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A Violência nas Escolas e o Professor de Filosofia

05/09/2008

Meu MSN chama. Abro e é uma amiga do Rio de Janeiro. Ela é de classe média, bem educada e tem uma filha. A garota é pré-adolescente e está tendo problemas em freqüentar as aulas. Tem sido vítima de agressões das colegas. A mãe me pergunta se há como fazer “educação em casa”.

O que dizer? Em tese, fazer educação em casa é possível, inclusive do ponto de vista legal. Mas é efetivamente possível no mundo atual? O problema então volta para o campo escolar: o que pode ser feito na escola para que este tipo de problema não ocorra?

É claro, meu leitor, eu sei que se você tem mais ou menos a minha idade, deve estar pensando: “ah, o Paulo se esqueceu de que no nosso tempo de grupo escolar havia briga todo dia, fora e dentro da escola – é comum isso”. “Desde que o mundo é mundo, há violência entre jovens”. Não, não me esqueci disso. Sei bem o quanto o mundo infantil e juvenil é perverso com os “diferentes” – desde a garota que não participa do que as outras querem participar até o garoto que gosta de ler passando pela menina com óculos de garrafa ou até mesmo por aquela que é bonita e, no entanto, não esnoba as outras, todos os “diferentes” estão na mira dos “iguais”. Todos os diferentes, para o bem ou para o mal, são vítimas em potencial na escola. A escola é um lugar de uniformização. E quanto mais o Estado tentou tirar o uniforme das roupas, mais os próprios alunos cobraram a uniformização de comportamentos. Quem “não se enquadra”, é punido.

Mas, até aí, tudo iria de modo razoável se as agressões continuassem a ser “as do nosso tempo”. Mas não são. Por mais violentos que fôssemos nos anos 50 e 60, não me lembro de nenhum caso de enforcamento na escola. Também não me lembro de alguém ateando fogo no corpo do outro. Muito menos jogando ácido. Menos ainda escutei alguém dizer que estava levando uma arma na escola. E olha que eu passei por todo tipo de escola, todas elas escolas públicas. Agora, as reclamações e os casos não são de “brigas na escola”. As coisas tomaram outro rumo.

A violência que não tínhamos no Brasil, e que agora temos, adentrou de fato a escola de crianças e jovens. E isso quase que independentemente da escola ser pública ou particular, ainda que tenhamos a ilusão de que podemos – ou pudemos – tirar os nossos filhos (nós, os com formação universitária em boas faculdades) deste campo de violência, pois conseguimos livrá-los da hoje fracassada escola pública (só o Fernando Haddad fala bem dela, mas ele mesmo não coloca seus filhos nela, assim é fácil!) (aliás, duvido que ele, com a idade que tem e vindo do meio rico que veio, tenha passado pela escola pública!). Muitos de nossos filhos passam por violências, e ficam calados – algumas delas eles não teriam coragem de nos contar. Essa violência entre colegas não é a única. A violência entre professores e alunos também tem crescido. Assustadoramente, a violência de alunos contra professores é a regra agora, e não mais o oposto. A violência não contra um ou outro, mas contra a escola mesmo, em todos os sentidos e modos, também aumentou.

Esse círculo de violência não deve ser considerado por partes. Pode ser olhado por partes por quem administra a escola no seu cotidiano. Mas para quem pensa sobre a educação, é necessário ver que a violência contra a instituição escolar, contra colegas e contra professores e, de certo modo, a violência dos adultos contra as crianças, contém elementos de caracterização bem comuns. E em geral a regra é a seguinte: onde está o “diferente”, seja ele quem for, temos de fazê-lo ficar igual ou então destruí-lo. As crianças e jovens fazem isso com os colegas. Os jovens fazem isso com os colegas e professores. Mas a escola também faz isso com todos e, inclusive, como instituição, com seus próprios professores. E essa uniformização é feito com violência – em todos os casos.

O professor que faz a aula diferente, ainda que seja boa, é admoestado pelo diretor. O diretor que pensa diferente é castrado pela secretaria de Educação. O aluno que é diferente, que pergunta demais é admoestado pelo professor. O aluno que pergunta na hora que a aula está acabando é vaiado pelos colegas. Essas são pequenas violências – às vezes são pequenas. Mas elas não estão fora da base de alimento das grandes violências.

A violência física entre alunos e entre alunos e professores, quando sai do nível do esperado – e este nível tem ficado tolerante demais – é notada pela imprensa. Eis que então aparece gente (inclusive eu, como agora) para escrever sobre o assunto. Muitos de nós que escrevemos sobre o assunto, passamos por determinadas violências e sabemos bem o que é. Temos conosco um bom conhecimento sobre como humilhações pequenas e grandes são pedras difíceis de serem saltadas mais tarde. Muitos de nós que fomos humilhados e conseguimos superar tal coisa, não se tornando meros ressentidos, temos medo quanto a nossos filhos – atribuímos a eles uma fraqueza maior. Tememos que eles não possam superar aquilo que nós achamos que superamos ou que realmente superamos. Além disso, em determinados momentos, temos medo, mesmo, da violência como o que pode trazer danos físicos irreparáveis – pois é nesse ponto que a situação se apresenta atualmente.

