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Para além de Giannotti e Chauí

04/10/2008

A época dos filósofos brasileiros atrelados ao Estado precisa passar. Mas não é só por isso que deveríamos fazer filosofia política, voltada para os problemas do Brasil, para além do perspectivado pelos professores de filosofia José Arthur Gianotti e Marilena de Souza Chauí. Antes que ultrapassá-los quanto ao comportamento que adotaram para fazer política, o bom seria que pudéssemos ir além do que defenderam em suas teses a respeito da política brasileira.

 

Ficar com eles é repetir um dilema que se tornou cansativo. Um dilema que foi bem avaliado pelo personagem do delegado, em Agosto, de Rubem Fonseca. Em determinado momento perguntam para o delegado se ele é getulista ou lacerdista, ao que ele responde: “mas só existe essas duas merdas?” Pois é esse nosso dilema cansativo: ou a UDN elitista, de um lado, acusando o varguismo de corrupção – e não raro acertando – ou o varguismo populista no Estado, mostrando que a UDN não pode ganhar eleição porque não consegue melhorar a vida da população mais pobre. Populismo e elitismo que, para os intelectuais, na linguagem de hoje, é lido como “esquerda” versus “neoliberalismo”, é a meu ver uma dicotomia carcomida.

 

Giannotti e Chauí estiveram apoiando seus amigos respectivos, Fernando Henrique e Lula, mesmo quando ambos agiram de modo eticamente errado, por entenderem que tais presidentes estavam acima da ética. Estavam governando para o Brasil que queriam ver. Que Brasil? Para eles, seria um Brasil melhor e, portanto, esses seus amigos deveriam ser perdoados por pequenos pecados, mesmo que os pequenos pecados, uma vez avaliados por terceiros, fossem realmente grandes.

 

Giannotti apareceu na TV, na primeira vitória de FHC para Presidente, para dizer que o sociólogo iria governar com a esquerda, segurando em um braço a direita, e assim fazendo a política do “pêndulo”, que Vargas teria feito. Com isso FHC conseguiria o que era a honra e o trunfo do PSDB: a governabilidade. Feito isso, haveria a luta pela continuidade da estabilização da moeda, as reformas necessárias e, então, o país como um todo seria beneficiado. Ou adotávamos tal projeto ou iríamos amargar o pior. O pior era o PFL sozinho. E o pior mesmo, ele vociferava, era o PT sozinho. O PFL sem o comando de FHC seria a volta total ao coronelismo de direita, e o PT no governo seria a “crise de governabilidade”. Foi assim que Giannotti profetizou.

 

Marilena Chauí fez algo parecido, e não com menor tom religioso. Quando da crise do “mensalão”, com Lula dizendo na cara de todos nós, como se fôssemos idiotas, que ele “não sabia de nada”, Chauí defendeu o PT dizendo que ou cerrávamos fileiras em torno de Lula ou teríamos o “golpe”. Justamente ela, que tanto escreveu contra o populismo, começou a evocar fantasmas dos anos 50 e início dos anos 60. Reeditou a idéia do eterno golpe de Lacerda contra o PTB, agora batizado de PT. Tudo bem, talvez até estivesse correta sobre o golpe. Afinal, o próprio FHC retrocedeu diante de pedido de “Impeachment” de Lula, quando verificou que o PSDB não tinha apoio popular.

 

Aliás, podemos ver Giannotti como não equivocado ao dizer que a governabilidade de FHC iria deixá-lo levar adiante a estabilidade da moeda; assim, também poderíamos ser mais condescendentes com Chauí, e então diríamos que ela não tinha outra saída a não ser argumentar de modo a não trair o seu amigo Lula. É louvável. Mas o problema de Chauí e que se esqueceu de voltar sua crítica para o próprio PT. Deveria ter visto que o PT havia se transformado exatamente no partido populista que seu discurso quis, durante vinte anos, convencer a nós todos que ele não era. O PT queria ser uma “nova esquerda”. Mas, ao final, não se mostrou nada novo. Não repetiu o PCB, mas repetiu Vargas e o PTB. O que seria pior?

 

É interessante notar, também no caso de Chauí, que ela tenha evocado a mesma palavra de Giannotti: “governabilidade” – era isto que a “direita”, então no PSDB, estava tentado inviabilizar para barrar as “forças progressistas”, segundo seu discurso. Giannotti e Chauí se copiaram. E seus amigos, talvez para se mostrarem homens de bom humor, os colocaram em cargos decorativos no Conselho de Educação.

 

Não vamos aqui alinhavar o quanto esses dois discursos, de Giannotti e Chauí, nada tinham de filosóficos, em um sentido forte da palavra. Mas vamos lembrar que, batizadas com o nome de filosofia, certas peças ideológicas podem realmente sobreviver legitimamente, pois não são inteiramente ideológicas. Há verdade no que Giannotti e Chauí disseram. E há algo de filosofia nisso. A ideologia engana, mas não por gerar uma mentira completa. O problema todo é que, tendo vindo tais discursos da boca de professores de filosofia que, inclusive, não raro, se colocam como “filósofos brasileiros”, esses discursos acabaram por vincular o pensamento filosófico voltado para problemas brasileiros a tais teses carcomidas. Fora dos livros, nos artigos jornalísticos – que também são espaços de construção de nossa filosofia política – esses dois discursos foram amarrados e oferecidos com a autoridade de quem escreve livros.

