiu não só na idéia de usar a expressão “ter relações sexuais” – o que não seria uma aberração –, mas na expansão do uso dessa expressão para além dos consultórios – isto sim foi uma aberração.

Essa expressão médica chegou até a entrar nos lares, mesmo no quarto em que só amigas adolescentes dormiam.  Nos Estados Unidos essas mudanças semânticas foram vistas por quem notou a expressão cujo equivalente em português seria “sexualmente ativo”. Passar a ter relações sexuais se tornou uma forma das meninas serem consideradas “sexualmente ativas” – um modo das mães americanas contarem para os pais americanos que suas filhas tinham começado a “ficar”, no jargão brasileiro. Elas tinham começa a “dar” ou meter, no jargão que prefiro. No caso brasileiro, como alguns pais ainda não entendiam o que era “ficar”, preferiram não escutar as mães, ou fingiram que não escutaram.

O problema todo dessas alterações semânticas em relação ao sexo não é somente a questão do “falar polidamente”. O problema é que no âmbito dessa batalha entre vocabulários, podemos sucumbir não ao inimigo visível, e sim ao inimigo mais próximo – nós mesmos. Quando acordamos, estamos utilizando formas pouco condizentes com o que queremos fazer, única e exclusivamente por força de coerções que já não sabemos mais de onde vieram. E eis que começamos a colocar juízos de valor e avaliações morais para além do que seria prudente.

Para fugir do que seria o machismo, aceitamos eufemismos que não dizem nada do que queremos realmente dizer e precisamos dizer. Para escapar do seria ou até pode ser o feminismo, assumimos um jargão que nos coloca fora do contexto. No frigir dos ovos, andamos sem saber onde queremos chegar, ao sabor de restos e penduricalhos de uma luta que já foi política, uma luta entre direita e esquerda, mas que agora, não raro, é uma luta apenas da ditadura da linguagem dos outros contra a nossa linguagem. Cedemos e, então, ficamos sem linguagem. Uma vez sem poder falar, passamos a só ouvir. Eis que nos tornamos passivos, mas dentro da mais frenética atividade.

É preciso que saibamos o que queremos para falarmos o que temos de falar. Isso é um problema grave para os jovens. Mas não tem deixado de ser um problema, também, para os mais velhos. Tenho escutado uma série de pessoas de várias idades dizendo que não acertam em seus relacionamentos amorosos, e quando investigo mais a fundo a questão, percebo que elas simplesmente estiveram se adequando a padrões de conversação que não são condizentes com o jogo erótico esperado pelo parceiro ou parceira. Este, por sua vez, gostaria de ouvir um tipo de vocabulário, mas não sabe como fazer para escutar o que quer escutar na hora certa.

O melhor modo de nos livrarmos de pequenas ditaduras é compreendermos que temos de preservar o espaço das liberdades privadas, e em especial precisamos dar combate político aos que querem quebrar esse espaço em favor de nossa própria proteção. Pois no espaço privado poderemos experimentar os jargões necessários para a nossa busca amorosa e, enfim, para a criação de condições de ter prazer e de ser feliz. CPIs contra espaços privados precisam ter um “basta” nosso, pois isso pode levar a um perigoso macarthismo.

Volto ao verbo meter e Cia.

O verbo “meter” é para muitas mulheres o melhor verbo para descrever o que fazem na cama. Elas querem ouvir isso. Não são tão poucas as mulheres que querem que seus homens digam que elas são antes gostosas e boas de meter do que bonitas e inteligentes. Mas não se diz isso assim, como se imaginava que se podia dizer com putas, no passado. Aqui, toda a experiência é que conta. Mas a experiência com inteligência. E mais uma vez, no caso, conta a favor a diferença de idade entre os parceiros: quanto mais diferença de idade, melhor.

Ou o homem usa esse verbo meter (no caso) e consegue fazer a mulher molhar, ou não vai conseguir ter o segundo encontro que deseja ter. Usar ou não o verbo meter, portanto, precisa ser algo reaprendido. Mas, este não é o caso mais complicado. O complicado é quando há jargões que precisam ser utilizados pelo casal e, no entanto, estão na mira da atenção dos “caçadores de bruxas”. Suponhamos que você esteja com seu parceiro ou parceira em um local íntimo, e que o vocabulário que vão utilizar para a excitação mútua é o que implica em ultrajar ou outro, ora, você deve ter o direito de utilizar esse vocabulário sem ser tomado como um potencial infrator – alguém que seria capaz de estuprar outro. Por sua vez, uma mulher tem o direito de usar um jargão que seria o de uma pervertida, e depois colocar sua roupa e sair dignamente do lugar onde se deixou ultrajar verbalmente ou que pediu para tal. Todavia, se os lugares privados não são seguramente privados, podemos estar correndo sérios riscos.

