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Filosofia para crianças?

10/07/2008

A filosofia é uma atividade que, não raro, nos leva a fazer perguntas que são parecidas com as “perguntas das crianças”, mas disso não se deve concluir que a filosofia é algo para as crianças.

Quem não é bobo sabe bem que criança não entende coisa alguma de filosofia. Todavia, há algumas coisas na filosofia que deveriam nutrir uma pedagogia mais bem articulada e inteligente do que as que temos ao redor de nós, vigentes em escolas estatais e particulares. O filósofo pode auxiliar o pedagogo e o professor nisso. E talvez, com alguma sorte, o filósofo até possa lidar, ele próprio, com as crianças.

Um filósofo é alguém que deve saber pensar de modo a utilizar a argumentação lógica e crítica; então, pode criar exercícios para as crianças nesse sentido. Um filósofo é alguém que conhece sistemas éticos e noções de estética; ora, não é difícil para ele elaborar problemas nesse campo que podem ser entendidos pelas crianças. E mesmo questões metafísicas, em especial as que lidam com os temas sobre Deus e nós, linguagem e mundo, mente e cérebro e outras similares podem ser adaptados para a curiosidade infantil.  Mas receio que há os que procuram chifre na cabeça de cavalo. Pois todos esses assuntos podem ser abordados pelas histórias que as crianças já dispõem. Em especial as de autores clássicos. Não necessariamente precisaríamos criar algo como “um programa” de filosofia para crianças.

Não acho que é necessário mais do que já temos em determinados contos do Ursinho Pooh, da Disney, ou de determinados episódios de histórias de Monteiro Lobato, para que possamos colocar as crianças diante de temas tipicamente filosóficos. Quando vejo o que alguns fazem por aí, sob títulos pomposos como “educação para o pensar” ou “filosofia para crianças”, fico desanimado. Pois, em geral, é uma grande perda de tempo e energia. As crianças cresceriam bem mais saudáveis sem aquilo. Tais coisas, com honrosas exceções que confirmam a regra, não poderiam receber o nome de filosofia, são apenas pedagogias envergonhadas de se denominarem pedagogias.

Há um livro do filósofo inglês Stephen Law que lida bem com filosofia para gente pequena. Ele não evita os grandes problemas filosóficos. E não constrói uma narrativa boba. Todavia, não é propriamente para crianças o livro dele – Arquivos filosóficos –, e sim para pré-adolescentes. Mas serve para o professor de filosofia, que insiste em lidar com crianças, organizar sua própria cabeça e, então, saber o que é filosofia enquanto um conjunto de questionamentos que poderia ser colocado para gente jovem, até mesmo crianças. Pois o que vejo, em geral, é que quando se fala em filosofia para crianças o que se faz é tudo, menos filosofia.

Agora, da minha parte, como filósofo, caso tivesse que educar crianças, eu as educaria antes em matemática, ciências, história & geografia e literatura, e faria a filosofia presente em cada um desses conteúdos. Mas, de modo algum, isso seria diluição da filosofia. Quando necessário, a filosofia emergiria com o nome de filosofia – sem fuga.

Não vejo razão para não teatralizar a situação com a criança. Todas elas de túnicas, em meio a um jardim, poderiam comer uvas e receber Epicuro. Ele perguntaria a elas “quem tem sede?”. As que respondessem “sim” poderiam beber uma água bem cristalina, servida em um jarro bonito e transparente, bem limpinho. Deveriam beber vagarosamente, deixando antes a sede passar do que a barriga doer. Poderíamos dizer, então, que curtiram com sabedoria o prazer de um copo de água. Eis aí uma lição simples – e correta – de hedonismo, a doutrina de Epicuro.

Mais situação teatral? Todas as crianças, uma vez vestidas de túnicas, podem preencher triângulos no chão com seus próprios corpos. Preenchendo corretamente os triângulos, fariam a prova do teorema de Pitágoras (em um triângulo retângulo a hipotenusa é a soma dos quadrados dos catetos). A relação matemática do triângulo, uma vez alcançada e entendida, deveria servir de exemplo de algo que é objetivo, (e que encantou os antigos), pois apesar de ser pensada se mantém existindo sem que seja pensada. Eis aí um bom passo para Platão, para se começar a pensar na sua Teoria das Formas.

