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Platão e o Rei-Filósofo

21/06/2008

CisnePlatão nada tinha contra as mulheres, mas gostava de homens. Dentre estes, preferia os que fossem jovens o suficiente para que ainda tivessem o corpo sem pelos e sem cheiros fortes, mantendo assim uma aparência feminina. É o que ele disse no Fedro, um pouco distinto do que disse em outro lugares, onde poderia ter estado mais próximo do que ficou conhecido, entre nós, como “amor platônico”.

Platão era corpulento, mas de voz fina, que contrastava com seu físico, e talvez mais ainda como sua reconhecida capacidade de eloqüência. Conta Diógenes Laertius que Sócrates sonhou com um cisne que veio perto de seus joelhos e logo abriu as asas e voou bem alto – no dia seguinte, ele conheceu Platão. Sócrates, não raro, interpretava seus próprios sonhos como mensagens divinas. E dado que Platão era da linhagem de Solon, legislador e um dos Sete Sábios da Grécia que, por sua vez, havia traçado sua descendência a partir do deus Netuno, então não deve ter sido difícil para que todos ali ao redor de Platão o tomassem como divino.

Essa sua condição deve ter pesado na sua ousadia: escapar do que qualificou como crença e opinião, que não eram propriamente conhecimento, e alçar vôo, como o cisne de Sócrates, em direção ao mundo das Formas. Contemplando-as, teria o conhecimento.

Mas, para quê o conhecimento?

Ao contrário do que alguns poderiam imaginar a respeito de um típico filósofo grego, Platão não desprezava essa pergunta, a do “para quê?”. Ele não era daqueles que insistiriam – para passarem por idiossincráticos – que a filosofia não tem utilidade. Ele tinha um objetivo definido sobre utilidades da filosofia. Todavia, ele não achava que tudo que nós falamos que é conhecimento poderia ganhar esse nome. Costumeiramente, chamamos de “saber” uma série de afirmações de vários níveis. A filosofia ou, principalmente Platão, não faz isso. Uma sensação ou percepção ou mesmo uma crença (“eu acredito que X”) não podem, rigorosamente falando, dar lugar a uma frase “eu sei que ____”. Para Platão, o conhecimento é a crença verdadeira e justificada. Uma crença falsa não é conhecimento. Uma crença verdadeira, mas sem uma justificação, também não é conhecimento. Platão elevou o conhecimento a algo distinto de crenças e opiniões, e isso porque atribuiu ao conhecimento uma função especial e importantíssima no mundo grego: o saber de governo, o conjunto de disposições para o exercício da política, que nada deve ser senão a propiciadora do bem viver da polis.

Ter conhecimento ou ser sábio tem uma grande utilidade, que é não só a de permitir a alguém ser filósofo, mas a de propiciar a alguém ser governante. Ou melhor: governante e filósofo. Ou melhor ainda: governante-filósofo. Governante de qualquer lugar? Não, só da cidade justa, como garantia de que ela possa permanecer justa. Essa foi a idéia de Platão a respeito de sua articulação entre filosofia e política, a de que a cidade justa ideal teria de ser governada pelo rei-filósofo. Eis aí uma idéia difícil de aceitar. Platão tinha consciência disso!

Em A República, Platão colocou seu irmão Glauco conversando com Sócrates a respeito desse assunto, o de aceitação, por parte de homens cultos de uma cidade – mas não filósofos –, que o filósofo fosse aquele com real legitimidade para o governo. Em hipótese alguma tais homens concordariam. No entanto, se a tal idéia era inaceitável, qual a razão de Platão de tê-la tomada como legítima, como a melhor solução para a sua cidade justa?

A resposta para tal é simples: os filósofos são os que são educados, no plano pedagógico que A República mostra ser necessário aos governantes, no estudo da filosofia no sentido do encontro com as Formas. Os anciãos, todos eles versados em filosofia, não divergiriam daquele que, entre eles, foi o escolhido como governante. Eles estariam todos, em determinado momento, diante das Formas e diante da Forma das Formas, o Bem, e assim, estando na contemplação do Real, poderiam facilmente saber o que fazer com os casos particulares correspondentes a cada Forma. Levariam adiante julgamentos justos, uma vez que teriam acesso à Justiça – ao que é a Justiça. E assim fariam com todos os casos particulares; para cada caso, recorreriam ao conhecimento, ou seja, a visão das Formas.

No plano puramente político, isso deixaria a elite unida. Os sábios não divergiriam, uma vez que todos e cada um saberiam o que é o Real. Então, não se criariam partidos e não haveria disputa capaz de arrastar o resto da população para guerras. A harmonia da divisão do trabalho na forma tripartite prevaleceria, e a cidade, uma vez harmônica, seria justa.

