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Depressão e Filosofia

29/10/2008

O que pode fazer você feliz? Você sabe o que é ser feliz? Algumas pessoas sabem, mas muitas não sabem, mesmo tendo tudo para não se preocuparem. Estas últimas são os chamados genericamente de “depressivos”. Tudo pode dar certo na vida dessas pessoas, mas elas não conseguem curtir o êxito, elas estão sempre “de baixo astral”. Isso tem solução?

Não tinha, até pouco tempo. Hoje há solução sim. Podemos ser felizes hoje, ainda que tenhamos que relativizar um pouco o que queremos nos referir com a palavra “felicidade”, dado que no passado mais distante a felicidade não era bem o que chamamos hoje por esse termo.

Os gregos antigos não tomavam a felicidade como nós a tomamos, como um sentimento subjetivo. Eles a tomavam como uma relação que se estabelecia com a cidade, e que indicava a felicidade no seu sentido de prosperidade – eudaimonia. Avaliar alguém feliz, isso era algo para ser feito após a vida dessa pessoa, não a partir de “momentos” ou “emoções”. Inclusive, tal avaliação levaria em conta o destino dos herdeiros e uma série de outros elementos sociais. Nós modernos tomamos a felicidade como um “estado da alma”. E nós, do século XXI, temos cada vez mais visto que podemos falar da felicidade quase que como um estado que chamaríamos de físico. E cada vez mais as pesquisas científicas apontam para o cérebro e, nele, para o neurotransmissor chamado serotonina como sendo o elemento que pode nos dar ou tirar felicidade.

Ou seja, ao longo dos séculos, fomos transferindo a felicidade do âmbito da comunidade e da vida social e política para o âmbito psicológico. E agora, demos um passo a mais: trouxemos a felicidade para o âmbito do corpo.[1] Sendo assim, começamos a querer antes tomar remédios para a reposição de serotonina que cair nos braços de um psiquiatra ou um psicólogo, que nos roubaria tempo e dinheiro. Ao longo do tempo escapamos do filósofo, do padre, do psicólogo e vamos escapar também do médico, de certa forma. A única dependência que ainda temos dele é pelo fato que ele controla as receitas de paroxetina – mas isso não vai durar muito tempo; talvez os médicos consigam outra fonte de renda, capaz de cativar os mais ricos, deixando então a classe média consumir paroxetina sem receita. Basta conseguirem uma droga mais cara, que possa compensar a perda do monopólio sobre o tratamento com paroxetina, e então pode ser que tenhamos a paroxetina genérica liberada de receita.

Não estamos errados em agir assim, buscando solução em uma droga. Não temos que fechar os olhos para a ciência de nosso tempo. E a filosofia ou, melhor dizendo, a boa filosofia é aquela que não nos impede de usar da ciência de nosso tempo. Além disso, apesar de nossa expectativa de vida ser maior hoje em dia, nós avaliamos que a vida é curta, e se achamos isso, não vamos esperar mais tempo para termos algum prazer e escapar da depressão. Terapias são demoradas demais e possuem um custo emocional que os remédios atuais, as paroxetinas, não requisitam.

Desse modo, se temos síndrome de pânico, tristeza aguda infundada, perda de sentido da vida, sono em demasia, alterações de humor que vão da euforia à depressão ou simplesmente ampliamos demais os problemas e nos tornamos monotemáticos, tudo isso indica que devemos procurar um clínico geral e passar logo a consumir algum tipo de droga baseada na paroxetina. Uma semana depois e a maioria dos sintomas deve desaparecer. Caso isso não ocorra pode-se tentar mais um pouco. Mas é difícil não dar certo.

Tudo isso é do âmbito prático. Mas há pessoas que não gostam simplesmente de melhorar e até sarar. Elas querem saber a razão de terem de sarar dessa forma, pela via da droga, e não pela via da terapia. Pessoas assim são difíceis de tratar. Mas, enfim, é possível explicar para elas a razão de não haver diferença, a não ser de tempo, entre uma terapia “freudiana” ou coisa parecida e o remédio. A razão é simples: caso possamos aceitar a tese de filósofos como Donald Davidson[2], que mostram que tanto a linguagem quanto os produtos químicos atingem o que somos, ou seja, organismos, funcionando como causas (que não se diferenciam de razões) para nossas alterações, então, tudo fica mais fácil de ser entendido.