Exemplos assim podem ser denominados de “prática do ensino da filosofia” para garotos e garotas, mas sem malabarismos. Pois um bom professor faria isso por razões de ter uma boa pedagogia. Agora, se temos professores fracos e uma escola fraca, então inventamos métodos e mais métodos, para nos salvar, sempre achando que o problema não está na falta de bons salários e de boa formação para o professor. Em um determinado momento, acreditamos que o problema poderia ser resolvido se trocássemos os nomes, em vez das matérias tradicionais e de pedagogia, chamaríamos a filosofia – esperamos um milagre. O Brasil pode ser vítima disso, dado que temos um sistema de ensino que vai de mal a pior.

Ora, o fato é que se um bom professor de filosofia tiver paciência com crianças, ele pode, sim, criar situações como estas citadas acima. Ele pode, então, dizer que está “educando por meio da filosofia”. Estará mentido? Creio que não! Todavia, o ideal seria ter um país onde o professor comum pudesse fazer isso que mostrei acima, sem ter de batizar tal prática de “filosofia para crianças” enquanto alguma coisa especial.

Bem, mas se vivemos em um país que insiste em encontrar truques para educar, e a “filosofia para crianças”, segundo os exemplos que mostrei acima, pode dar resultado, não vejo razão para impedir que seja feita. Que se faça assim – não vou tentar impedir. Poderíamos, então, ter a professora das crianças consultando filósofos voltados para tais atividades – todas elas bem práticas. Quando essas crianças pudessem ler algo de filosofia, lá por volta dos 12 para 13 anos, que começassem por coisas do tipo do Stephen Law. Depois dos 15, no entanto, alguns clássicos que constam da história da filosofia poderiam ser introduzidos. Nesse caso, determinados diálogos de Platão deveriam fazer parte do currículo dos jovens como Machado de Assis já faz parte.

Nessa última situação, teríamos já “filosofia para jovens”. O perigo começaria aí, pois surgiria então a velha disputa “filosofar” versus “história da filosofia”. A segunda é importante, mas não poderíamos esquecer a primeira. Ora, será que crianças educadas a partir dos exemplos que dei acima, uma vez mais velhas, já na escola média, reclamariam do professor que viesse a entupi-las com história da filosofia sem deixá-las filosofar? Eu gostaria de ser otimista e responder que sim. Todavia, não posso garantir isso.

Facilitar condições para que crianças e jovens venham a filosofar não é fácil. No caso das crianças, a prática que mostrei é a chave disso. No caso dos jovens, a discussão de caráter dialético, a argumentação livre, pode ser incentivada. Não seria útil ver os jovens tentarem compreender como que Sócrates utilizava o elenkhos? No texto A Apologia de Sócrates (de Platão) há um mini-exemplo do uso do elenkhos, quando Sócrates faz Meletos negar o que afirma. Ora, não seria útil para os alunos entender esse tipo de argumentação, e saber diferenciá-la da sofística? Mas seria o professor comum capaz de fazer isso? Ou no Brasil já chegamos a uma situação em que os professores não entenderiam o texto? Precisaríamos, então, do próprio professor de filosofia nesse trabalho? Bem, se este é o caso, que seja chamado, então, o professor de filosofia.

Nessa transição da pré-adolescência para a adolescência, aqueles que forem incentivados a pensar com o uso da lógica e com atenção à argumentação rigorosa sairão na frente dos outros. A união da filosofia com a história da filosofia pode fornecer a chave aqui. Um exemplo a mais? Ora, que tal colocar o jovem diante da “prova da existência de Deus” de Santo Anselmo e da tentativa de refutação por parte do Beneditino Gaunilo? A esquematização da argumentação seria saudável para o jovem, e talvez interessante. Seria história e lógica, seria história da filosofia e filosofia, e de brinde o professor poderia fazer uma viagem pela Internet com os alunos, visitando os belos lugares onde os heróis em questão moraram. Eis aí que a geografia acabaria se infiltrando no assunto.

Exemplos de como trabalhar, para um professor inteligente e culto, não faltam.

Antes de tudo, “filosofia para crianças” e “filosofia para jovens” deve ser filosofia. Ou seja, deve preservar e incentivar a inteligência e o discernimento das crianças, utilizando de problemas, temas e questões que são propriamente as discutidas no campo da autêntica filosofia, e não se colocarem a favor de situações de domesticação e de amor ao que é o inculto e confuso.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

One Comment leave one →
  1. filosofastro permalink
    10/07/2008 12:46

    Sem dúvida o esdino de filosofia nas escolas brasileiras deixa muito a desejar. Uma pena. Parafraseano Nelson, “filosofar, para mim, já se tornou uma necessidade fisiológica”.

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