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Epicuro, o autêntico médico

25/06/2008

Na sua bela História da Filosofia, ao tratar de Epicuro, Bertrand Russell traça um quadro paradoxal do filósofo. Ele teria sido afetuoso com amigos e, enfim, com todas da comunidade que participava do Jardim, o local de seus ensinamentos, mas teria sido dogmático e despótico como filósofo. Além disso, Russell, citando Diógenes Laertius, diz que Epicuro foi ingrato com seus mestres filósofos ou outros filósofos mais ou menos de sua época, chamando-os de “moluscos”, “tontos” e outros adjetivos desse tipo. Essa segunda caracterização de Epicuro é mais engraça que a primeira, mas menos interessante filosoficamente. Vale a pena focalizar a primeira.[1]

Para defender sua idéia, Bertrand Russell enfatiza que Epicuro não admitia divergências entre os discípulos e os seus ensinamentos. Eles tinham de aceitar uma série de preceitos, sem oposição, caso quisessem freqüentar o Jardim. Além disso, tal dogmatismo teria nucleado o epicurismo, uma vez que nenhum de seus discípulos, nem mesmo Lucrécio, que viveu bem depois, teria acrescentado algo à doutrina.

Mas será essa afirmação de Russell aplicável a Epicuro? A filosofia de Epicuro deveria ter um caráter reflexivo – dialético – como a de Sócrates ou Platão? Os debates da Academia, permitidos e incentivados por Platão, deveriam ser permitidos no Jardim? Ou, ao contrário, no Jardim eles eram permitidos, mas, enfim, não eram cabíveis?

Russell pode ter interpretado Epicuro à luz dos preceitos próprios, ou seja, a doutrina liberal e moderna na política, por um lado, e crítica na filosofia, por outro lado. Podemos pensar em Epicuro não como quem tinha uma escola apta à pesquisa filosófica, como foi a Academia de Platão. Sendo a filosofia de Epicuro um conjunto de preceitos para a vida, qual a razão de discuti-los? Uma vez no Jardim, bastaria aceitá-lo. Havia várias outras escolas filosóficas em Atenas. Tendo escolhido o Jardim, o ingressante deveria de fato ser adepto do que ali se fazia, pois não se tratava de investigar a “ordem das coisas”, o objetivo do local não era propriamente o da investigação filosófica, mas o de propiciar uma vida não atormentada.

A comparação com a ida ao médico pode servir de bom exemplo. Não se vai ao médico para polemizar com ele a respeito da medicina, mas para seguir sua receita. Mas se há desconfiança sobre a capacidade do médico ou se a receita não é vista como algo razoável, ninguém perde tempo voltando ao mesmo médico, muito menos encontramos com ele, novamente, para ensinar-lhe medicina. Opta-se por outro médico ou, simplesmente, não se vai à farmácia para comprar o que está na receita. Talvez esse seja o modo mais correto de interpretar a filosofia de Epicuro.

Há razões para pensar desse modo, e não como Russell? Reforçando tal interpretação que não vê cabimento em discutir o dogmatismo ou não de Epicuro, há algo bem conhecido dos historiadores da filosofia: a aproximação de determinadas filosofias à medicina. O saber médico era um dos principais saberes da época de Epicuro quanto às necessárias regras de conduta. Afinal, para todo grego, a busca da eudaimonia (felicidade) não se dissociava do bem estar corporal; e o hedonismo, a doutrina que Epicuro compartilhou com outros filósofos, levou isso adiante de uma maneira muito característica. Tanto quanto a medicina, a filosofia deveria dar normas, regras para a vida correta, a boa vida. E por isso a sabedoria de Epicuro foi chamada de pharmakon. Mais especificamente: um tetrapharmako. Essa receita com quatro normas viria diretamente da farmácia de Epicuro. Não caberia a quem pega a receita questioná-la, como não cabe a nós, hoje, ao pegarmos uma receita – depois de termos dado aval ao médico que a prescreveu – ficarmos discutindo sobre seus fundamentos, bases e utilidades.

