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Rorty e a morte

07/06/2008

Rorty e a morte, por PGJrRichard Rorty morreu com tanta dignidade quanto o patrono da filosofia ocidental, Sócrates. Mas, ao contrário de Sócrates, Rorty nada disse sobre a morte que tivesse importância filosófica. Caso fizesse isso, ao chegar no Limbo – onde Dante costuma colocar filósofos ateus – ele seria repreendido por Nietzsche.  Este, certamente o condenaria por ter falado da morte, pois isso seria um sintoma de decadência. O que Rorty fez com a morte foi diferente, ele simplesmente a desconsiderou de fato. E essa foi sua grandeza como homem, e seu recado filosófico final.

Quando ficou sabendo que estava com um câncer que não podia ser extirpado, Rorty avisou-me que não viria ao Brasil para o lançamento de nosso livro Ensaios pragmatistas. Passamos então a nos corresponder com freqüência mais regular, e ele sempre falando de sua condição de saúde em termos até bastante abertos para um americano – mas sem jamais criar morbidez ou deixar que se instaurasse qualquer mal estar. Passado quase um ano, eu recebi dele uma mensagem que era praticamente uma despedida, agradecendo de modo sereno e amigo o que eu ele achava que eu fiz pelos seus escritos no Brasil, ou seja, as traduções, as divulgações e os comentários.

Rorty gostava da minha posição diferente da dele, pois, de certo modo, eu compartilhava com ele, por vias distintas, algo que ele fazia bem, que era casar a tradição americana com a filosofia do Velho Mundo, em especial o romantismo. Mas, na última mensagem, não falou de nada desse tipo: só o seco, mas afetuoso agradecimento. Uma honra inestimável ter recebido tal e-mail.

Quando Rorty faleceu fiquei sabendo, pela imprensa internacional, que ele também havia mandado uma mensagem para Habermas, avisando da doença. Habermas divulgou tal coisa no texto que fez em homenagem ao amigo. Eu traduzi tal texto para o português, publicado no Portal Brasileiro da Filosofia de modo integral. O que ele disse para Habermas, e que de fato impressionou o amigo alemão, e que havia “pego” o tal câncer – o que havia derrotado Derrida – por ler demais Heidegger. Ou melhor ainda: acrescentou mais humor nisso, ao contar que tal observação veio de sua filha. Uma forma de dizer para Habermas, ao final, que ele, Rorty, deveria fazer como Habermas – não valorizar Heidegger. Mas, uma vez que não fez isso, então, eis que teria vindo a doença!

Passado esse tempo, consigo escrever isso. Quando da morte de Rorty, tentei falar algo, mas não saiu grande coisa. Só agora consigo escrever o que é necessário dizer, de um ponto de vista filosófico, sobre o recado final de Rorty.

A forma como ele lidou com a morte, que foi de fato filosófica, no sentido engajado que o pragmatismo lida com a filosofia, foi uma peça não escrita – mas vivida e ensinada – de Rorty para todos seus amigos. Nenhum desespero. Nenhuma amargura. Nada de culto religioso final ou culto apologético da morte. Muito menos resignação. Nietzschianamente: amor fati. Viver até o último segundo, sabendo que o último segundo seria apenas o fim para sempre da jornada. E eis então que a consciência do mais brilhante filósofo da América das últimas décadas não voltaria nunca mais a funcionar. Nada restaria de Dick. E se no futuro ficasse algo de Rorty, Dick jamais saberia. Dick acabaria na morte. E assim acabou.

Epicuro e Sócrates que, embora com filosofias diferentes, teceram comentários quase próximos de destemor diante da morte, acabaram se curvando à morte com tais comentários. Rorty não. Ele não teceu comentário algum. Não deu um pingo de esperança para a morte. A velha senhora de cara de caveira e ancinho não recebeu de Rorty sequer um dígito. Ficou chupando o dedo. Levou embora um dos únicos filósofos ocidentais que, sendo de cultura ampla, não lhe deu qualquer status. Foi talvez o maior desprezo que a morte já enfrentou.

Nem mesmo Nietzsche, que pelejou contra os cansados, contra os adoradores da morte, conseguiu não falar da morte. E eu mesmo, ao escrever aqui e agora, estou traindo Rorty. Pois, de certa forma, falo da morte. Todavia, falo em um sentido específico: o de como Rorty foi um grande filósofo até o fim, um pragmatista mesmo, ao dar um trança-pés na morte sem ter de mexer um músculo para tal.

Rorty estava certo – corretíssimo. Ninguém que tenha juízo pode levar a sério alguém com cara de caveira e ancinho. Isso é lá coisa que se apresente?

Paulo Ghiraldelli Jr. “o filósofo da cidade de São Paulo”.

 

 

 

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