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McCain, herói

06/11/2008

Obama e MacCain

Obama e MacCain

A maioria dos homens que foram ao Vietnã foram heróis. A consciência crítica da nação americana é a consciência mais crítica que conheço. França, Inglaterra e Alemanha jamais alcançaram a capacidade americana de auto-crítica. Nós, então, nem pensar.

 

O volume de literatura que os americanos conseguiram produzir denunciando a si mesmos por erros no Vietnã não existe na história de nenhum outro povo. Nem os alemães fizeram isso com o nazismo. E isso trouxe ao mundo uma impressão errada: a guerra do Vietnã teria sido nada além de um conjunto de crimes de guerra cometidos contra um povo bonzinho que queria liberdade. Mas isso é uma mentira. Uma dupla mentira; e o banho de sangue dos comunistas do norte sobre os habitantes do sul, logo após a vitória, deixou isso claro.

Há uma boa literatura sobre a guerra do Vietnã que é realmente fidedigna ao que aconteceu. Trata a guerra como guerra, e não como um desejo de jovens de não ir para a guerra – um desejo legítimo, com certeza, mas uma forma bastante desviante de entender o que se passou. E o que se passou produziu homens da envergadura moral e da responsabilidade do senador veterano McCain.

McCain não é Bush. E seu único defeito nesta eleição foi o de ser republicano e, portanto, de representar o passado. A visão conservadora de Reagan, na época dele, era o futuro. E realmente deu certo. Produziu pobres, é claro, mas não havia como conseguir outra saída para os Estados Unidos naquela época. Produziu também fôlego para uma América próspera. Mas, agora, os republicanos não possuem mais visão alguma quanto ao futuro.

A visão de McCain é a da América velha, que pertence ao tempo da Guerra Fria. Incapaz de perceber que a Roma Moderna não pode se fechar em si mesma. Além disso, sua noção de que o terrorismo está concentrado nos lugares onde ele não está, beira o ridículo. É claro que o Afeganistão é o local onde estão os terroristas, e não o Iraque e muito menos o Irã. Sua visão econômica é a de proteção dos banqueiros, e não dos cidadãos, e por isso mesmo jamais faria os americanos voltarem ao consumir – e é isso que importa para o mundo, que eles voltem a consumir. Quando eles consomem, nós todos, das províncias da nova Roma, temos trabalho. Quando Roma pára de consumir, todas as estradas do mundo que levam até ela não trazem os cheques de volta. Brasil, China, Índia, Paquistão e Rússia são os maiores prejudicados nisso. O século XXI continua tão americano quanto foi o XX. McCain acreditou que não, e perdeu. Os americanos ainda precisam de um presidente que seja o imperador do mundo, e não o dono de uma só cidade, Roma. O destino da América sobre o mundo ainda está para se cumprir.

Por tudo isso e, enfim, por seus méritos pessoais de carisma e de promessa de que pode enxergar o futuro, Obama venceu. As lágrimas do velho democrata, o pastor Jesse Jackson, são as minhas lágrimas. A história dos Estados Unidos é a minha história pessoal. Cresci esperando os americanos manterem a democracia e a melhorarem, estava ansioso pela vitória de Obama.  Daqui para diante é outra coisa, mas o sabor da vitória, ninguém podia tirar de mim na noite do discurso da vitória.

Agora, vamos tripudiar sobre McCain? Claro que não! Que ninguém ouse manchar um herói de guerra. Os covardes é que fazem isso. Ou os incompetentes. Os que não viveram a história ou não puderam ter escola para aprendê-la, são os detratores de McCain. Não é possível para qualquer um de nós, de esquerda – e eu me considero um homem de esquerda no espectro americano – querer manchar McCain. Quem tinha dúvidas disso e assistiu a fala de reconhecimento da derrota, feita por McCain, saiu dali sem dúvidas. McCain é mais que um herói. Caso não tivesse a visão do passado que mostrou ter no aspecto financeiro e militar, teria tido o dinheiro suficiente – que Obama teve – e ganharia as eleições. Pois é um homem de bem, uma liderança nata, uma pessoa de extrema responsabilidade e patriotismo inauditos.