A idéia não é difícil de compreender: somos organismos que podem ser atingidos por palavras ou por químicas, e não cabe aqui falar em interação entre “físico” e “psíquico”, mas apenas aceitar que “físico” e “psíquico” são nomes para falarmos da mesma coisa, ou seja, de nós, os organismos que são suscetíveis a drogas e a palavras. É claro que isso, na filosofia da mente de Davidson, tem uma explicação técnica. Nesse caso, se vamos enveredar por aí, temos de aprender o que é o “monismo anômalo”, o que é a tese da linguagem como um “órgão da percepção” etc. Isso demanda formação filosófica. Mas, para quem apenas quer tomar pé inicial na explicação, basta saber isso: somos “bípedes sem penas” que reagem a drogas e a palavras, e reagimos a tais coisas quase de um mesmo modo, com transformações de humor.

Ora, podemos então fazer algo que, a meu ver, mutatis mutandis foi tentado por filósofos do período do “helenismo tardio”.[3] Eles procuraram associar dietas com doutrinas, ou dizendo de outro modo: eles procuraram dar razão para o saber que vinha de Alexandria, o saber sobre o corpo, sem descartar o saber que vinha de Atenas, o saber sobre a alma. Foram os filósofos “médicos da alma”. Eles criaram coisas como o “jardim”, no caso de Epicuro, por exemplo. Não se tratava apenas de uma confraria, mas de um local que implicava no trabalho de levar a sério uma dieta, não no sentido de comer de forma nababesca, mas comer bem, isso é, fazer uma dieta que, por si só, sendo o necessário para a satisfação, era prazerosa.

Esse tipo de filosofia parece indicar certa capacidade de perceber isso que hoje a medicina que aconselha a paroxetina faz corretamente; e a filosofia que nos vê como organismos reagentes diante da linguagem e dos remédios, ajuda bem esse tipo de medicina. Eles, esses filósofos antigos, deram menos atenção ao que poderia ser uma distinção entre o corpóreo e o mental, e passaram a tentar a ver o que nos faz reagir bem e o que nos faz reagir mal. Nos termos do vocabulário deles: procuraram tirar o homem do incômodo provocado por inúmeros elementos da vida social que não o deixavam saber aproveitar bem o que é a satisfação; e em nosso vocabulário atual, diríamos: eles tentaram ver em que medida era possível recriar a produção de serotonina, pois com níveis corretos, sabemos aproveitar a satisfação.

Sexo e exercícios parecem ser indutores para a produção de serotonina. Agem como a paroxetina parece agir. Mas terapia e auto-ajuda não fariam o mesmo, ainda que vindas de origens bem diferentes? Talvez sim, se levarmos em conta que em ambos os casos temos provocações com palavras sobre um organismo, e sua reação pode se dar de modo favorável, ou seja, fazendo voltar a produção de neurotransmissores diminuídos por variadas causas.

Bem, é isso. Espero que vocês levem a sério o que digo e tirem proveito. Mas, não se esqueçam: a depressão crônica faz de você aquele que adora ser cuidado, então, quando algo pode tirar você da infelicidade, isso, não raro, pode lhe meter medo. E sabemos bem esta verdade: não são poucos os depressivos que diante da possibilidade de uma cura rápida preferem nem ouvir falar nisso. Ficar feliz é tudo que não querem, pois a infelicidade já teria se transformado em uma propriedade querida, um bem, uma vocação. E ninguém quer perder um bem ou uma vocação. Tirar a depressão de um deprimido crônico pode significar para ele devolver-lhe a liberdade, e uma boa parte de nós teme a liberdade.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

Portal Brasileiro da Filosofia www.filosofia.pro.br

Blog www.ghiraldelli.pro.br

Rede social: http://ghiraldelli.ning.com

 


[1] Ghiraldelli Jr., P. O corpo. São Paulo: Ática, 2007.

[2] Ghiraldelli Jr., P. O que é pragmatismo. São Paulo: Brasiliense, 2007.

[3] Ver: Ghiraldelli Jr., P.  História da filosofia. São Paulo: Contexto, 2008.

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One Comment leave one →
  1. thiagoleiteribeiro permalink
    30/10/2008 16:01

    Segundo entendi nesse último parágrafo a depressão seria uma moeda com a qual se paga para receber cuidados e o medo de perder isso faz com que o depressivo se mantenha na sua situação. Se for isso achei perfeito senão, por gentileza, me explique…..

    Além disso tem um ponto que pode pesar a respeito da cura da depressão. O tempo em que se está nela. Se o sujeito passa muito tempo ao lado dela a ponto de conviver com ela durante anos, por exemplo, a doença pode se tornar um espécie de companheira afetiva. Ou seja, ele vive com ela mas não conhece ou não lembra de uma realidade diferente da que ele está vivendo e por esse motivo não quer ou não sente vontade de mudar. Vincent van Gogh comentou: “A tristeza não tem fim”.

    E como ‘A Tristeza não tem fim’ e o sujeito está muito tempo ao lado da depressão ele simplesmente se rende e pode começar a gostar dela. E quem vai querer largar o que se gosta?

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