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O Corpo na China Olímpica

04/08/2008

Protesto Alemão

Protesto Alemão

O materialismo de Marx se imaginava sofisticado por não remeter a idéia de “matéria” à de “físico”. Afastando-se da “biologia”, Marx pensava ter dado um passo além da doutrina dos materialistas do século anterior ao dele. A “materialidade” de Marx se fez voltada para uma noção que apanhava as relações dos homens entre si e com o mundo que uma noção ligada à fisiologia ou à mecânica.

Os frankfurtianos quiseram devolver o corpo físico ao materialismo. Ou melhor, eles desejaram fazer o materialismo não deixar de lado o corpo físico. A dor e o prazer (sexual) foram tomados por eles como temas, e chegaram a acusar Marx de “ascetismo burguês”. Mas é difícil não ver em Adorno e Horkheimer o mesmo ascetismo que enxergaram em Marx, ainda que tenhamos em conta suas denúncias a respeito de como que o materialismo marxista – para não dizer toda a filosofia – fugia do problema de lidar com as sensações e com o sentimento.

Creio que foi Foucault o filósofo que devolveu o corpo físico ao materialismo (e Donald Davidson, em outro sentido).  Em uma entrevista célebre, ele lembrou que seu materialismo lhe parecia mais radical que o de Marx exatamente por não se esquecer do corpo.  Somos materialistas? Então, que sejamos mesmo! Vamos ao que temos de “matéria” – o corpo. Foi isso que ele disse. Foucault não via uma razão para deixar o corpo físico na cama da clínica médica que fosse maior que aquela razão que nos permitiria trazer o corpo físico para cima da escrivaninha do filósofo.

Foi assim que Foucault criou as noções e “bio-política da população” e “anátomo-política do corpo”. A biologia e a anatomia voltaram para a cena filosófica. Mas em um sentido inovador e inédito. Todavia, após Foucault, tivemos um refluxo.

Como filósofo, tenho tentado não deixar esses passos de progresso perderem seus rastros.  Tenho insistido em fazer filosofia do corpo – em todas as dimensões que isso implica. No livro O corpo – filosofia e educação (Ática, 2007) eu expus mais estudos que vieram para completar os que foram colocados em O corpo de Ulisses (Escuta, 1995). Um dos temas que abordei foi o da identidade de grupos por meio da imagem do corpo.  No momento em que escrevo, é esse o tema que se apresenta mais atual, quando pensamos na sua relação com a ética e com a política.

A questão do ano de 2008 que envolve o tema do corpo, entrelaçado com a ética e com a política, é aquela ligada aos Jogos Olímpicos da China. Posturas corporais que colocam o relógio em segundo plano estão em confronto com aquelas posturas que antes de elegerem o relógio como um deus tomam o corpo como relógio. A China que aliou “ditadura comunista” com “alta produtividade capitalista” defende este modelo, enquanto que o Tibet, incrustado nessa China, defende o primeiro modelo.

Assim, dois tipos de corpos estão em postos para o confronto. Mas não é só neste plano que o corpo aparece e se põe como centro. É que o corpo é “operado” para se colocar no âmbito da disputa ética (sim, se trata de opções por diferentes ethos) e política em questão. Como? De uma forma bastante imaginativa: os grandes campeões que irão participar dos jogos resolveram colocar seus corpos – que todos querem ver – à disposição do público, mas sem as suas cabeças. No lugar das cabeças que pertencem aos seus corpos, aparecem cabeças de dissidentes chineses. O corpo sofre mutação fotográfica para que o protesto em favor do Tibet e da liberalização do regime se faça presente.

Alguém menos atento pode acreditar que isso nada é senão o velho e bom fenômeno da “entrada da política (democrática) nas quadras, campos, piscinas e pistas”. Nesse caso, seria a repetição de tipos de situações como a de Jesse Owens derrotando o atleta de Hitler, ou como aquela dos negros americanos cerrando os punhos em favor de respeito racial e, também, a dos boicotes de Comitês Olímpicos Nacionais contra a URSS (para se por contra o desrespeito a Direitos Humanos do comunismo) e contra a África do Sul (pelo fim do regime do Apartheid). Todavia, não vejo assim o modo do protesto dos atletas atuais contra o regime da China.

O que os atletas realizaram ao trocar as cabeças de seus corpos é simples, mas nunca foi feito antes! É a primeira vez que se está usando do corpo para se mostrar a dupla identidade, sem qualquer referência explícita às idéias. As idéias são pressupostas, não precisam aparecer. Nem há gestos (o punho fechado, dos negros, era um gesto que sempre veio junto com o movimento operário). O que precisa aparecer, agora, é a dupla identidade. Cada atleta é o que é o seu corpo, mais do que qualquer um de nós, talvez. Como possuem corpos em constante exposição, são bastante inconfundíveis aos aficionados dos esportes (que não são poucos). E, então, podem trocar de cabeças e, ainda assim, garantirem suas identidades. Parte do corpo, a cabeça, o “lugar das idéias”, é de um dissidente; e parte do corpo, a que funciona para o espetáculo olímpico, continua ali pronta para o espetáculo olímpico. O que cada atleta está dizendo é que ele tem a cabeça do dissidente, enquanto que o corpo continua respeitando os jogos.

Assim, não é necessário boicote. Não é necessário gestos ou faixas ou protestos na hora do evento. Basta agora, antes do evento, ocorrer a fusão, a dupla identidade. Cada um é submetido à cirurgia de troca de cabeças. Nem mesmo é utilizado o photoshop, é a pura colocação da foto do dissidente na frente do rosto, deixando o corpo atlético bem inconfundível à mostra.

Tal mensagem não é exclusivamente inteligente, ela é, também, sinal dos tempos. No passado, não a entenderíamos. Mas agora, que a identidade foi transferida do campo dos discursos abstratos para o discurso emitido pelo corpo, fica fácil entendermos o recado. Antes, pareceria uma brincadeira confusa. Hoje, é bem fácil saber que cada dissidente se tornou atleta e que estará no centro das quadras, pistas, piscinas e campos. Na festa do corpo, o corpo dita quem vai fazer o espetáculo o que será visto como espetáculo – não é fantástico?

O materialismo de nossos tempos trouxe o corpo para o palco central. E onde o materialismo de Marx já foi de todo deturpado, desde o início, nada melhor que um pouco de materialismo (ainda que não marxista) para irritar o Poder. Na China Olímpica de 2008 nossa inteligência de e para o protesto seguiu o corpo.

Paulo Ghiraldelli Jr., “o filósofo da cidade de São Paulo” 

 

 

 

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