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Sócrates, mortal; Platão, divino

18/06/2008

I
Xantipa foi esposa de Sócrates. Seu mau temperamento passou para a história. Episódios envolvendo reprimendas a Sócrates proliferaram na literatura tanto quanto a própria fama de seu marido. E as respostas de Sócrates também.
Diógenes Laertius (III século a.C.) conta que após a condenação de Sócrates, Xantipa foi até o marido e exclamou: “você foi condenado injustamente”. E Sócrates rebateu sem dar um segundo de trégua: “e você queria que eu fosse condenado justamente”?
Não há dúvida que Sócrates foi um filósofo espirituoso. E ele não usou dessa habilidade com a ironia apenas para respostas rápidas. Os que escreveram sobre ele não deixaram de enfatizar sua habilidade com as palavras. Mas não era uma habilidade com a retórica, era uma capacidade de discutir segundo um tirocínio especial. Foi o que Platão escreveu no Eutífron, sobre a idéia de que Sócrates movia as palavras como Daedalus movia suas estátuas. De fato, nesse diálogo, Sócrates confirma que ele realmente fazia isso, mas não de modo intencional.
Aliás, sua disposição para a filosofia oral, e não a escrita, teria vindo exatamente dessa necessidade de manter o discurso em funcionamento, com todos os enunciados em movimento. Lembrando a passagem do Eutífron, o filósofo norte-americano Donald Davidson a comenta para dizer que a preferência de Sócrates pela conversa oral, na recusa da escrita, tinha a ver com a idéia de colocar a palavra vinda do interlocutor em (novo) movimento, antes que ela pudesse ser fixada. Em diálogo – diz Davidson – as pessoas usam as mesmas palavras, mas elas não querem dizer a mesma coisa, e a cada passo do diálogo surgem novas aberturas para novas construções, e o que segue disso só é conhecido no desdobramento da conversação.
Platão se deu conta dessa habilidade de Sócrates. Era como que um dom natural. No Fedro, Sócrates diz claramente que o livro, uma vez questionado, sempre dá a mesma resposta. Diferentemente, o diálogo oral, vivo, pode fornecer o que Sócrates quer: o movimento das palavras. As palavras são as mesmas, mas elas querem dizer outra coisa a cada momento, no decurso do diálogo. Ora, na confecção do livro, se o autor muda o que as palavras querem dizer, não é difícil ele terminar por não ser entendido ou simplesmente escrever um péssimo e confuso livro. No diálogo, como Sócrates o exerce, a mudança é justamente o que há de melhor, pois as construções de significação se ampliam rapidamente e de modo infinito.
Platão prestou sua melhor homenagem a Sócrates não ao fazê-lo o herói da maioria de seus escritos, mas ao escrever o texto A defesa de Sócrates, aquele em que conta – ao seu modo, é claro – como que Sócrates se portou diante do Tribunal que, afinal, o condenou à morte. Neste texto, Platão mostra Sócrates como o fundador de todo o procedimento filosófico, do tempo dele até os nossos tempos. Sócrates aparece como o homem que usa de duplo procedimento. No estilo do que hoje chamamos de filosofia analítica, Sócrates trabalha com a argumentação lógica; e no estilo do que hoje predomina na filosofia continental, Sócrates desenvolve um trabalho genealógico.
Não à toa o filósofo britânico Alfred North Whitehead disse que toda filosofia nada mais era que notas de pé de página na obra de Platão. Quando lemos A defesa de Sócrates temos a certeza que estamos diante não de um gênio somente, mas de alguém que se entendia como tendo real origem divina. A filósofa norte-americana e helenista Julia Annas é quem, em nossos dias, retoma as tradições de biografias de Platão para lembrar que, em uma delas, ele foi considerado divino. Por isso, talvez, Platão conseguiu em um só texto estabelecer o duplo corredor da filosofia, como ele se abre hoje, no campo da filosofia analítica e no campo da filosofa continental. Uma elaboração desse tipo não poderia ser o trabalho só de um gênio, deve ter sido o trabalho de um deus. Voltarei à condição divina de Platão mais adiante, passo agora ao texto A defesa de Sócrates , para mostrar a dupla abordagem socrática.
II
No Tribunal, Sócrates avisa que não irá agir como quem fala em tribunais. Este aviso é mais profundo do que pode parecer à primeira vista. Platão o coloca ali no texto, logo de início, para que se entenda corretamente que a peça deve ser lida não como quem é advogado e quer ver Sócrates se safar da possível acusação. O texto é para ser lido como quem está em consonância com a filosofia, pois Sócrates vai só dizer a verdade – ele, Sócrates, enfatiza isso.
E que o leitor fique ciente: dizer a verdade, no caso, é dizer a verdade filosoficamente. O que ocorre se dá no Tribunal, mas o que Sócrates faz ali não é uma defesa em estilo jurídico, de quem quer persuadir para se safar, é uma peça filosófica. Ela não deixa de ter interesse persuasivo, mas é, antes de tudo, uma brilhante configuração do que a filosofia pode fazer por meio de dois grandes ramos da linguagem humana, o ramo da lógica e o ramo da história. É muito provável que Platão, como divino, tenha montado o escrito de uma maneira infalível, para que tudo que viesse depois ficasse preso ao fio condutor ali traçado.
