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Sócrates e o divórcio entre Filosofia e Pedagogia

11/06/2008

Sócrates não educadorO filósofo não é professor – esta é a primeira advertência que Sócrates faz aos que o julgam no Tribunal.  Então, colocando de forma melhor: o filósofo Sócrates não é professor. Outros, os sofistas, são professores.  É uma distinção, não necessariamente um juízo de valor.

A filosofia nasce envolvida com a atividade pedagógica – assim é com alguns pré-socráticos. Assim é com Platão, Aristóteles e outros que os seguiram. Eles fundaram escolas. Sócrates é exatamente aquele que prioriza a ética, que faz filosofia enquanto exclusiva investigação ética e, então, teria tudo para ser considerado professor ou educador, e ele nega que assim seja. Ele insiste que nunca ensinou nada aos jovens que estão com ele. São antes seus amigos, não discípulos.

Sócrates não seria, então, ao menos pedagogo? Afinal, Platão o registrou como quem investigou “se a virtude pode ser ensinada”. Nos termos de hoje, talvez Sócrates aceitasse a qualificação de um filósofo que também investigou essa questão, algo que cairia, nas nossas caixinhas epistemológicas, talvez como “filosofia da educação”.[1] Mas pedagogo, não. Para o grego antigo e para nós, a atividade do pedagogo está ligada à “condução da criança”, e isso Sócrates jamais fez ou pensou fazer, nem mesmo em relação aos jovens.

Quem vê em Sócrates um educador ensinando algo, diretamente, não leva a sério o Sócrates histórico (de Platão) e acaba acreditando que o Sócrates do Menon, aquele que diz que exerce a maiêutica, é alguém que não o próprio Platão colocando como Sócrates um personagem que seria o continuador do Sócrates histórico. O Sócrates histórico trabalha com o elenkhos, o “método da refutação”. E este método não pode ser assimilado à maiêutica. Apontei em outro lugar (Sócrates e o erro de Marilena Chauí) que este é um erro freqüente dos professores, e que aparece no Brasil, inclusive, em bons manuais, como o da Marilena Chauí. Não vou voltar a esse assunto. Aqui, jogo o olhar sobre outro ponto: a distinção entre o professor e o filósofo.

O professor ensina e o filósofo filosofa. Essa diferença é básica. Quando a perdemos de vista, os estragos são grandes.

Uma boa parte dos professores de filosofia da universidade brasileira possui um profundo desdém pela “área da educação” e, talvez por isso mesmo, por não conseguirem discernir bem algo sobre pedagogia, imaginam estar filosofando quando estão ensinando – e ensinando pelo pior método possível. Pecam em pedagogia e terminam se complicando no que seria a filosofia.

Em geral eles acreditam que a “aula de filosofia” corresponde a uma leitura “comentada” do texto ou, então, uma leitura de um paper próprio ou de sua dissertação ou tese. É claro que uma autêntica aula de filosofia não é isso. Quem faz isso, pode parecer “brilhante” para os tolos. Mas isso é a mediocridade da filosofia universitária. Um professor de uma universidade do Rio de Janeiro, uma vez disse que filosofia era “seguir a ordem das razões e explicar o que o filósofo queria dizer”. Isso para ele era “saber filosofia”. Mas para quê alguém deveria “explicar” um filósofo – eles, em geral, se explicam muito bem. Mas os professores de filosofia não param de fazer isso: eles insistem em ler textos, como se estivessem na Era pré-Gutemberg, mesmo vivendo numa era Pós-Pós-Gutemberg!

Há os que apelam para a aula “de seminário”. Neste caso, não corrigem os alunos. Deixam o aluno tentar fazer o que ele, na aula, faz: ler o texto. A leitura do professor já não é boa, a do aluno, então, que não pode ser corrigido, sair pior. A aula se transforma na caricatura daquilo que já era uma caricatura.

A maioria dos professores de filosofia da universidade fica na “história da filosofia” e, não raro, tropeçam nela, uma vez que não sabem se o correto seria ficar em um texto, lendo e relendo, ou se seria melhor reaprender o que não aprenderam no curso de graduação, o que fariam por meio de prepararem as aulas usando um manual (de história da filosofia!).

Assim, é deprimente ver os jovens professores – e até mesmo os velhos – na universidade brasileira dando aula de filosofia. A aula se torna intragável até mesmo para o estudante de filosofia que, em princípio, deveria estar altamente interessado. A desgraça é que um jovem assim logo já está de sapato de camurça com pasta na mão, prontinho para reproduzir essa forma de trabalho nas reuniões da ANPOF, que vão da mediocridade ao extremo da chatice.

Em defesa do “rigor”, esses professores se tornam pouco rigorosos. Pois, uma vez presos a esse tipo de atividade, que não é nem filosofia nem educação, terminam por não ter rigor nenhum. Reproduzem erros e vícios de velhos mestres, se tornam incapazes de pensar pela própria razão (o que Kant tanto solicitou!) e, de certo modo, ficam cegos para os textos. Não os lêem com os olhos, mas com toda carga de pré-leituras.

Por outro lado, há os que pensam escapar disso, indo para a escola de ensino médio, e tentando lá “fazer diferente”. Fazem tão diferente que terminam por não mais tocar na filosofia. Adotam o “método Renato Janine Ribeiro” – o de fugir da filosofia como o diabo foge da cruz e, ao mesmo tempo, dizer que está filosofando. O que o Janine em geral faz em palestras e o que ele fez no programa da Rede Globo sobre ética é bem isso: fala que está falando de filosofia, mas a filosofia, de fato, nunca aparece (fiz a crítica disso em vídeo e texto no Portal Brasileiro da Filosofia).  Há um vídeo engraçado dele no Youtube, em uma aula sobre “Diálogos de Sócrates”  ,em que Janine não consegue dizer nada de Sócrates e menos ainda de algo filosófico sobre o diálogo. E mais hilariante ainda: a aula é tudo, menos afeita ao diálogo! É uma aula onde ele disserta sobre o diálogo!

