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Marx, Wittgenstein e a tarefa da filosofia

09/11/2008

Wittgenstein e MarxMarx passou a vida toda tentando ganhar dinheiro antes para sobreviver que para viver. Wittgenstein nasceu rico, e se desfez da fortuna tão logo que pode. Marx gostava de vinho e mulheres. Wittgenstein não era de beber e não tinha a menor idéia do que fazer com uma mulher. Marx foi jornalista e pensador revolucionário. Wittgenstein não tinha nenhuma aptidão para a política e muito menos pretensão de escrever para um grande público. Marx foi advogado, Wittgenstein se formou em engenharia. Ambos foram filósofos – as grandes figuras de seus séculos. Eles criaram duas novas formas de filosofar. Separadas no tempo por quase cem anos, são elas os pilares da filosofia do século XXI.

Marx foi o inventor daquilo que com os frankfurtianos veio a se chamar filosofia social. Wittgenstein inventou o que conhecemos hoje como a terapia da linguagem, algo não tão diferente da tarefa que Rorty terminou por denominar de redescrição. Voltarei a isso mais adiante. No momento, volto minha atenção para dois parágrafos que dão quase tudo que precisamos para identificar o núcleo das propostas filosóficas desses dois gigantes.

Na introdução à Crítica da filosofia do direito de Hegel, Marx escreve:

Portanto, é tarefa da história, uma vez que a verdade do outro mundo desapareceu, estabelecer a verdade deste mundo. A imediata tarefa da filosofia, que está a serviço da história, é a de desmascarar a auto-alienação em suas formas não sagradas uma vez que a forma sagrada da auto-alienação humana foi desmascarada. Assim, a crítica do Céu se transforma em crítica da Terra, a crítica da religião em crítica da lei e a crítica da teologia em crítica da política.[1]

Na seção 116 das Investigações filosóficas, Wittgenstein escreve:

“Quando os filósofos usam uma palavra – ‘saber’, ‘ser’, ‘objeto’, ‘eu’, ‘proposição’, ‘nome’ – e procuram apreender a essência da coisa, deve-se sempre perguntar: essa palavra é usada de fato desse modo na língua em que ela existe?”

E Wittgenstein complementa, com uma frase que diz o que é sua terapia: “Nós reconduzimos as palavras dos seus empregos metafísicos para os seus empregos cotidianos”.[2]

Inventando a filosofia social, a forma de pensar problemas metafísicos e epistemológicos a partir da investigação social classista, Marx fez de fato aquilo que Cícero atribuiu a Sócrates: desceu a filosofia do Céu à Terra. Todavia, um dos traços metodológicos de Marx se manteve pouco criativo, ou melhor, caiu na vala do tradicionalismo. Tal traço é aquele institucionalizado pela tradição inaugurada por Platão. Marx queria que sua proposta fosse não-metafísica, mas ele não obteve sucesso nisso. Ela possui pressuposições que são da ordem das adotadas pela metafísica. 

A concepção de Marx está voltada para a idéia de que a filosofia é uma crítica e, nesse sentido, deve obedecer uma suposta ontologia da história e, então, tirar véus que estaríamos vestindo em nossos olhos e que estariam nos fazendo não ver o real. Esse é exatamente o esquema do pensamento metafísico: o que vemos não é real e sim ilusório, ainda que seja o existente e o que chamamos de realidade; mas, o real mesmo estaria por detrás do que vemos ou, melhor dizendo, escondido nas palavras e sentenças que utilizamos.

Buscando sair da metafísica, Wittgenstein não acredita que tenhamos que investigar por detrás das palavras e enunciados, e que tudo que é dito é realmente um bom material informativo e, enfim, é tudo o que temos e o que importa. Para desvelar a realidade por detrás das palavras e frases, Marx convoca a filosofia. Para fazer a tarefa da filosofia, que antes visa dissolver os problemas que tentar solucioná-los pela desideologização, Wittgenstein afasta a filosofia e recoloca o que se parece com problemas – justamente os ditos problemas filosóficos – sob um novo prisma: traz a linguagem da filosofia, no qual o problema em questão é dito, para o campo corriqueiro e comum onde as palavras teriam se originado em seus significados e funções.  