 

Ora, no frigir dos ovos, pelas concordâncias e discordâncias, tanto Chauí quanto Giannotti nos apresentaram um quadro que, em determinados momentos, afirmava: nada há no horizonte, ao menos no momento, senão a velha luta entre populismo como sendo a opção da esquerda e elitismo lacerdista como sendo a opção da direita. E como dizia Theodor Adorno, às vezes a realidade é tão crua que só a teoria mais endurecida e pobre, a mais crua, reproduz a realidade. É o caso. Em determinados momentos, Chauí e Giannotti acertaram antes pelo que não quiseram ver do que por aquilo que viram. E parece que essa dicotomia que apontaram, existe mesmo, ainda que não do modo que apontaram.

 

De fato, o que temos hoje no horizonte senão algo que lembra a velha luta dos anos 50 que, enfim, os militares em 1964 quiseram extirpar?

 

Estamos em situação diferente? Temos o PSDB lacerdista acovardado diante de 80% de preferência popular de Lula, o Vargas sem diploma. Ora, como podem nossos professores de filosofia aderir ou ao projeto de Giannotti ou ao projeto de Chauí e não conseguirem, como autênticos filósofos, falar algo de diferente? Não é possível que nossa filosofia não possa dizer algo como o delegado de Agosto.

 

Estabilização da moeda era o forte de FHC. Mas, agora, restou ao PSDB o discurso lacerdista, cada vez mais enfraquecido, sobre a corrupção de Lula. E, de vez em quando, FHC tem de reaparecer para defender a privatização que levou adiante. Seu amigo Giannotti não tem mais servido de escudeiro? Do lado de Lula, o que há de concreto é que ele se vangloria de elevar o padrão de vida do brasileiro, mas, de fato, o que ele fez foi ampliar a renda de uma parte da pobreza, sem cuidar dessa população. A qualquer momento, uma pequena crise financeira ou mesmo uma alteração tecnológica pode jogar essa população de volta ao campo dos excluídos. Além disso, o mecanismo de transferência de renda via bolsa é limitado e, pior, cria vícios para a democracia que reproduzem os do paternalismo do trabalhismo do passado. Sua amiga Chauí está quieta, não vai mais proteger Lula? Ele não precisa, por estar com Ibope alto? Ou bateu alguma dor na consciência da professora de ética?

 

Assim, o que restou das obras de FHC e Lula não nos levam ao otimismo. Mas o que restou da apologia de ambos, feitas pelos seus ideólogos, Giannotti e Chauí, é bem pior.

 

Agradecemos FHC e Lula pelo que acertaram em seus governos, mas não sei se podemos fazer o mesmo em relação aos seus ideólogos. Giannotti e Chauí realmente poderiam se aposentar de vez. E agora, seria a hora exata, pois é também a hora de aposentadoria de FHC e Lula. Pois não dá mais. Os discursos e atos dos quatro deixaram de ser úteis. São reiterativos, cansativos e, enfim, o que tinham de falso está agora claramente estampado (e o de verdadeiro também, como acentuei).

 

Essa dicotomia bem qualificada pelo delegado de Rubem Fonseca esgotou suas possibilidades. A filosofia política brasileira deve projetar novo horizonte, e a prática política brasileira precisa ser empurrada para algo que vá adiante disso. Precisamos começar a pensar na infra-estrutura do país seriamente, a olhar de modo menos fantasioso para a qualificação intelectual do brasileiro, a adotar uma visão menos jocosa para a preservação de nosso solo e, enfim, a construirmos um projeto de aprofundamento de nossa democracia. Esses são elementos que ficaram relegados ao último plano por FHC e Lula, e mais ainda pelos intelectuais que os defenderam.

 

Ora, podemos perdoar FHC e Lula por isso. Fizeram “o que deu”, dizem alguns. Mas não podemos ficar mais com Giannotti e Chauí como filósofos oficiais da oposição e situação, pois eles não estão fazendo “o que dá”, eles pensam aquém do que precisamos pensar. E a questão não é criar indisposição contra eles dois, mas é a de ver que o modo como eles se portaram como intelectuais estava mais preso aos anos 50 do que inicialmente imaginávamos ou podíamos enxergar. Em outras palavras: o ideal seria não contarmos mais com filósofos como filósofos oficiais.

 

Não que a filosofia deva “bater em retirada” e voltar para a academia. Muito menos deveríamos falar aos jovens que há algum mérito em colóquios e encontrinhos da ANPOF que já não exista na própria sala de aula regular. A filosofia deveria munir-se de uma palavra chave para contribuir daqui para diante com a política brasileira: independência de pensamento.

 

Que tal pensarmos a filosofia política voltada para o Brasil segundo uma revisão de prioridades? Ou o passado não passa?

 

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

CEFA – Centro de Estudos em Filosofia Americana

 

Livro novo do filósofo

 

 

One Comment leave one →
  1. thiagoleiteribeiro permalink
    05/10/2008 21:19

    Poderíamos ter alguns projetos que não vislumbrassem a interferência política e eles poderiam ser simples, enxutos e objetivos porém obrigatórios. Por exemplo:

    – Meta de oferecer educação em tempo integral para todos os jovens;

    Qualquer que fosse o projeto político do partido A ou B ele poderia ser feito mas, antes de qualquer coisa, esse ponto prioritário seria obrigatório.

    Thiago Leite

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