Ora, mas será que Platão realmente acreditava que as divergências entre as elites, em especial entre os membros do conselho dos anciãos, dos sábios, seria algo eliminável; eles, os sábios, chegariam a um fácil acordo? Isso seria realmente plausível? Em outras palavras: como garantir que o filósofo viesse a ser capaz de reconhecer as Formas e, então, ser de fato filósofo e, por conseguinte, o melhor rei?

O helenista norte americano David Sedley tem uma resposta. Ele acredita que não é atingindo o Bem, a Forma das Formas, para então ter a noção de excelência e reconhecer cada Forma, que se daria o processo pelo qual o filósofo seria filósofo e, assim, estaria de acordo com outros filósofos, uma vez que todos apreenderiam o Real. Ele defende a idéia de que, se nós prestarmos atenção no plano pedagógico que Platão elabora para os estudos dos que irão ser filósofos e possíveis governantes, implica em anos de trabalho em matemática e dialética. Esse tempo todo seria para que cada um viesse a lidar com as Formas, e discernir quanto de bem se apresenta no que julgam ser uma Forma, de modo a ter de fato conhecimento. Ter a compreensão do Bem é devido ao fato de ter a compreensão – por meio de um alto nível de educação – de cada Forma. A definição de Justiça que expõe a Justiça em si – a Forma Justiça – certamente incorporará o bem. O mesmo vale para todas as outras definições.[1] Afinal, seria pouco inteligente, nesse tipo de raciocínio, admitir que a Justiça em si ou qualquer outro “em si” não desse, junto com ele, a sua excelência.

O filósofo chega a tal capacidade por educação. Ele só começará a iniciar-se na dialética, no raciocínio completamente desfeito de ligações com o sensível ou o empírico após os trinta anos de idade. Antes, ele terá um longo treinamento na matemática. Qual a razão disso? É que as Formas possuem, como ante sala, os objetos matemáticos. As Formas são completamente não sensíveis. A matemática educa para um tipo de, digamos assim, objetividade, que é o que Platão cobra do Real, das Formas. A matemática ainda tem um pé no empírico, no sensível, uma vez que, sendo geometria, às vezes chama quem a pratica para a observação de elementos que inicialmente são aprendidos em ligação com o sensível. Mas o treinamento matemático é um bom exercício para o desligamento paulatino do mundo sensível. Então, nesse treinamento, em determinado momento, eis que se está pensando somente a partir de princípios puros – nesse caso, quem assim fizer, estará de posse do que Platão pode chamar de conhecimento.

A dialética é um exercício de “dar e fornecer razões” e explicações. Mas esse jogo seria apenas um bate papo se exercido por homens sem formação adequada. Todavia, exercido por homens que tiveram treinamento matemático, esse jogo se eleva ao “dar e fornecer razões” em um nível abstrato, sem qualquer contato com elementos que nos trariam de volta ao campo opinativo, e não ao campo do saber.

O que Platão propõe é, assim, aquilo que o professor de Nova York Nickolas Pappas insiste em seu livro sobre A República: o filósofo como um homem utópico, aquele que reúne o saber teórico de um scholar com o discernimento ético de um sábio.[2] Ele estuda em direção a um campo abstrato, mas o seu saber é um saber para voltar ao mundo, ao cotidiano da cidade, para lidar com as questões mundanas e comezinhas da administração da polis. O rei-filósofo deverá fazer política.

Quando nós estudamos o que é justo na lei ou o que é a beleza em um homem, isso é possível pelo fato de que os exemplares – a lei X e o homem Y – compartilham, naquilo que possuem de excelência, da Justiça e da Beleza. Ou seja, cada elemento individual que tomamos como objeto, deve nos remeter à Forma, pois ele “compartilha” dela com outros objetos do mesmo tipo (leis, homens), e nosso conhecimento, ou seja, nossa capacidade de reconhecer as Formas é que permite distinguir bem a distância deste objeto estudado em relação à realidade dele, as Formas correspondentes, a justiça em si (a Justiça) e a beleza em si (a Beleza). Quando somos experts nisso, podemos estar perto da condição de reis-filósofos, na conta de Platão. Caso alguém sonhe conosco, nos vendo como cisnes brancos voando alto, podemos nos convencer que somos deuses. 


[1] Sedley, D. Philosophy, the Forms and the Art of Ruling.

[2] Pappas, N. Plato and the Republic. Londres e Nova York: Routledge, 1995.

Paulo Ghiraldelli Jr, “O filósofo da cidade de São Paulo”

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