Assim, a divisão que faço no texto de Platão não é a tradicional. Eu não o leio como um historiador ou um professor leria, eu o leio na minha condição de filósofo. Leio o texto segundo a divisão filosófica que ele, Platão, estabelece, e que atribui ao próprio Sócrates. Em um primeiro momento, Sócrates usa de seu método característico – o elenkhos – para mostrar a inconsistência da peça acusatória de Meletos. Nisso, age de um modo não estranho ao que o filósofo analítico faz hoje em dia. Em um segundo momento, Sócrates utiliza a genealogia de si mesmo, para expor a todos como que ele se tornou o que é – o filósofo apelidado como “a mosca de Atenas”; ou seja, o incômodo de Atenas, seu missionário e alertador. Nisso, age como segundo um procedimento que distinguiria o filósofo continental de nossos dias. Separo e analiso os dois momentos.
Primeiro momento.
Sócrates enumera as acusações que Meletos e seu grupo fazem: 1) o acusado não acredita nos deuses; 2) o acusado corrompe a juventude; 3) o acusado introduz novos deuses. A segunda acusação ele rebate dizendo que não pode corromper ninguém, pois não é educador, não é professor, não ensina coisa alguma. Então, feito isso, ele mostra o que realmente faz como filosofia.
Ele começa a inquirição e o diálogo com Meletos. Faz este confirmar 1 e 3, ou seja, que Meletos o acusa de ateísmo por meio de 1 e de teísmo por meio de 3. Meletos segue a discussão sem perceber que 1 e 3 são incompatíveis no mesmo conjunto. Então Sócrates mostra que a peça acusatória sofre de um problema de inconsistência. Se ele, Sócrates, não acredita em deuses, em nenhum deus, como poderia ser ele acusado, na mesma peça, de querer pregar o culto a novos deuses? Meletos não sabe sair da situação. O procedimento usado por Sócrates é bem parecido com o do “elenkhos padrão”, formalizado e estudado pelo helenista Gregory Vlastos.
Pode ser que, para o Tribunal, a argumentação não tenha sido válida. Talvez a maioria esperasse antes uma defesa mais apaixonada do que uma argumentação lógica. Mas Sócrates e, talvez mais ainda Platão, quiseram mostrar ali a essência do filosofar socrático: o método da refutação. É claro que depois, em outras obras, Platão colocou Sócrates – já não mais o Sócrates histórico – como desenvolvendo outro tipo de argumentação, a maiêutica, por exemplo, apresentada no Menon. Mas este procedimento de “parir idéias” nada tinha a ver com Sócrates, era pura invenção platônica para o já então personagem Sócrates. O Sócrates histórico de Platão trabalhou única e exclusivamente de modo negativo, refutando, sem nunca responder positivamente suas próprias perguntas. Tudo indica que Platão quis deixar isso claro ao escrever A defesa de Sócrates. Diferentemente da maioria de seus outros escritos, este não se fez em forma de diálogo, tinha a pretensão de se colocar como um texto histórico, no qual autêntico procedimento filosófico de Sócrates ficasse evidente e marcado para sempre.
Segundo momento.
Mas Platão não parou nisso, na caracterização do elenkhos. Sócrates inicia então outro procedimento, inédito e único. Ele traça a genealogia de si mesmo. Conta a história de como Querofonte foi até o Oráculo de Delfos e de lá trouxe a célebre afirmação da pitonisa, de que Sócrates era o mais sábio dos atenienses. A partir daí, Sócrates, sabendo-se não sábio, passa a investigar todos os outros que se colocam como sábios. Para tal, usa do elenkhos, o método da refutação, mostrado minutos antes contra Meletos. Sócrates segue a narrativa e diz que ele percebeu que os atenienses sabiam várias coisas, mas não sabiam dar respostas ao tipo de pergunta que ele, Sócrates, colocava. O que é a justiça? O que é a virtude? O que é a coragem? Perguntas do tipo “O que é F?” não eram respondidas com o que, hoje, concluímos que poderia ser o que Sócrates desejava: definições as mais amplas possíveis – praticamente, os conceitos universais. Sócrates, é claro, também não conseguia dar essas definições, mas ao menos sabia que não sabia, enquanto que os atenienses não percebiam que não sabiam, mesmo depois de refutados. Assim, Sócrates concluiu que, por esse aspecto, ele de fato era o mais sábio, e o “deus no Templo” não havia mentido.
