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A ANPOF é uma instituição válida?

14/09/2008

As conferências da ANPOF em Canela, este ano, serão abertas antes por professores de filosofia atrelados ao governo ou mecanismos de poder do que por filósofos que possam ousar qualquer crítica ao status quo vigente. E o presidente atual da ANPOF é um professor que até pouco tempo, em conversas reservadas, não deixava de sempre falar algo contra os que agora estarão abrindo o evento. O Brasil é assim: um testa de ferro na presidência e “os mesmos de sempre” falando para estudantes. Eis a ANPOF, uma entidade cujo objetivo seria o de reunir pesquisadores acadêmicos em filosofia, mas que já há alguns anos patina na mesmice e no “colocar o rabinho entre as pernas”.

Isso pesa contrra a instituição ou pesa contra o Brasil?

Certamente os filósofos autênticos que vieram a se increver no evento poderão dizer: “ah, tanto faz isso, não me interesso por questões institucionais”. Sim, muitos dizem isso. Todavia, agem de modo errado. Pois se a filosofia acadêmica tem um peso no conjunto da filosofia no Brasil, então ela deveria ter cara de filosofia autêntica. Mas, na medida em que a entidade, na sua direção, é apenas fachada para pessoas do poder – e poder aí na “oposição” e na “situação” -, e tudo se repete como sempre, sem liberdade de crítica e sem ousadia, como que isso não irá marcar os contornos da filosofia no Brasil?
A pergunta central é esta: pode haver filosofia e, portanto, pensamento independente e crítico se as instituições que tentam controlar a filosofia acadêmica e, de fato, possuem controle mesmo sobre ela, são montadas pelo poder e não pelo conhecimento? Ou, mas especificamente: pode uma instituição ser filosófica se o poder político e institucional está mais presente que o poder do saber?
Há pessoas que defendem a tese de que sim. Há os que tomam a ANPOF hoje como tendo duas instâncias. Ou seja, uma coisa seria a capa da ANPOF e as ligações de tarefeiros e testas de ferro com dois ou três representantes da situação e a oposição políticas, outra coisa seriam os GTs e o envolvimento destes com a real produção de textos que respeitariam a investigação livre em filosofia. Quem pensa que esse modelo pode funcionar, salvando certa independência, pode não estar certo. Não creio que as coisas possam ser assim separadas. Creio que a direção da ANPOF tem poder demais sobre os GTs na medida em que se faz correia de transmissão do poder que domina hoje o governo e a oposição.
Os mecanismos de fomento atuais determinam quem vai abrir a ANPOF. Determinam o tom do que seria a voz oficial da entidade. Duvido que um filósofo atual pudesse falar na ANPOF, a partir da filosofia política e da ética, por exemplo, sobre o “mensalão” do PT ou sobre a privatização indecorosa de FHC. Ou seja, o que foi feito em termos de apoio à liberdade científica na SBPC nos anos finais da Ditadura  Militar não tem espelho no que se pode fazer hoje na ANPOF. No passado os cientistas puderam mostrar independência. No presente os filósofos são os que mais abaixam a cabeça aos dois grandes poderes políticos, o governo ( o PT e aliados) e a “oposição consentida” (o PSDB e aliados). É claro que isso passa por mecanismos de encantamento de passarelas pessoais. Um testa de ferro na presidência da entidade pode não estar nem aí para PT ou PSDB, o que importa a ele é ser amigo dos que ele falava mal, pois importa ter, na velhice, um carguinho. Os que aparecem para falar na abertura do evento e nas mesas principais podem também estar sob a mesma batuta da falta de independência que atravessas desjos pessoais de reconhecimento, uma vez que os cabeços brancos chegam (ou chega a época de nenhum cabelo) e aquilo que se queria na juventude se realizou às avessas. Sabemos que há os que, ao final da vida, deixam de ser laicos e tentam uma conciliação com o além. Sabemos que os guris revoltos do passado podem bem, agora, achar que o Presidente Lula é aclamado e o FHC é o que propiciou tudo isso com o Real. Cada filósofo que deixou de filosofar e até mesmo deixou de ser professor de filosofia pode encontrar, para si, uma justificação para ser o que é, ou testa de ferro ou papagaio da vida não transformada.
Mas o triste dessa história é que o Brasil não tem mecanismos de associação de filósofos para além dos oficiais. Então, muitos filósofos que tem vocação para o discurso independente, acabam por alimentar a ANPOF, mesmo quando esta entra pela via não filosófica.
O que faz com que as coisas sejam assim no Brasil é o atrelamento da filosofia ao poder estatal, atrelamento este que já vinha ocorrendo com a ciência. Os mecanismos de fomento não só regulam a vida dos cursos de pós-graduação, mas agora, também, da graduação. A CAPES hoje não é mais só a polícia política do regime para a pós-graduação, é também a polícia política – incompetente – para as licenciaturas. E o pior: possuem o Qualis, que nada mais é que um index da Nova Inquisição. As revistas que não são amigas do rei são consideradas não qualificadas e, então, os programas de pós-graduação a elas ligados não ganham verbas. Com isso, o próprio pesquisador vê sua carreira limitada.
Passei por tudo isso e vi a involução da liberdade de pesquisa no Brasil, principalmente a partir dos anos noventa, e senti na pele como funciona toda essa parafernália de promiscuidade entre poder de situação, poder de oposição, reitorias e coordenações de programas de pós-graduação, associados a entidades como ANPOF ou ANPEd ou ANPOCs etc. Passei 35 anos no ensino brasileiro, em todos níveis, em todo tipo de escola, desde a escola primária rural até o ensino superior de todo tipo. Só quando trabalhei no exterior é que vi que nosso sistema é o mais atrelado ao estado e o mais censurado que existe no mundo. Mecanismos policialescos, como os de fomento, eu só vi igual no Leste Europeu, no comunismo, ou no Iraque sob Sadam.
Fala-se muito da ligação entre aparato industrial-militar e universidades nos Estados Unidos. Todavia, é visível que as áreas filosóficas de “humanidades” são respiradouros. Na Europa e nos Estados Unidos, quando os cientistas apoiaram guerras recentes, foram os filósofos que falaram contra seus respectivos governos. Uniram-se aos artistas nisso. No Brasil, toda nossa filosofia tenta se tornar “técnica”, para que possamos falar da democracia em Atenas sem ter de tecer uma crítica à democracia no Brasil. Podemos ficar falando da linguagem em Wittgenstein, contanto que não falemos dos jogos de linguagem que são utilizados por governo e oposição para nos silenciar.
Não posso como filósofo me calar. Não vou por preço nenhum me calar diante dessa pouca vergonha da “filosofia” oficial brasileira.
Minha ida na reunião da ANPOF este ano é especial. Vou com a coruja no peito, certamente, mas se preparem para ver que a minha coruja estará desenhada de forma especial. Ela será o retrato real da ANPOF, e não uma forma abstrata e mística.
Falarei no GT-Pragmatismo, e meu tema será sobre “O esquilo medieval de William James”. Mas o espírito que evocarei ali será o da filosofia, não os dos testa de ferros e lambe-botas. Convido a estarem comigo. Sei que a partir deste artigo, a polícia política da ANPOF começará a me cercear mais do que já faz. Mas o problema deles é que não dependo deles e não dependo do empreguinho público e privado deles. Eu sou independente. E isso faz com que eu possa estar de bem com a filosofia.
 
Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo.
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