Todavia, a questão aqui não é só da privatização do que é privado. A questão aqui é da necessidade de não ampliarmos a criminalização do nosso vocabulário para que, se quisermos utilizá-lo privadamente, não tenhamos perdido todas as palavras. Quando uma sociedade começa a colocar como fora da lei o que ela já havia aceitado em seus dicionários como sendo apenas o chulo, porém utilizável, ela começa a enveredar por uma noite de amargura. Esta é a questão central: não podemos deixar de ter o espaço privado nosso por conta de termos feito das palavras algo que não podemos pronunciar nem mesmo quando o privado se mantém privado. Então, o melhor modo de manter o espaço privado como privado, e não borrarmos as palavras. O que é dicionarizável tem de poder ser usado.

O interessante é que esse tipo de censura que conduz à auto-censura, que é o que ocorre quando, a quatro paredes, não conseguimos mais falar “caralho” ou “boceta” quando, no âmbito público, estamos falando “bunda”, “cu” e “porra”, é um prato cheio para as reações extremistas.

O politicamente correto, em favor do feminismo, gerou em vários lugares – e os Estados Unidos e o Brasil estão próximos nisso – uma gritaria de grupos minoritários, mas barulhentos, que querem a simples volta ao direito de utilizar qualquer tipo de expressão. E então eis que nos pegamos batendo palmas para figuras de extrema-direita, exatamente na medida em que tais figuras estão advogando o direito de podermos falar como queremos falar. O inverso também é verdadeiro, mas, no momento, a palavra liberdade acaba caindo bem para a direita política. Ela se faz de boazinha e de libertária ao atacar o politicamente correto. É claro que, pelo lado que não vemos, ela se mantém ditatorial e, no fundo, quer impor também a sua semântica. Mas, em um primeiro momento, ela reclama de não poder usar todo tipo de palavreado. Os mais rebeldes, ouvindo isso, caem nos braços de pequenos Hitlerzinhos de plantão. Ou, até, de stalinzinhos que ainda vivem zanzando por aí.

Isso que digo vale para várias situações, mas, no caso, estou interessado em falar das questões sexuais.

Não posso concordar em não chamar a boceta de boceta se estou com a minha mulher. Aliás, que bom que estamos podendo dizer, novamente, “minha mulher” e não mais “minha companheira”. Agora, quando uso “boceta” para a boceta da minha mulher, a quatro paredes, não posso dar crédito para o reacionário que me instiga a achar que preciso tratar mal minha mulher para que ela tenha prazer. Por isso, quando um conservador diz que o homem é superior à mulher e quer que tenhamos coragem de dizer isso para a mulher, ou voltar a ter coragem de dizer isso, ele está completamente equivocado quanto à nossa capacidade de recuperarmos nossa masculinidade supostamente perdida diante de um movimento politicamente correto que teria elegido o gay como o homem ideal. Dominar a mulher na cama e fazê-la gozar por conta de ter uma boa pegada, com um grau de violência ou não, depende exatamente do oposto, de não acreditar que se é superior. De se acreditar igual. Pois só entre iguais é que o uso da linguagem pode se efetivar por opções. E a mulher que vai gozar por causa de que o homem a pegou como os velhos mocinhos do cinema faziam, e tem sorte de ter essa fantasia como algo a recorrer, só vai gozar por saber que essa foi uma opção de ambos – ela e o homem que está ali com ela optaram por isso. Eis aí a regra básica.

Quando caímos diante da falsa rebeldia de determinados conservadores, e utilizamos os velhos jargões sem entender o que de fato implica utilizá-los agora, em uma nova era, damos um terrível passo para a infelicidade. Por detrás da rebeldia da direita, está de fato a doutrina do vocabulário único.

Assim, nosso movimento inteligente deve ser pela possibilidade de não marcarmos o vocabulário de modo a um dia não termos mais palavras para coisas que precisam ser ditas com as palavras que nos faltam.

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2 Comentários leave one →
  1. 03/06/2008 19:39

    Para mim, quem tem vocabulário restrito – seja lá por qual motivo – tem igualmente a mente, o coração e a alma restritos.

    e de pessoas “restritas” o mundo está cheio.
    prefiro os diferentes.

    🙂

  2. leiloka permalink
    30/07/2008 13:16

    olha…nao sei passar muito bem minhas opinioes para o papel, no caso, sua página, ainda mais com palavras bonitas…entao só vou escrever aqui que gosto de ler o seu blog e que vou adiconá-lo aos meus favoritos.

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