Epicuro jamais imaginou usar da filosofia, enquanto uma cosmologia, como um objeto de investigação, no estilo das investigações de Platão e Aristóteles. Ele não fundou uma escola de filosofia no sentido que aqueles filósofos fundaram a Academia e o Liceu. Ele criou um Jardim de convivência para a vida sem tormentos, e não um lugar que, mais tarde, poderia ser assimilado à universidade ou coisa parecida. É claro que ele tinha sua doutrina cosmológica, segundo a qual o todo do universo teria de ser tomado como “átomos e vazio”. Mas essa doutrina não foi formulada como um elemento para o conhecimento. Ela só tinha utilidade na medida em que pudesse servir como uma base de justificativa para sua doutrina ética, o hedonismo. Aliás, um hedonismo particular seu. Foi escrita do modo que hoje, nas bulas de remédio, existem as informações científicas, que funcionam mais para o médico do que para o paciente. Quanto ao paciente, ele fica apenas como a posologia – o modo de usar.

O modo de usar a doutrina é o tetrapharmoko. Quatro remédios, expostos de modo inequívoco na Carta a Meneceu.[2]

Como conseqüência de sua física e cosmologia (ou metafísica), Epicuro elabora as duas primeiras indicações de sua carta medicinal ou bula.

Sobre a primeira indicação. As divindades não observam os homens com qualquer interesse. Tudo é “átomo e vazio”, e os átomos, que são partículas minúsculas, se movimentam como em uma constante queda, e se há um desvio de um que pode ocorrer um choque, há então mudanças no plano visível. Isso não quer dizer que não possa existir deuses, e de fato eles existem. Todavia, ficam no seu mundo, e os homens tem também o seu próprio. Sendo divinos, não se interessam em olhar para o que é menos que eles, a vida dos mortais. Por isso mesmo, os homens não devem temê-los. Criar lutar para obter riquezas e honrá-los seria uma forma de grande tormento entre os homens. Um tormento tolo e inútil. Eis então a primeira regra para a felicidade: não temer os deuses; não se preocupar com eles (isso não quer dizer, não se ocupar deles – Epicuro não manda não crer neles).

Sobre a segunda indicação. Sendo o mundo só “átomos e vazio”, temos de entender que sensações são físicas e que sentimentos são também produtos de mudanças de movimentações atômicas e, portanto, corporais. Assim, quando a morte chega, as sensações cessam e tudo que é significante para nós – prazer e dor – desaparece. Eis que a morte é ludibriada, pois quando ela vem, no mesmo momento não encontra mais o homem que ali está. Eis aí a segunda regra: não temer a morte, ela é tão incapaz de nos fazer mal quanto os deuses.

Essas duas regras, uma vez obedecidas, serviriam para extirpar a maioria dos tormentos. Restam as outras duas, que explicitam a doutrina ética, o hedonismo.

Sobre a terceira indicação e quarta indicações. Ambas estão no próprios senso comum do pensamento hedonista: aquilo que é autenticamente bom é explicitamente simples, e pode ser buscado sem medo. Por exemplo: para alguém que tem sede, um simples copo de água é um bem valioso; uma vez degustado de modo correto, inteligente, é tudo o que se precisa (no momento) e, então, fonte de imenso prazer. Em relação ao mal, que poderia ofuscar prazeres, devemos saber que ele é o sofrimento, a dor, mas ele jamais dura para sempre; além disso, há uma série de exercícios mentais que podemos fazer para não prestarmos a atenção na dor, esperando-a passar, pois uma hora ela irá, com certeza, acabar. Assim, eis aí nossa receita para a busca do prazer e a fuga da dor, base de nossa felicidade.

Quando se lê a bula de Epicuro com carinho, é difícil achar que não se pode ser feliz ao seguindo-a. Como não? Com os dois primeiros princípios, acabamos com os tormentos. Não vamos mais nos bater no dia a dia por riqueza e poder, pois ficamos sabendo que não temos que nos colocar em hierarquias para, então, ter mais poder de reverenciar os deuses. Com os dois últimos princípios, criamos estratégias para a busca do prazer – perfeitamente encontrável, dado que é simples – e a fuga da dor; e esta é evitável, dado que sabemos que não irá durar para sempre.

Epicuro era bom médico. Sua filosofia não estava para o laboratório, como a do pesquisador, ela vinha do laboratório farmacêutico para o consumidor – o doente.

Paulo Ghiraldelli Jr, o filósofo da cidade de São Paulo



[1] Russell, B. Trad. Breno Silveira. História da filosofia ocidental. São Paulo: Editora Companhia Nacional, 1969, pp. 280-292, vol. 1.

[2] Epicuro. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). São Paulo: Unesp, 2002.

One Comment leave one →
  1. 12/06/2011 19:11

    É ótimo saber que há pessoas como você que preocupam-se em estudar e ensinar a filosofia.
    Agradecida pela ajuda no conhecimento filosofico.

    ass: Marcia Sousa do Nascimento

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