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Kant, o taiuer e a metafísica

16/06/2008

Kant e modelitosDe Platão até o Renascimento a filosofia é literatura. Quem discorda disso, ainda assim, tem que admitir que a frase não é absurda. Ela pode se tornar mais branda, palatável para os mais rebeldes em relação a essa minha idéia – deste modo: de Platão até o Renascimento a diferença entre filosofia e literatura não é tão grande quanto o que tal diferença se revela quando do aparecimento de Kant.  Melhorou?

Podemos pensar em determinados autores modernos como pessoas que tomaram distância da tradição da narrativa de Platão, Epicuro, Agostinho, Boécio, Montaigne, Pascal e similares. Ou seja, Locke e Descartes, por exemplo, não gostariam de ver seus leitores deitados em rede. Enquanto que os outros citados não se incomodariam com isso, Locke e Descartes desejariam ver seus leitores em escrivaninhas. Todavia, a filosofia se tornou algo realmente sério – para só ser lida na escrivaninha – na proporção em que se fez disciplina com aspectos técnicos; e é isso que devemos a Kant – para o bem e para o mal. E essa tarefa foi desempenhada de um modo bem específico.

Qual modo?

Kant foi o primeiro filósofo que elaborou uma definição técnica de metafísica. E o que chamou de filosofia, como não poderia deixar de ser, foi vinculado à sua definição de metafísica. A partir daí a filosofia nunca mais foi a mesma senhorita cantarolante. Ela trocou os vestidos e calças jeans pelo taieur. Colocou óculos. Prendeu os cabelos.

Não sei se a filosofia ficou mais chata por causa disso. Não quero tirar essa conclusão. Mas uma coisa é certa: nem mesmo Nietzsche conseguiu convencê-la de que poderia voltar a dançar. Ele próprio, Nietzsche, se prestou a serviço de scholars loucos por escrivaninhas.

Kant redescreveu a filosofia e a colocou sob outro estilo por meio de poucas palavras. Na verdade, em português, não mais que dez palavras: “a metafísica tem a ver com proposições sintéticas a priori” – é o que está nos Prolegômenos à toda metafísica futura. Dez palavras mágicas. Kant as pronunciou e … pimba! Lá estava a filosofia toda fotografada na moda – na nova moda. Taiuer, óculo e cabelo preso. Linda? Sim, estava maquiada, linda, mas havia algo de sério demais nela.

Eis aí a inauguração da nova moda: a metafísica não era mais simplesmente uma espécie de “ciência além da física”; tornou-se um campo cuja existência passou a depender da possibilidade de proposições sintéticas a priori. Já não poderíamos mais ler filosofia sem franzir as sobrancelhas.

De fato, a partir de Kant, tivemos de saber o que eram tais juízos apontados por ele, e só então pudemos falar a respeito de metafísica. Eis, então, que a leitura da filosofia caiu na dependência de uma eterna recorrência a detalhes internos do “sistema filosófico” em questão; no caso, o sistema de Kant. Tornou-se necessário ver como ele havia explicado tal proposição. A “proposição sintética a priori” se tornou uma expressão técnica. Sem ela, não entenderíamos mais o que poderia ser a metafísica. Antigos, medievais, renascentistas e mesmo vários modernos jamais imaginaram que isso poderia ocorrer um dia.

Mas o que são esses juízos sintéticos a priori?

O juízo analítico é aquele que, uma vez expresso em um enunciado, deixa claro que o predicado da sentença enunciada nada acrescenta ao sujeito que já não esteja pensado neste último. O juízo sintético é aquele que, uma vez posto numa sentença, mostra que o predicado acrescenta algo ao sujeito que não pertence necessariamente ao sujeito. “Todos os corpos são extensos” é um juízo analítico, pois o sujeito “os corpos” já traz em si mesmo a noção de extensão, que é seu predicado. “Alguns corpos são pesados” é um juízo sintético, pois com o predicado “pesados” atribuído ao sujeito “corpos” há um acréscimo para este. Não necessariamente os corpos devem pesar, e se há alguns que pesam, fico sabendo de algo que não estava dado na própria noção de corpo.

Todas as proposições analíticas são juízos a priori. Não preciso da experiência para lhes dar valor de verdade, isto é, atribuir a eles a condição de “verdadeiro” (ou “falso”). Por isso mesmo, a contraprova delas é o princípio de contradição. Eles devem obedecer a isso. Se assim é, posso lhes dar valor de verdade “verdadeiro”. No entanto, os juízos sintéticos são a posteriori. Eles dependem da experiência. Colhemos informações a respeito de algo e, depois, acrescentamos a esse algo, na expressão, um predicado que diz respeito a tais informações.

Todavia, Kant foi quem afirmou que havia juízos sintéticos que seriam dados única e exclusivamente pela razão. Responsabilizou-se pela afirmação de que deveríamos prestar a atenção na existência de juízos sintéticos a priori. A matemática seria o campo de tais juízos. E a metafísica também deveria contê-los. Ela, a metafísica, deveria abster-se de ter em seu arcabouço juízos empíricos, é claro, mas só seria uma ciência se abarcasse juízos sintéticos. Os juízos sintéticos garantiriam à metafísica falar de um sujeito de um enunciado acrescentando-lhe algo – eis aí o que poderíamos chamar de um dado, de uma informação em favor do conhecimento. Todavia, se a metafísica não fosse capaz de acolher juízos sintéticos a priori, ela não poderia (de modo puro, ou seja, sem a experiência, que deve ser sua característica) cumprir o papel de fazer avançar o saber, isto é, dizer algo novo a respeito do sujeito de uma proposição ao lhe dar um predicado.

A operação de Kant, criando essa exigência para a metafísica, antes de qualquer coisa, tornou-se uma maneira de definir a própria metafísica; e, assim, também a filosofia. Metafísica e filosofia foram atreladas às condições e caracterizações de juízos. Ou melhor: um tipo específico e especial de juízo deveria ser observado ao se falar sobre metafísica. Não precisamos dizer mais nada – basta isso para vermos que a filosofia, então, tomou um rumo bem determinado. Caiu na dependência de definições específicas e muito bem circunscritas e caracterizadas. Não há dúvida que essas definições, tanto no tempo de Kant como agora (se seguimos o figuro que Kant industrializou), devem ser vistas como elementos técnicos de um arcabouço retórico. A metafísica e filosofia ganharam um novo caminho – uma retórica diferente forneceu a ambos esse novo caminho. O caminho da circunspecção.

 

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