O que é que se faz diante disso? E os professores de filosofia, que agora voltam às escolas, como podem colaborar?

A melhor coisa que o professor pode fazer, e o professor de filosofia deve ser o primeiro a começar a agir nesse sentido, é o de trazer filmes para o ambiente escolar e discutir com os alunos as situações de violência com um objetivo claro: ver que ela não é vantajosa. A filosofia pode mostrar que a violência não é algo que traz vantagem.

Então, em primeiro lugar, temos de afastar de nós, principalmente da mentalidade do professor de filosofia, que “tirar vantagem” é sempre algo ruim. Não! Tirar vantagem é ser esperto. E o melhor modo de conversar com o jovem que quer “ser esperto”, é mostrar para ele que ele está sendo burro, e que não vai conseguir tirar vantagem da violência, nem mesmo vantagem imediata. Em outras palavras, é preciso conversar com o jovem no sentido de dizer para ele que Gerson, ao querer “tirar vantagem”, não era um malandrão. Era inteligente. Ele corria pouco no campo, mas tirava vantagem à medida que colocava a bola no lugar certo. Ter vantagem é sair na frente. Não sai na frente quem perde tempo se preocupando demais com os outros. Quem gasta suas energias com a violência, com a atenção para com o outro, perde tempo para gastar com atenção para si mesmo. Isso não dá vantagem. Além disso, desencadeia o mundo contra você.

O filme que o professor de filosofia poderia trabalhar é o American History X (1998), que já se torno um clássico, com Edward Norton no papel principal. É claro que com a escola que temos hoje, o professor vai gastar saliva para explicar tudo que há no filme. Mas, enfim, quem é professor de filosofia, que trate de ler e reler, e de afastar de si o anti-americanismo imbecil.

Então, primeiro: não vá com preconceitos contra os Estados Unidos para a sala de aula. Veja como que Eduard Norton se torna neonazista, o que ocorre na sua família para tal. Segundo: veja que o filme é americano, e feito por insistência de Norton, que não nega em nenhum momento, como ator e militante, seu amor pela América. E mais: não fique circulando no filme em torno do neonazismo. Essa não é a questão central do filme. O neonazismo é uma piada nos Estados Unidos. Grupelho ali e acolá não devem ser o centro da questão. O centro é a violência de ambos os lados em disputa. O centro é o modo como que a democracia e o uso de inteligência se colocam contra a violência. O centro é o modo como Derek (Norton) se vê mutilado em uma sociedade democrática após ele ter usado da violência e, então, como que ele percebe que os outros violentos como ele “não valiam nada”. O filme é antes ético que político.

Quando puder tirar de sua cabeça seus próprios preconceitos, então, estará apto a usar desse filme para convencer o jovem, pragmaticamente, que a violência é um modo bobo, tolo mesmo, de agir. E também é essa a mensagem, no filme, do professor negro para seu aluno, que se envolve com grupos neofascistas. Ele não vai até a prisão, onde se encontra seu ex-aluno, para dar liçãozinha de moral, para dizer “olha, somos todos irmãos, você não devia ter seguido o caminho da violência”. Não! Ele vai lá para dizer: “veja que você não foi esperto, e agora, seu irmão mais jovem, que ainda está na escola, também está cometendo a mesma burrice”. Em outras palavras, o professor vai até lá para dizer: você está na América, o país onde as pessoas tiram vantagem, e quem opta pela violência como você optou, não vai tirar vantagem, pois vivemos na democracia e esta premia os que convencem os outros. Você não convenceu. Seu líder não convence todo mundo. Nem ele mesmo está convencido do que diz. É isso que o professor negro diz.

Esse é o discurso correto. Mas, para fazê-lo, o próprio professor – você, que é professor de filosofia – precisa se reeducar.

O que falo aqui não faz parte de uma posição tradicional em filosofia e ética. Essa não é uma ética kantiana. Não é, também, uma lição de “paz e amor”. Quando o professor de filosofia puder entender isso, puder deixar de ser padre ou kantiano, moralista ou pastor, ele vai poder mostrar a beleza da “Lei de Gérson”. Então, começará realmente a convencer seus alunos que a violência não vai lhes dar o que querem. Não vai lhes dar vantagem. Nem mesmo satisfação momentânea.

Caso você mesmo, professor, não for um tolo e puder entender como que “tirar vantagem” é algo que pode estar no seu discurso, você começará a ajudar seus alunos a não entrarem pelo caminho da violência.

Paulo Ghiraldelli Jr.m filósofo.

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