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Jogos perigosos

24/10/2008

Aristóteles e Phyllis, na visão medievalO “caso Eloá” não cabe em rótulos como “violência contra a mulher” ou “violência entre jovens”. Muito menos no rótulo “parte da cultura machista”. Esses rótulos podem dizer algo de verdade, mas quando se tornam ditatoriais mascaram tudo e tiram o foco do problema.

De um lado, o desfecho do caso deveria ser analisado levando em consideração a politicalha na administração do seqüestro, que a partir de determinado momento foi conduzido de modo amadorístico e ridículo; de outro, o caso precisa de um “banho de Nietzsche”. É neste segundo ponto que me atenho aqui.

Nietzsche queria que parássemos de moralizar a tudo, de modo não só a podermos encarar a vida e, principalmente viver a vida. O que ele queria é que fizéssemos um esforço em favor de uma compreensão ética realista.

Ora, no caso de Eloá – que felizmente teve cobertura da imprensa – não vamos entender nada se ficarmos nos rótulos acima, que mostrei, uma vez que todos eles são moralizantes e moralistas. Eles não querem encarar a vida, querem normatizá-la antes mesmo de alguém poder contar o que ocorreu no episódio em questão. Todavia, se não formos covardes e pudermos jogar um olhar sobre nós mesmos, poderíamos dar passos melhores no entendimento do drama.

A primeira coisa que devemos aceitar é que toda relação e, principalmente, toda relação humana que envolve sexo, por mais travestida e vestida de amor, é uma relação de amor na medida em que é uma relação de poder. Podemos aceitar isso sem qualquer dogmatismo. Quando investigamos a nós mesmos e recordamos as satisfações que tivemos e temos no relacionamento amoroso, se formos perspicazes, saberemos tirar as conclusões corretas. Caso tenhamos instrumentos analíticos para tal, e coragem, então nós conseguiremos compreender isso.

Bom, se assim fizermos, veremos que o poder que é inerente ao amor se exerce de ambos os lados. Ninguém é mais ou menos poderoso a priori. A relação é de poder mesmo, de fato; e o aparentemente mais fraco desempenha seu papel no âmbito de ter controle e exercer poder tanto quanto o que se mostra mais forte.

O gozo sexual é um prazer e, na nossa sociedade, é felicidade. Mas ele não se exerce “fisicamente” e de modo unilateral. Ele é social e tem dupla mão. Ele é social, pois temos mais prazer com determinados parceiros e não com outros independentemente da beleza deles ou até mesmo de desempenhos sexuais atléticos. Ele tem dupla mão: cada parceiro quer ter satisfação no sexo e no amor, mas essa satisfação implica em ser elogiado pelo outro, no sentido do outro admitir que se está podendo dominá-lo na medida em que lhe deu prazer. Por isso mesmo há a clássica pergunta “foi bom para você?” Essa pergunta pode ser assim traduzida: “foi bom para você?”, “pergunto, pois preciso saber se tenho ou não controle sobre você”, “quero saber se fui tão bom na cama a ponto de dominá-la fora da cama”. Esse é o jogo. Quando lemos o “foi bom para você?” junto com esses adendos que coloquei, entendemos o jogo que é o amor.

Quando paramos de querer encontrar “amor desinteressado” onde o que há é amor verdadeiro, ou seja, simplesmente amor, nós podemos entender o que está de fato na trama de uma relação como a de Eloá e Lindenberg. Fora disso, moralizaremos apenas. E ficaremos de fora.

Como qualquer namorado, Lindenberg queria ter o controle de Eloá. Queria exercer poder. É assim que a relação de afeto se manifesta. Quem joga o jogo sabe disso. Ambas as partes sabem disso. Isso tem graus, e em graus aceitáveis pelas duas partes, o que ocorre é o namoro normal. Faz parte do gozo, do sexo, do namoro e do amor esse pacto de recíproco uso do poder. É a parte principal do relacionamento amoroso. Portanto, o poder não era o de Lindenberg sobre Eloá somente, mas algo recíproco. O jogo do poder implica não só no exercer poder de modo unidirecional, mas implica, também, na criação de tensão, disputa, para que o poder possa ser retomado por ambos os parceiros. Não é à toa que usamos a expressão “jogo de poder”. Pois, de fato, é um jogo. Há uma disputa.