Esse tipo de escapismo é muito utilizado no Ensino Médio. Temeroso de que o aluno “não entenda o texto filosófico” (essa é a desculpa de sempre – esfarrapada), o professor vai além da fala vazia e inventa “atividades”. Tudo vira filosofia, pois o que é necessário fazer é “desenvolver a postura crítica do aluno”. Ele, o aluno, precisa ser “cidadão crítico”. Então, a aula de filosofia se torna um emaranhado de entrevistas, recortes de textos e figuras, murais, teatrinhos e, no final, velhas provas de sempre. Avaliação? Ah! Aí depende: o professor “bonzinho” dá nota por “participação”. O “durão” dá testes de história da filosofia. Sobram alguns que pedem uma “análise crítica” de artigos de jornal. Mas dificilmente corrigem a escrita dos alunos – eles próprios escrevem mal!

De tudo que disse acima, a respeito da “formação didática e pedagógica” do professor de filosofia, da universidade e do ensino médio, fica claro que quem faz o que disse aqui não entende muito de filosofia. De pedagogia, então, nem quero julgar.

Voltemos a Sócrates. Qual a razão dele afirmar que não ensinava? Bem, à primeira vista pode ser uma razão simples, a de escapar da acusação de Meleto, que o acusava de corrupção da juventude. Então, ele foi claro: não sou Górgias, o sofista, que ensina retórica por dinheiro. E ele nega que ensine por qualquer outro motivo. Ele não ensina. Ele não educa. Aliás, se educasse, teria educado os possíveis discípulos para o quê, afinal? Ele estava ali, sendo julgado, com a vida em perigo! Quem tivesse sido educado por ele só deveria amaldiçoá-lo, pois teria aprendido nada além do infortúnio de uma vida terminada nos tribunais.

É só? Essa é a lição de Sócrates a respeito da distância dele, filósofo, para com o professor?

Há mais que isso. Pois no momento mesmo que Sócrates diz isso, ele já inicia sua atividade característica, que muitos poderiam querer ver como uma atividade própria dele – erradamente – como atividade de ensino: o exercício do elenkhos. Sua primeira defesa contra as acusações de Meleto é bem semelhante ao que os scholars helenistas chamam de o elenkhos. A estrutura é a seguinte: a primeira acusação contra Sócrates é de que ele não acredita em deuses, e a terceira é a de que ele introduz em Atenas novos deuses; ora, Sócrates faz Meleto, afirmar ambas e, então, mostra que elas, juntas, são insustentáveis. O conjunto das acusações, portanto, carece de coerência, ou seja, de sustentabilidade.

Em um estilo que Donald Davidson aplaudiria – e que de fato aplaudiu –, Sócrates usa da noção de coerência para estabelecer a verdade. Esta é a idéia básica do elenkhos, ainda que isso tenha uma variação segundo as circunstâncias do diálogo, em cada participação de Sócrates no seu filosofar, na sua inquirição aos cidadãos atenienses.

Essa atividade não é a de ensino. Não é educação. Ela é uma atividade autêntica do filosofar, o inquérito a respeito da verdade. Ela é uma atividade quase que exclusivamente filosófica. O que se aprenderia dela? É difícil ver algo possível de ser tomado como educativo nessa atividade. Inclusive, Sócrates diz que alguns jovens tentam imitá-lo, fazendo perguntas do modo como ele faz. Mas ele não diz que esses jovens aprendem com ele ou aprendem de algum modo a fazer o que ele faz. Esses jovens apenas o imitam. Não chama esses jovens de discípulos ou alunos e nem mesmo confere a eles a qualidade daqueles que poderiam ser aprendizes de filósofos ou de qualquer outra coisa. Nem os que a historiografia tomou como discípulos de Sócrates, e que estão presentes no julgamento, são chamados por Sócrates como seguidores. Ele não os autoriza como filósofos ou aprendizes. Ele os chama de amigos. Muito melhor, não?

O elenkhos – que é o único método de Sócrates –  não é uma pedagogia ou uma didática uma atividade educativa. O elenkhos é um procedimento de diálogo, literalmente: refutação. A coerência da nossa lógica natural é utilizada ali de modo que o interlocutor que afirma p e q deverá perceber que ele não pode afirmar p e q, e ao abandonar ou p ou q, para ficar apenas com uma afirmação, terá o conjunto do que queria dizer como insustentável. Quem não for estúpido e acompanhar o diálogo, junto com Sócrates, seguindo o procedimento, deverá chegar ao mesmo resultado.

Sócrates fugiu de ser considerado professor porque de fato ele não era, e não apenas como subterfúgio para escapar da acusação de corrupção da juventude. Ao fazer isso, deixou a educação de lado, e esse tema, então, ao menos no início da filosofia, ficou estritamente como um tema platônico. Platão foi o primeiro construtor de uma pedagogia filosófica ou de uma filosofia que dependia da pedagogia. Mas essa é outra história.

Paulo Ghiraldelli Jr “O Filósofo da Cidade de São Paulo”.

 


[1] Mas uma filosofia da educação com uma grande carga negativa, uma vez que Sócrates não deu uma resposta sobre o que é a virtude e, portanto, se a qualificou como algo que não podia ser ensinado, o fez de maneira bastante dúbia, já que não conseguiu dizer o que era, de fato, o que se deveria ensinar, no caso.

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