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As “Universidades” de Corporações

29/07/2008
Lênin já sabia!

 

O MST tem universidade. Ela ensina pouca ciência, mas sabe bem fazer uma doutrinação que não serve a ninguém, muito menos ao um “pensamento de esquerda” para o Brasil. É uma universidade corporativa que suga muito dinheiro do contribuinte, mas cujo retorno para a sociedade é pequeno. Como já noticiou o Estadão, o aluno desse lugar recebe bolsa e entra por indicação, sem vestibular. Os professores são afinados ideologicamente: é gente que vê as outras universidades (inclusive as públicas) como aliadas aos “interesses dos grandes produtores”. Duvido que Lênin, uma vez aqui, poria o filho dele para estudar em tal lugar.

 

Aliás, a esposa de Lênin, responsável pela educação russa no primeiro momento da Revolução de 1917, tentou colocar em prática os procedimentos do norte-americano liberal John Dewey que, por sua vez, teve conhecimento de perto das experiências soviéticas. Nadejda Krupskaia não era burra, ela sabia que só a democracia tinha conseguido pensar em um “ensino ativo”. Mas teve azar, pois o socialismo de Lênin era tão pouco democrático quanto aquele que veio depois, com Stalin. As experiências de educação da esposa de Lênin foram logo substituídas por experiências afinadas com a ditadura comunista. A URSS foi um paraíso do “ensino tradicional” durante anos, como constatou Jean Piaget quando fez seu belo relatório sobre a educação mundial para a Unesco, nos anos oitenta.

Volto ao corporativismo. A qualidade do aluno que sai da Universidade do MST – e eu vi isso de perto – é algo de deixar qualquer um de queixo caído. Na verdade a tal Universidade é menos que um “colegião” – é um tipo de ensino fundamental ruim que dá diploma de ensino superior.

Apesar do investimento governamental (para isso há dinheiro na Educação, meu caro Fernando Haddad!), tal instituição não faz jus ao que o Brasil precisa em termos de pessoas que possam trabalhar bem e serem bons cidadãos. E caso o objetivo de tal universidade seja o de promover um pensamento de esquerda comprometido com transformações viáveis, então, o resultado é pior ainda.  Pois o que tenho visto ali é que as pessoas saídas de tal escola nada defendem que seja de esquerda, apenas reproduzem chavões e palavras de ordem, em completo desconhecimento do pensamento filosófico da esquerda, muito menos da esquerda democrática.

Acabou? Não! Preparem-se, pois Fernando Haddad não quer apenas satisfazer a sede de Lula de agradar o MST, quer montar mais peças corporativas, imitando o estado fascista de Vargas. Ele já anunciou mais um passo desvairado nessa direção: a criação (no Nordeste) da Universidade Afro Brasileira. Disse que vai primeiro criar a coisa, e só depois irá pensar no dinheiro necessário. Portanto, pode ser apenas balão de ensaio para as eleições. O PT adora isso. Mas, ao final, acabará criando mesmo a escola, e irá ser algo nos moldes dessa coisa pouco razoável (para dizer o mínimo) que é a Universidade dos Sem Terra.

Disse e repito: minha oposição ao governo Lula é uma oposição diferente daquela que a direita e os conservadores fazem. Advogo medidas democráticas, de uma esquerda democrática. Assim, penso que o melhor seria, antes de criar qualquer coisa, primeiro assegurar os recursos. Sem isso, o ato de criação é irresponsável. Além disso, eu não apostaria em uma “Universidade Afro”; eu apostaria na ampliação, no interior das instituições de ensino já existentes – estatais e particulares – de institutos cujo objetivo seria o de ampliar os estudos de todas as comunidades que formaram o nosso povo, a partir da base posta pelo colonizador português. Seria um dinheiro melhor gasto se cada universidade tivesse recursos para cultivar a cultura italiana, japonesa, eslava e de outras faixas de imigrantes em conjunto com a cultura afro e a cultura indígena. Principalmente se isso se desse a partir de um forte incentivo para o estudo de línguas. Isso sim seria produtivo, e estaria em acordo com nossa constituição liberal e com nossa expectativa democrática.

Agora, uma “Universidade Afro”, criada pelo Governo – este governo –, é difícil de acreditar que ela não terá todos os vícios da escola corporativa do MST.

Os ultraconservadores dizem odiar essas medidas do governo Lula. Mas, no fundo, eles amam tais coisas. Tudo que possa ser usado por eles para reviver a Guerra Fria (e vir para a imprensa dizer que há “comunismo” no ensino), sempre será utilizado. Portanto, não temos que dar bolas para a crítica meramente ideológica contra a “Universidade Afro” ou a do MST. Dar ouvidos para a Veja é perder tempo. Temos de pensar em termos práticos: qual a razão de nós, contribuintes, pagarmos para que grupos tenham “universidades” que nem eles próprios tirarão proveito real? Digo isso e provo: podem trazer para mim os formados por essa universidade do MST (e já convido os da futura “Universidade Afro”), que eu aplico neles uma prova de ensino médio e nenhum deles passa. E olha que pego uma provinha daquelas fáceis. Aliás, nem precisa ser de ensino médio. Uma prova de ensino fundamental mesmo. Pego três exercícios fáceis de geometria plana, de oitava série, e coloco para esse pessoal resolver. Não resolvem. Faço três perguntas de história do ensino fundamental, daquelas mais comuns – não respondem. Ah, dou ainda uma “lambuja”: pego os alunos indicados pelos melhores professores de tal universidade para o teste. Querem apostar que vão mal?

O mais triste disso tudo não é ver que o presidente da República não tem a dimensão do que é saber e não saber algo. O mais terrível é notar que um ministro da Educação, que é professor na USP, acha que o modelo de brasileiro sábio é o Presidente da República! Então, eis aí a desgraça. Coisas como a Universidade do MST e, amanhã, a “Universidade Afro”, serão os modelos do que esse pessoal entende como sendo o que se deve fazer em educação. Com isso, não vamos sair do lugar que estamos. Estamos no fim da fila.

Paulo Ghiraldelli Jr é “o filósofo da cidade de São Paulo”

http://ghiraldelli.pro.br

http://paulo.ghiraldelli.pro.br

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