Eloá queria participar desse jogo. Participou. Participou no namorou e, depois que disse não querer mais o namoro, continuou participando. E por isso, mesmo ameaçada, não se fez de boazinha, reagiu e provocou. Ou seja, continuou no jogo de poder e, portanto, não encerrou o namoro. Não adiante dizer para uma pessoa “não quero mais”, não é assim que ocorre os pontos finais em um jogo. Aliás, no limite, em nenhum momento acreditou que poderia ser ferida de verdade, pois o jogo do poder que está imiscuído no sexo e no namoro tem essa característica: ele é um jogo do qual não se sai fácil, e ele não pára simplesmente porque alguém quer pegar a bola e levar para casa, e, principalmente, ele envolve lances dramáticos. Aliás, na adolescência esse jogo aparece de modo aumentado. Na adolescência ele adquire uma cara limpa, de pouco disfarce. O chamado “jogo de ciúmes” é um momento desse jogo do poder. Depois, mais tarde, dizemos que amadurecemos, e que o amor não envolve mais o que os jovens chamam de “fazer joguinho”. Mas não é verdade. Durante toda a vida o namoro, o sexo e o amor são “joguinho”, onde o “joguinho” significa “jogo do poder”. Ele se torna menos volumoso com a idade, mas ele nunca morre. Se ele morre, morre o próprio amor. As pessoas querem o controle do outro através de mecanismos que não impliquem em fios de marionete, fios visíveis. Os fios devem ser invisíveis. Por isso o jogo é ora brutal ora sofisticado. Quando um dos parceiros não quer mais jogar, ou quer jogar de maneira bruta, querendo levar a bola para casa quando o jogo ainda não chegou ao seu final, então a tendência do outro é acreditar que precisa reclamar, bater o pé, isto é, começar a jogar o jogo para fora do campo. E ambos sabem que o jogo vai continuar, que vai para fora do campo. Ambos sabem bem disso.

Quando assumimos uma visão realista das relações de namoro, e não negamos de ter participado de jogos assim, podemos então entender melhor o ocorrido no apartamento de Eloá, no cárcere.

Lindenberg poderia não ter atirado se as coisas tivessem sido conduzidas no sentido de fazer Eloá ceder, falar que ia voltar com ele e, mais ainda, elogiá-lo como homem. Mas ela não foi ensinada a fazer isso. Por sua vez, Lindenberg sabia bem que os amigos lá fora estavam dizendo que ele era “gente boa” e que não iria atirar. Desafiado por Eloá e diminuído como homem, não sobrou nada para ele a não ser se preparar para atirar. Com a invasão ou a iminência dela – tanto faz – atirou. Tinha de atirar, pois o jogo não havia acabado. As relações de poder não haviam sido interrompidas. Eloá as alimentou. Nayara, então, nem se fale. Fascinada pelo jogo que, enfim, também a incluía (o jogo de namoro não envolve só dois, mas, como todo jogo, envolve também a platéia), se desesperou no momento que viu que estaria não só de fora da TV, mas, pior, de fora do jogo. Voltou para a cena dramática não só por amizade, mais pelo fascínio que o jogo do poder que se apresenta no âmbito do namoro, do sexo e do amor exerce em todos nós, e mais ainda nos jovens.

Quando começarmos a aceitar um pouco mais Nietzsche, e pararmos de moralizar tudo, poderemos levar a sério o que escrevi acima, e então saberemos lidar com tais casos. Um bom negociador levaria isso em conta. Talvez nós, filósofos, devêssemos treinar negociadores. Do modo como agem, tanto quanto os que comentam e assistem, eles também moralizam os eventos e atropelam o que está acontecendo debaixo de seus narizes.

© 2008 Paulo Ghiraldelli Jr. , filósofo

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One Comment leave one →
  1. thiagoleiteribeiro permalink
    25/10/2008 3:17

    Nessa relação me pergunto a quem ‘esses’ queriam vencer? Se for para obter o título ‘do mais poderoso’ então a dependência da vitória pode terminar se tornando uma necessidade viciante e empobrecedora porque depende de dois fatores:

    – O(A) parceiro(a);
    – E a vitória sobre ele(a).

    Sem o outro não há vitória e sem vitória não há satisfação, não há gozo. A auto-estima fica completamente dependente dessa relação de poder. Ao se obter uma derrota fica-se abalado e se essa batalha vencida significar o fim do relacionamento então o grau de resentimento pode ficar alto. E no mapa mental em que vivemos ninguém tolera ficar por ‘baixo’. Dessa forma vale tudo pra manter a posição de ‘respeito’.

    O sujeito abraça essa visão e se coloca assim em todos os aspectos da sua vida seja no aspecto profissional, afetivo, social e etc. No fim das contas ficamos num ciclo vicioso que termina nos jogando no mesmo lugar com a diferença que chegamos na estaca zero machucados e abalados.

    Um provável ponto que pode alterar profundamente esse fator é querer superar a si mesmo e não o outro. Superar a si não é competir consigo mesmo mas sim reconhecer-se com se realmente é. E procurar superar os próprios níveis de inteligência e elevar o volume dos sentimentos ou instintos suaves, agradáveis e alegres. É observar no outro o que ele tem de mais aprimorado e ver aonde se pode chegar.

    A auto-superação e a auto-aceitação aumentam o nosso nível intelectual e liberam as ondas afetivas que podem gerar algo como uma espécie de grande homem. Não estou querendo copiar Nietzsche por que nem sei se o que li da obra dele eu realmente entendi mas creio que seja poraí.

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