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Não é preciso ser burro para ser religioso (*)

03/07/2008

O monge beneditino Gaunilo viveu no começo dos anos mil, na Abadia de Marmoutiers, na França. O lugar ainda é um típico recanto medieval, criado no século V, perto da cidade de Strassburgo. Isso é tudo que sabemos de Gaunilo. No entanto, ele é um personagem chave na história da filosofia e, de certo modo, uma figura pitoresca.

Mas, de fato, nada há de tolice na réplica de Gaunilo. Também não há insensatez, isto é, carência de lógica. Tanto isso é verdade que Anselmo publicou sua “prova” seguida da objeção de Gaunilo. Aliás, essa objeção serviu para que Anselmo viesse a explicar melhor sua “prova” e, então, deu origem a uma polêmica que ainda perdura em nossos dias.

Podemos colocar a conversa de Anselmo e Gaunilo em termos dinâmicos, quase como se tivesse ocorrido não por cartas e textos, mas ao vivo. É o que segue.[1]

Anselmo inicia sua argumentação a partir da noção cristã de Deus. Ele utiliza a seguinte expressão: “aquilo em relação a que nada de mais perfeito pode ser pensado”. Este “mais perfeito” pode ser pensado – é o que ele acredita – até pelo “tolo” ou “insensato”, caso este diga que compreende a expressão “aquilo em relação a que nada de mais perfeito pode ser pensado”. Bem, uma vez compreendido isso, então “aquilo em relação a que nada de mais perfeito pode ser pensado” tem de existir, pois caso não existisse, teria uma carência e, então, não seria “aquilo em relação a que nada de mais perfeito pode ser pensado”.

A objeção de Gaunilo é simples: ele usa a definição de Anselmo, aplicando-a a uma ilha perdida. Trata-se de uma ilha em relação a que nenhuma outra ilha mais perfeita pode ser pensada. E ele diz que é evidente que, ao pensarmos essa ilha perfeita, disso não decorre necessariamente que ela tenha de existir. Não teríamos de admitir a existência da ilha só porque a pensamos em estado máximo de perfeição.

A resposta de Anselmo é rápida: uma ilha perfeita é um objeto empírico, e sua perfeição está restrita pela sua condição de ilha. Uma ilha perfeita, diríamos, pode ter predicados numerosos, mas o número deles é finito. Tudo que podemos atribuir a uma ilha, nós atribuímos. Mas, além disso, não podemos dar mais passos, para não descaracterizá-la como ilha. Todavia, Deus não é desse caráter. Não tem atributos limitados. Por isso ele cabe de modo único na fórmula “aquilo em relação a que nada de mais perfeito pode ser pensado”.

Poder-se-ia objetar, em favor de Gaunilo, que o exemplo da ilha foi infeliz, dado que empírico, e então o correto seria lançar mão de um elemento de imaginação, com o unicórnio. Todavia, nesse caso, a resposta de Anselmo ainda continuaria valendo. Ainda que somente imaginado, o unicórnio é um unicórnio e, para ser perfeito ao máximo, não poderia receber qualidades que não as circunscritas pelo que entendemos como unicórnio. Há um número finito de possibilidades de aperfeiçoar um unicórnio. Em contrapartida, este não é o caso “daquilo em relação a que nada de mais perfeito pode ser pensado”.

Mas a objeção de Gaunilo não é só esta. Ela se volta contra a idéia de que, se há quem não possui a noção de Deus, ou seja, o “tolo” ou o “insensato”, este pode muito bem se recusar, sem perder a razão, em aceitar que seja capaz de compreender o conteúdo da fórmula “aquilo em relação a que nada de mais perfeito pode ser pensado”. A fórmula, então, nada seria que um fio de palavras só aparentemente com algum significado válido.

De certo modo, o que Anselmo retruca pode ser colocado do seguinte modo: meu caro Gaunilo, não há razão para se desejar usar de argumento para provar a existência de Deus de modo a converter o não crédulo.

A conversão, sendo possível, continua como obra da fé, e assim deve ser no cristianismo. A “prova” da existência de Deus é uma forma de satisfazer a curiosidade filosófica, de maneira que possamos entender o que a fé coloca. De modo algum a “prova” – esta ou qualquer outra – é uma forma de justificar racionalmente a fé, pois, caso fosse assim, a fé não seria fé, mas seria uma capacidade baseada na razão. Haveria uma inversão da relação entre fé e razão, o que descaracterizaria a atividade de Anselmo, que se mantém como padre da Igreja.

Pelo que sabemos, Gaunilo se calou. Ou melhor, por falta de informação, a história da filosofia se fez calando Gaunilo.  O seu “tolo” ou “insensato”, no entanto, não foi esquecido. Santo Tomás de Aquino voltou ao ponto.  Ele insistiu no fato de que mesmo que a palavra “Deus” fosse em geral reconhecida com “aquilo em relação a que nada de mais perfeito pode ser pensado”, isso não forçaria alguém a pensar que Deus existe no mundo real, e não só no pensamento. Os que sustentariam a não existência de Deus simplesmente não aceitariam que há “aquilo em relação a que nada de mais perfeito pode ser pensado”.