Fim da história? Claro que não. A genealogia implica em mais que isso. Implica na conclusão, de modo que se possa entender como que Sócrates tomou ser o seu serviço um tipo de filosofar. Ele conta então que percebeu que a forma como quis contestar o dito da pitonisa, para poder abrir caminho para um entendimento do que o Oráculo disse, o levou a questionar vários homens de Atenas, e que isso poderia ter sido, de fato, a efetiva intenção do “deus do Templo”. Ou seja, fazer dele, Sócrates, um instrumento para lembrar aos Atenienses que eles não sabiam tanto, que deveriam não se deixar dominar pela hybris, ou seja, pelo orgulho. – esta é a missão que o “deus no Templo” lhe fornece, e é assim que ele conclui a genealogia. A moral da história? Bem, a de que os atenienses deveriam perceber que não conseguiam atingir o saber supremo, que seria só pertencente aos deuses. E que ele, Sócrates, examinando vidas, teria sido um instrumento do deus para esse aviso aos atenienses, sempre desejosos de se esquecerem da condição de mortais, portando-se como deuses.
Este saber próprio às divindades, pelo que entendemos a partir de outros escritos de Platão, não seria senão a resposta para perguntas “O que é F?” em um sentido de alcançar os conceitos. Assim, a chegada no universal seria a finalidade – jamais alcançada – do elenkhos. O papel de Sócrates ao perseguir a idéia de que “uma vida não examinada não valeria ser vivida” – como ele afirma na Defesa, nada seria senão uma atividade filosófica que viria por determinação do “deus no Templo”. Assim, teria mesmo de ficar sem resposta. Atingir os universais e, enfim, a verdade, seria algo para os próprios deuses. Sócrates deveria cumprir seu destino. Um homem sábio, porém, mortal. O mais sábio dos atenienses ainda assim não teria a sabedoria própria dos deuses.
Terminada essas duas partes, Sócrates está pronto para falar de outras questões. Mas, em termos de expor o procedimento, a razão e a história de sua filosofia, nada mais há para dizer. Daí para diante, a filosofia está com sua história futura inteira traçada.
III
Sócrates faz a filosofia descer do céu à terra, escreveu Cícero. De fato! Mas Sócrates não ousou desobedecer aos deuses. Ele se conformou em seguir o que o “deus no Templo” queria dele. Filosofar e ficar no terreno humano – só isso. Saber aquilo que seria, na nossa linguagem atual, os conceitos – os conceitos únicos e absolutos – não deveria ser algo possível aos mortais. Era uma situação paradoxal para Sócrates, ele sabia bem disso. Ele apostava que para agir bem era necessário saber as virtudes. Sabedora é virtude e vice-versa – ele acreditou nisso. Todavia, ao mesmo tempo, chegar a ser virtuoso e, portanto, sábio, seria possível ao mortal? Mesmo de posse da filosofia, seria possível? Na Defesa de Sócrates, o herói de Platão mostra que ele não vai ultrapassar sua condição, a de mortal. Não encontra respostas. Não pode encontrá-las. Não vai desobedecer o que acredita ser a determinação dos deuses, o aviso do Oráculo de Delfos, o que os mortais não devem desejar ser deuses. Afinal, não é este um recado essencial que toda e qualquer religião passa aos mortais?
Não é este, afinal, um dos preceitos inscritos no Templo de Apolo, o “conhece-te a ti mesmo”? Saber dos limites para, enfim, saber como tirar melhor proveito da vida, sem passos largos demais, é uma prudência que pode ser revestida de roupagem religiosa, mas que é, enfim, um bom conselho para qualquer um, religioso ou não. A filosofia, de certo modo, sempre rondou essa noção, o da compreensão da finitude, o da observação do que se pode alcançar o do que não se pode desejar.
Platão, diferentemente, tenta forjar um caminho para encontrar as respostas. Platão pode ter se achado divino, como de fato falavam dele, e então ousou apostar na filosofia como o que permitiria que, entre nós, alguns viessem a re-conhecer os universais. Foi então que abandonou o seu Sócrates histórico, criando o seu personagem Sócrates já como aquele que não utilizava mais somente o elenkhos. O Sócrates já tornado personagem de Platão passou a usar vários outros procedimentos, até ir desaparecendo nos escritos platônicos, tornando-se um filósofo jovem, inexperiente. Ou então, tornando-se um filósofo completamente platonizado, voltado para o destino que deveria ser o de “dar de cara” com as Formas.
A Teoria das Formas pressupõe algumas adoções e crenças que não poderiam jamais serem assumidas por Sócrates. Ela pressupõe que aquele que a formulou não obedeça mais a condição de mortal, que queira ver o mundo do saber que só dos deuses possuem, ou seja, o mundo dos universais. Platão não deve ter se sentido profanador ao se mostrar digno disso, e nem mesmo deve ter se sentido errado ao tentar mostrar que até o homem comum poderia chegar a tal reino – como no caso do escravo ignorante, no Menon, que sob perguntas de Sócrates deduz um teorema matemático. Não teve qualquer má consciência, uma vez que pode mesmo ter acreditado que sua ancestralidade divina, dita por outros, tinha algo de verdadeiro.

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One Comment leave one →
  1. 09/05/2012 17:52

    Olá, você sabe de quem é o quadro de Sócrates e Xantipa neste post?

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