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O esquilo medieval de William James

09/11/2008

Esquilo de JamesBicho é o que não falta à filosofia. Os filósofos adoram usar animais para metáforas e exemplos. Não sei quando isso começou. Deve ter sido com Sócrates, que contou que antes de conhecer Platão, sonhou com um cisne. E não podemos nos esquecer que Hegel comparou a própria filosofia à coruja de Minerva. Além disso, sabemos que Marx falou da toupeira como metáfora para a revolução. Quine pegou para serviçal de sua clássica experiência imaginária o coelho. Wittgenstein tem lá a sua figura pato-coelho. E Nietzsche, como não poderia deixar de ser, usou de um zoológico inteiro: ovelhas, ursos, leões e daí por diante. Adorno também: tigres, cachorros e até mesmo caramujos estiveram na sua mira filosófica.

 

Bem, para não ficar por baixo dessa onda, um dos fundadores do pragmatismo, William James, pegou o esquilo. A história é a seguinte, como James mesmo a relata:

 

 

Alguns anos atrás, participando de uma festa campestre nas montanhas, retornava de uma perambulação solitária, quando encontrei a todos ocupados em uma feroz disputa metafísica. O corpus da disputa era um esquilo — um esquilo vivo que se supunha estar agarrado a um lado de uma árvore; enquanto do outro lado, oposto da árvore, imaginava-se estar um ser humano. Essa testemunha hu­mana tenta ver o esquilo movendo-se rapidamente em torno da árvore, mas, não importa quão rápida se mova, o esquilo se movimenta também rapidamente na direção oposta, e sempre mantém a árvore entre si e o homem, de maneira que ja­mais o tem em vista. O problema metafísico resultante agora é este: O homem anda em torno do esquilo ou não? Ele anda em torno da árvore, certo, e o esquilo está na árvore; ele anda, porém, em torno do esquilo? Na ilimitada ociosidade da vastidão, a discussão não havia chegado a nenhuma conclusão. Todos tinham to­mado partido, e obstinadamente; e o número de contadores em cada lado se igualava. Cada lado, quando apareci, portanto apelou para mim para fazer a maioria. Atento ao adágio escolástico de que sempre que se encontra uma contra­dição deve-se fazer uma distinção, imediatamente procurei e encontrei uma, como se segue. “O lado que está certo”, disse, “vai depender do que se entende pratica­mente por ‘ir em torno’ do esquilo. Se se entende passar do norte dele para o leste, então para o sul, então para o oeste, e então para o norte dele de novo, é óbvio que o homem vai em torno dele, pois ocupa essas posições sucessivas. Se, porém, ao contrário, entende-se que primeiro está em frente a ele, então, à sua direita, então atrás, então à esquerda, e finalmente, de novo em frente dele, é completa­mente óbvio que o homem deixa de ir em torno do esquilo, pois, pelos movimen­tos compensadores que o esquilo faz, mantém o seu ventre voltado para o homem todo o tempo, e as suas costas voltadas para o lado oposto. Faça-se a distinção, e não haverá ocasião para qualquer disputa posterior. Os dois lados estão ao mesmo tempo certos e errados, de acordo com o que se conceba em relação à locução ‘ir em torno’, em um sentido prático ou em outro.”

Embora um ou dois dos disputantes mais inflamados dissessem que minha resposta fora uma evasiva, argumentando que queriam não subterfúgios ou dispu­tas escolásticas, mas uma definição honesta da expressão “em torno”, a maioria parecia pensar que a distinção havia decidido o debate. Narro este episódio banal porque é um exemplo peculiarmente simples do que desejo agora falar como sendo o método pragmático.[1]

 

 

Diante de uma contradição (ou aparente contradição), faça uma distinção: eis aí o adágio medieval reensinado a James e a nós pelo esquilo. Distinguir, discernir e perspectivar – quando utilizamos esses três verbos na nossa prática de lidar com a linguagem, fazemos quase tudo que é necessário fazer para resolver problemas de filosofia.