Ora, mas nesse caso Aquino volta ao ponto já explicado por Anselmo. O argumento de Anselmo não é uma forma de provar a existência de Deus para aquele que, não tendo fé, teria de conseguir vir a acreditar em Deus por meio de provas racionais. O argumento de Anselmo, do ponto de vista puramente filosófico, é algo que visa caracterizar Deus e mostrar que sua existência está vinculada logicamente à sua definição. Nada o impede de fazer isso. Um homem religioso, de fé, não precisa ficar só com a fé se é alguém predisposto à curiosidade. Pode enriquecer seu pensamento, ao lado da fé, para questões filosóficas. A fórmula de Anselmo para tal, logo no início de sua argumentação é de que seu método é o da “fé perseguindo o entendimento”. A fé caminha na frente, antes de tudo. Os resultados do cultivo da mente, a partir da filosofia, vão sendo facilitados por ela. Uma maneira inteligente de ser religioso? Sim, talvez seja isso mesmo o que Anselmo queria para ele próprio.


(*) Parafraseando Fernando Henrique Cardoso, que na Presidência da República disse a frase (correta): “não é preciso ser burro para ser de esquerda”.
 

© Paulo Ghiraldelli Jr “O Filósofo da Cidade de São Paulo”. www.filosofia.pro.br e pgjr23@gmail.com
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3 Comentários leave one →
  1. vertov permalink
    10/07/2008 16:37

    De fato não é preciso ser burro, mas ajuda bastante!

  2. marcosnicolini permalink
    25/08/2008 16:00

    Agostinho, Anselmo, Aquino foram geniais em suas religações entre o pensamento que oscila ente Atenas e Jerusalém. É necessário ser burro para fazer esgotar esta inimizade tão profícua.

  3. 26/07/2012 13:31

    Bom, nem sei por onde começar… Num dos outros artigos (não me parece adequado chamar a isto um ensaio filosófico) referiu coisas muito básicas acerca do Conhecimento, nomeadamente a Teoria CVJ aplicada por Platão em “Platão e o Rei-Filósofo” na frase “Para Platão, o conhecimento é a crença verdadeira e justificada”. Tirando a objecção de Gettier, que claramente pede uma reestruturação da dita teoria – teríamos de adicionar um outro elemento ou garantir que a justificação para a crença é verdadeira e não apenas verosímil para não sermos conduzidos em erro – e admitindo que uma justificação verosímil pode ser tida como suficiente para tornar uma crença verdadeira (e que assim estaria justificada) conhecimento, parece-me um passo demasiado grande sequer pôr a hipótese de a Fé poder conduzir a bom pensamento filosófico e, mais que isso, a verdadeiro conhecimento. Não nego que através da Fé e da Religião nos possamos debruçar sobre assuntos vitais para uma melhor compreensão da vida e dos problemas filosóficos que pairam sobre os pensadores desde a Antiguidade, muito pelo contrário já que alguns desses pensadores foram e os actuais são homens e mulheres religiosos. Contudo, não me parece que se possa chegar ao conhecimento em tópicos como o sentido da existência ou no campo da ética sem abandonar os preconceitos religiosos. Ora, se foi precisamente a religião, a fé, que os levou a questionarem-se sobre esses mesmo tópicos, o que é que parece mais plausível vir a acontecer: que venham a abandonar as crenças que tinham e que os conduziram às questões por chegarem a respostas que contradigam essas crenças ou que, por outro lado, tentem responder às questões mantendo-se fiéis a ditas crenças? Creio que a resposta é claramente a segunda opção, verificando-se o mesmo que ocorre antes de uma revolução científica, com tentativas de encaixar possíveis falhas nas respostas a que chegassem – por parte dos homens de fé – ao paradigma em que se encontravam e que os levaria a manter as crenças, a fé a religiosidade.
    Por isso, para concluir, creio que incorre em erro quando faz uma associação tão íntima entre, primeiro, a Fé e a Religião – parece-me que está bastante bem documentado como a religião não passa de mero fideísmo de não for baseada em algo mais que a Fé e só a Fé – e, em segundo lugar, entre a Fé/Religião e a possibilidade de entendimento, isto é, de vir a alcançar conhecimento pelo simples facto de que devemos procurar fundamentar as nossas crenças em justificações o mais verosímeis possível e não vejo que tal se consiga mantendo as crenças religiosas que um homem arrastado para a filosofia pela fé deve possuir. No que concordo, e para não ser totalmente crítico, é que tanto a religião como a fé são dignas de serem valorizadas se desempenharem esse papel de contribuir para a possibilidade de aquisição de conhecimento… tendo em atenção que, para consolidar esse conhecimento para o qual as portas foram abertas, devem (a religião e a fé) posteriormente ser deixadas de fora.

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