Ele, McCain, chegou para discursar e viu um público hostil a Obama querer destilar o ódio. Olhou rapidamente para todos. Aqueles rostos dos conservadores americanos, tão marcados pelo ódio a tudo que é “mix”, todos muito brancos, iria explodir ali. Mas McCain com um só gesto impediu. Calou a multidão com um pequeno gesto. Por mais de seis vezes ele pronunciou o nome de Obama, só com elogios e afirmando sua fidelidade ao novo presidente. É certo que o nobre Al Gore tinha feito o mesmo com Bush, quando foi roubado, mas, realmente, no caso de McCain, ele poderia ter deixado a massa ter uma pequena catarse ali. Mas não! Deu-lhes a disciplina do soldado, do herói do Vietnã: antes a democracia e a pátria que os gostos pessoais – é isso que está em jogo. Foi esse o seu recado claro, impedindo as vaias por várias vezes. O recado era para o dia de amanhã: não saiam daqui sem se lembrar que temos um novo presidente e que ele merece respeito, fidelidade e, mais que isso, trabalho nosso, da grande nação.

O discurso de McCain foi mais impressionante que o de Obama. Foi o discurso do cavaleiro que após a batalha cuida de cada um de seus parceiros para que eles não saiam pelas ruas em atos de vingança. É a consciência da divisão da nação. É a consciência democrática em seu mais alto grau. Calar a catarse do companheiro não é para qualquer líder. Só um grande político, um verdadeiro soldado estadista, um herói mesmo, faz tal coisa com tanta energia. Mas, sem precisar de um gesto a mais do que um simples levantar de dedo e um olhar. Impressionante mesmo.

No discurso da vitória, Obama elogiou McCain uma vez. Pronunciou seu nome uma só vez. McCain fez diferente. Sereno e com o semblante descarregado, como o soldado que cumpre sua missão não por disciplina burocrática, mas por convencimento democrático, McCain foi enfático durante as seis vezes que se referiu a Obama, no sentido de mostrar para o público republicano que Obama era o presidente, o presidente sob o qual ele, McCain, iria continuar a ser um bom cidadão americano. Não disse em nenhum momento coisas do tipo “o povo não sabe votar” ou “ganhou o poder econômico” ou “vamos agora fazer oposição e fiscalizar o governo” etc. Toda aquela ladainha ridícula de mágoa que vemos por aqui, não ocorreu. Aconteceu a grandeza – a América no seu melhor. McCain e não Obama acabou me fazendo ganhar a noite ao assistir o desfecho.

Obama reprisou a plataforma de campanha. Todos que o assistiam ele falar eram parecidos conosco, os brasileiros. Ninguém era branco demais ou negro demais. Era um contraste, na tela da CNN, com a “pureza nórdica” do público de McCain. Mas isso tudo se apagou diante da vitória de Obama na medida em que McCain mostrou que ele próprio não era pior que seu eleitorado, mas bem melhor. Muitos rostos do eleitorado de McCain, que a CNN mostrou, dão a impressão clara, inclusive pelas vestimentas, de pertencerem ao miolo americano, o cidadão que não entende direito onde fica Brasília ou Rio de Janeiro. O eleitorado de Obama também não sabe onde ficam essas cidades, pois ninguém em Roma sabe onde fica a Judéia, mas, se contamos a eles, eles ouvem – essa é uma diferença importante. Mas a grande diferença, mesmo, é que o líder dos que não compreendem é um homem de bem. E não saiu derrotado.

Vi poucos políticos com a nobreza de trabalho de McCain. Quero poder escrever isso, mas muito mais a favor, de Obama, nos próximos anos. Ah, só Deus sabe como quero.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

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