 

Esse procedimento de James pode ser comparado (ou complementado) com o método de Wittgenstein de dissolver problemas filosóficos. Ou seja, o discernimento sobre a polêmica do esquilo fez o problema posto ficar dissolvido. Mutatis mutandis essa é a terapia wittgensteiniana. Na seção 116 das Investigações filosóficas, Wittgenstein escreve:

 

“Quando os filósofo usam uma palavra – ‘saber’, ‘ser’, ‘objeto’, ‘eu’, ‘proposição’, ‘nome’ – e procuram apreender a essência da coisa, deve-se sempre perguntar: essa palavra é usada de fato desse modo na língua em que ela existe?” – E Wittgenstein complementa, com uma frase que diz o que é sua terapia: “Nós reconduzimos as palavras dos seu emprego metafísico para seu emprego cotidiano”.[2]

 

Ora, o que é isso que Wittgenstein propõe senão um específico uso do discernimento, da distinção e, enfim, da perspectivação executada por James?

 

Para que fique claro como é que a distinção de James é, de certo modo, a terapia Wittgenstein, vou citar um filósofo que gosta tanto de James quanto de Wittgenstein. Esse filósofo é Richard Rorty. E, para não fugir da regra, também aqui vamos falar de animais.

 

O contexto da citação está na polêmica de Rorty contra Charles Taylor e John Searle. Ele tenta mostrar a ambos que tudo que podemos fazer é usar de descrições. E Taylor e Searle fazem objeções a isso, pois deveria haver algo que não se presta a “mais uma descrição”. No limite, o que está em jogo é a polêmica sobre o relativismo. Relativismo é um nome que esses filósofos que não levaram a sério James e Wittgenstein adoram usar contra Rorty. O nosso herói pragmatista, aqui, lança mão de alguns animais para explicar seu procedimento de diluição de questões filosóficas. Ele diz:

 

Considere os dinossauros. Uma vez que você descreve alguma coisa como um dinossauro, sua cor de pele e sua vida sexual são causalmente independentes de sua descrição dele. Mas antes de você descrevê-lo como um dinossauro, ou como alguma outra coisa, não havia nenhum sentido na afirmação de que ele está “lá fora” tendo propriedades. O que está lá fora? A coisa-em-si? O mundo? Conte-nos mais. Descreva-o em mais detalhes. Uma vez que você assim faz, mas somente então, estamos em uma posição de falar quais das suas propriedades são causalmente independentes de terem sido descritas e quais não. Se você o descreve como um dinossauro, então podemos falar que a característica de ser ovíparo é causalmente independente de nossa descrição dele, mas a característica de ser um animal cuja existência tem sido conjecturada só nos séculos mais recentes não é. Isto não é uma distinção entre as características “intrínsecas” e as características “meramente relacionais” dos dinossauros. É apenas a distinção entre as relações-causais-com-algumas-coisas-(ovos)-sob-uma-descrição e as relacões-causais-com-outras-coisas-(nós)-sob-uma-descrição .[3]

 

 

O que Rorty diz aqui é simples. Tudo é descrição ou, de certo modo, uma perspectiva. O que temos de fazer é seguir Wittgenstein e tirarmos isso do contexto da linguagem filosófica e trazer isso para a linguagem comum. Uma vez na linguagem comum, seguimos James e fazemos as distinções necessárias. Uma coisa é uma descrição que mostra as relações causais entre os dinossauros e seus ovos, e outra coisa é uma outra descrição das relações (também) causais entre os dinossauros e nós.

 

Em ambos os casos, descrevemos relações causais, todavia, uma descrição, ao ser diferente da outra, nos permite dizer o que pode alterar uma e o que poderia alterar ou não outra. Uma vez feitas essas distinções, estamos no interior do jogo de linguagem correto, que usamos normalmente, e não há mais motivo para falar de coisas fora do campo descritivo, ou seja, coisas em si. Escapamos de vocabulário metafísico, fazemos as palavras voltarem às suas possibilidades. Assim, discernindo, como James, agimos na terapia para sarar da doença da metafísica, como Wittgenstein.

 

Usamos aqui de dinossauros, mas a inspiração era a do esquilo. Mais que isso é procurar chifre na cabeça de cavalo – e eis que terminamos, então, citando mais um bicho.

 

Paulo Ghiraldelli Jr 

http://ghiraldelli.ning.com  



[1] James, W. O que significa o pragmatismo. In: James e Bergson. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1989, p. 17.

[2] Wittgenstein, L. Investigações filosóficas. In: Wittgenstein. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1991, p. 55.

[3] Rorty, R. Truth and progress. Cambridge: Cambridge University Press, 1998, pp. 77-88.

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