O que Marx procura é o real por detrás das aparências. O que Wittgenstein vê é que se não tivéssemos sobrefilosoficado a nossa linguagem, os problemas que temos em filosofia não teriam surgido. Dissolver os problemas é o que faz a terapeuta da linguagem. Neste segundo caso, o ensinado por Wittgenstein, teríamos mais tempo para o engajamento político, exatamente o que Marx queria. Todavia, se seguimos Marx temos de estudar e estudar, teorizar e teorizar, pois acreditando que há algo por detrás das narrativas que são apresentadas socialmente, assumimos a obrigação de denunciar esses mecanismos escondidos. Com isso, há gasto de tempo. Wittgenstein liberta o filósofo disso, e permite a ele concentrar mais energia em outras coisas. Caso Wittgenstein fosse marxista, diria: “ah, estou livre de procurar coisas por detrás dos discursos, isso não vai levar a nada, tenho agora mais tempo para a revolução”.

Talvez a melhor filosofia seja aquela que possa se livrar da ponta de cauda metafísica de Marx, adotando apenas sua filosofia social enquanto uma descrição possível da vida moderna. Mas, para tal, já a estamos tomando como uma descrição a mais e a estamos redescrevendo. Nesse sentido, adotamos também a terapia wittgensteiniana. Jogamos o know how da terapia wittgensteiniana sobre o marxismo, e eis então que conseguimos uma nova filosofia. É isso que tenho tentado fazer ao usar as estratégias redescritivas de Rorty sobre a filosofia social dos filósofos Horkheimer e Adorno.

Não preciso ler Horkheimer e Adorno como homens da “teoria crítica”. Isso os levaria a dizerem verdades muito espaçosas. E, de certo modo, isso seria pouco condizente com o espírito com que criaram os escritos do Dialektik der Aufklärung. Penso que se é mais fiel a eles lendo-os como ensaístas contadores de histórias. Para tal, em vez de tomar o que falam como uma “postura crítica”, que pretenderia desvendar mecanismos por detrás dos fenômenos sociais, penso ser melhor lê-los como escritores que possuem um vocabulário próprio para contar a experiência – ou a impossibilidade dela – na vida moderna. É claro que é uma boa história, mas Adorno e Horkheimer, se acreditarmos no que escreveram no prefácio do Dialektik der Aufklärung, jamais quiseram fazer outra coisa que uma narrativa a mais. Aliás, neste aspecto, a “teoria crítica” era, para Adorno, apenas a versão sociológica de Marcuse e Horkheimer para a filosofia frankfurtiana, que não deveria ser uma teoria.

De certo modo o que tenho tentado fazer em filosofia é justamente isso: desinflacionar a descrição social que Adorno e Horkheimer e outros frankfurtianos propuseram. Para tal, nada melhor que tomar cada um de seus textos como literatura, e não como ciência ou teoria. Para que dizer, por exemplo, que a reificação e o fetichismo são a ideologia e, quando mostramos isso, desvendamos os segredos do capitalismo? Podemos aplicar a terapia wittgensteiniana aí e trazermos as palavras reificação e fetichismo para os jogos de linguagem onde faziam sentido originalmente, corriqueiramente. Ora, aí veremos que reificar é coisificar, é tornar petrificado e morto aquilo que é carnoso e vivo. Podemos pensar então na reificação como um fenômeno que descreve uma série de situações a respeito daquilo que é produto humano, e não só a mercadoria, que então traria a idéia de uma “metafísica do capitalismo” – haveria algo por detrás do capitalismo, a sua ideologia, que teria de ser desvelada.

Quando pensamos a linguagem como Linguagem nós estamos nos reificando e fetichizando a linguagem. Quando pensamos antes na Verdade que no verdadeiro nós estamos reificando nossa capacidade de qualificar sentenças e fetichizando os poderes de determinadas palavras. Ora, e mesmo em uma situação de produção não capitalista, não são poucos os produtos que se mostram capazes de nos dar ordens, e então aparecemos diante deles como objetos e eles como sujeitos. E o próprio sexo, não é necessário uma certa reificação de nossos corpos para podemos entrar bem e sair bem da atividade sexual? E isso nada tem a ver com o capitalismo ou com o que se esconde nele como ideologia. Assim, se aplicamos uma terapia à linguagem de Marx, fazendo as palavras serem desterritorizalizadas para alcançarem seu território inicial, os jogos de linguagem onde faziam sentido antes da sobrefilosoficação marxista, podemos dar um passo no sentido da desinflação metafísica de todo seu vocabulário. Conseguimos então antes uma boa narrativa marxista sobre a sociedade que uma metafísica do modo de produção capitalista.

