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O know-how para subir o morro (Estadão)

29/06/2008

Uma bala perdida por um policial, atingindo um inocente, causa revolta. A brutalidade “natural” do Exército no combate ao tráfico pode também ser alvo de crítica. Mas o que não se espera jamais é que membros do Exército peguem civis e os entreguem a gangues, por requisição destas. O ministro da Justiça, ao dizer que o ato é da responsabilidade apenas dos soldados que assim agiram – “desvio de conduta” – e que não faltou comando, pode estar querendo apaziguar os ânimos. Mas, do ponto de vista técnico, está errado. Faltou não só comando imediato, mas comando dele próprio e, no limite, do presidente da República.

O que ocorre no Brasil é uma situação de descontrole do presidente da República perante as instituições republicanas e suas funções. O Exército precisa estar na favela? Bom, se o governo tem claro que precisa, e que vai mantê-lo lá, não pode de modo algum ir até os soldados para pedir calma, altivez e que não revidem a provocações. Isso soa como piada de humor negro na tropa. Isso revela a não-compreensão do que está acontecendo no Rio de Janeiro. É a completa alienação a respeito das reais condições dos favelados, das pessoas envolvidas no tráfico e, pior ainda, a incapacidade de perceber o que se passa com o soldado que sobe o morro.

Quando se decidiu que o Exército iria “subir o morro”, todos nós deveríamos ter observado situações reais de guerra de guerrilha, inclusive deveríamos ter-nos lembrado de relações entre soldados e guerrilheiros não só de longe, mas daqui mesmo, em tempos passados. A dor da vida conjunta entre grupos armados deveria ter-nos vindo à mente.

Os Estados Unidos passaram por uma situação que muito poderia educar o governo brasileiro na sua lida com o Exército. Sem exagero: foi o Vietnã. Lá os americanos deixaram de ser os heróis que foram na 2ª Guerra Mundial ou mesmo na Coréia. No Vietnã os americanos se tornaram alvos fáceis e, ao mesmo tempo, passaram a ser vistos pelo mundo como desrespeitadores de princípios básicos da dignidade humana. O que houve? Houve aquilo que não poderia existir de modo algum: o contato prolongado com o inimigo e com o aliado local. Esse tipo de contato cria dificuldades inauditas para a ação do soldado. Este se torna uma pessoa, alguém conhecido, com toda a sua individualidade localizada. E isso cria a chantagem, a possibilidade de vingança pessoal (de ambos os lados) e, enfim, todos os problemas gerados pela promiscuidade entre partes que não poderiam estar em conversação.

Esse tipo de coisas voltou a ocorrer no Iraque. Todavia, já com menos problemas que no Vietnã. Mas cinco anos no Iraque contam. E situações estranhas, envolvendo soldados e moradores do local, começam novamente a aparecer: estupros, subornos, mercado negro, etc. Ou seja, mesmo com o aprendizado do Vietnã, os Estados Unidos não têm conseguido evitar que algo parecido volte a acontecer no Iraque.

A lição que o governo brasileiro deveria tirar disso é simples. O Exército na favela só tem uma chance de poder permanecer lá: é se ele for visto como quem está dando condições para programas realmente transformadores – para melhor – da vida da população. Mas para tal não basta que os programas sociais existam e funcionem bem. Isso é o básico. É necessário, além disso, um apoio maior ao próprio Exército para que o soldado tenha orgulho do que faz, tenha brio e, principalmente, tenha vantagens financeiras legais por aquela operação, ali, na favela. Ele deve ter um estímulo financeiro de modo a poder pensar duas vezes antes de ceder e estabelecer contatos com as gangues. E, principalmente, deve sentir-se seguro, deve ter claro que a sua família não estará na mira das gangues. Isso não é o que ocorre no momento.

O soldado não pode ficar exposto, como vinha ocorrendo, à vingança e ao controle dos bandidos. Não estou querendo defender “o lado do soldado”, não! Estou apenas mostrando que este lado, uma vez cuidado, é o que poderá diminuir as chances de o que ocorreu voltar a acontecer.

O presidente Lula e o ministro Nelson Jobim não conseguem entender tal situação. Foram criados em meios distintos do que se verifica no Rio de Janeiro. Lula tem um entendimento diminuto do que sejam de fato problemas sociais. Tudo ele acha que é “problema de pobreza” (achava isso a respeito da existência do Taleban!). “Melhorou a renda do muito pobre com algum dinheiro, as pessoas naturalmente param de fazer o que estavam fazendo de errado” – é assim que ele pensa. Não lhe passa pela cabeça que o “errado” não é de definição tão simples para cada um. Jobim, por sua vez, está alheio ao que é a realidade do homem-soldado dentro da favela. A tensão pessoal que apresentou no momento em que esteve na favela mostra bem isso. Ele não está confortável como ministro brasileiro. Um ministro brasileiro, brasileiro mesmo, que entenda de Brasil, teria de compreender melhor o que se passa no relacionamento entre o Exército, a população da favela e as gangues. Jobim está fora disso.

O Brasil acumulou certo know-how no tratamento com problemas de segurança pública, pobreza e tráfico. Não somos mais uma sociedade inocente a respeito disso. Há trabalhos teóricos e práticos de filósofos e antropólogos sobre o assunto. Há uma rica experiência da imprensa liberal no que se refere a esse tema. Isso é aproveitado? Infelizmente, não. Como em outras áreas, o governo improvisa e se acha capaz de entender do que não entende. Não consulta, não investiga, não aprende. O governo Lula é um governo teimoso nos erros. Por isso, o que aconteceu na favela, com a morte dos jovens levados pelo Exército para serem mortos, vai se repetir.

Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo Site: www.filosofia.pro.br  

Sábado, 28 de Junho de 2008 | Estadão

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