Podemos fazer o mesmo em relação à teologia da história que está embutida na metafísica do capitalismo de Marx. Todas as sobrefilosoficações de Marx, e que escorregaram para os vocabulários da Escola de Frankfurt poderiam ser desinflacionados. Precisaríamos, ainda, de uma única ajuda para a terapia de Wittgenstein funcionar no seu potencial máximo. Qual? Ora, deveríamos usar a sugestão medieval tão querida de William James: quando encontramos uma contradição, fazemos uma distinção.[3] Isto é, em vez de criarmos a mágica da dialética, criamos aplicamos a distinção e criamos perspectivas complementares. Antes o pluralismo do perspectivismo que a unidade da dialética. Fazendo distinções os paradoxos e contradições perdem sua complicação. Então, é só trazer as palavras para seus jogos de linguagem originais e tudo se torna bem mais claro, fácil; e assim a nossa energia de teorização poderá ser gasta em coisa mais útil. Senão a revolução, a reforma social.

Paulo Ghiraldelli Jr.m filósofo.

http://ghiraldelli.ning.com


[2] Wittgenstein, L. Investigações filosóficas. In: Wittgenstein. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1991, p. 55.

[3] Ver “O esquilo medieval de William James”. <www.ghiraldelli.pro.br>

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4 Comentários leave one →
  1. hilanorc permalink
    28/05/2009 16:01

    Achei interessante o seu texto.

    Mas será que há mesmo alguma maneira de conciliar o pensamento de Marx com o de Wittgenstein? A empreitada de um não seria totalmente diversa da do outro?

    Sempre me pareceu que Marx estava preocupado com as condições de possibilidade da sociabilidade, daí partir das condições sócio-econômicas e de produção, enquanto Wittgenstein estava preocupado com as condições fundamentais da linguagem, de sermos capaz de dizer algo do mundo sem cairmos em paradoxos lógicos, tal como Russel, Frege e outros.

    Afastar a teoria crítica da carga supostamente “metafísica” do marxismo, por intermédio da análise da linguagem wittgensteiniana, não seria o mesmo que isolá-la do contexto social e, por conseguinte, impossibilitar a realização da própria filosofia social? Nesse sentido, a filosofia da linguagem wittgensteiniana, tal como exposta, estaria mais condizente com a ideologia vigente, pois não me parece que o problema estaria no “inflacionamento” do discurso da teoria crítica. Afinal, a realidade social não é complexa?

    • 31/05/2009 1:57

      Não há “conciliação”, há aproveitamento das filosofias para … filosofar.
      Paulo

      • hilanorc permalink
        31/05/2009 10:50

        Entendo, nesse sentido concordo. Creio até que Marx e Wittgenstein, em alguma medida, são complementares e essenciais para a compreensão da realidade humana.

        Mas é que, para mim, não há problema algum no método marxista de análise da realidade humana, ainda que ele conserve a suposta carga metafísica, de Aristóteles a Hegel. A meu ver, isso se dá pelo pressuposto básico do marxismo de que “a dialética é a descrição exata do real” ou da “perspectiva de totalidade” identificada por Lukács.

        Ainda assim, tenho certeza de que Marx tinha plena consciência de que não passavam de modelos abstratos, que objetivavam apreender a unidade lógica primeira que rege o mundo, pois este não é caótico.

      • 31/05/2009 15:53

        Hilanorc, meu caso não é este seu. Eu volto a dizer, não tenho interesse em salada filosófica conciliatória ou não, eu quero apenas filosofar, como filósofo, não como professor de filosofia. Então, não há como não passar por diversos projetos. No caso, esses projetos não precisam ser “conciliados”, eles são instrumentos para o meu filosofar. Caso você pegue os meus livros, você verá essa utilização, sem que com isso seja necessário falar que estou sendo “ortodoxo” ou “heterodoxo”. Entende?
        Paulo

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