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Os Sem-Cachorro

11/11/2008

 

EmiliaMeu primeiro cachorro foi o Banzé. Pequinês, pretinho. Meu segundo cachorro foi o Xereta, pequinês, marrom e branco. Ambos morreram como era costume cachorro pequinês morrer no interior, nos anos 60 – debaixo de carro.

O terceiro cachorro meu conviveu com o segundo. Era um vira lata. Meio boxer e meio fila. Um touro de cachorro. Foi meu parceiro na adolescência. Vivia solto na pequena cidade e, enfim, povoou de descendentes a região toda. O nome dele era Leão. Conhecidíssimo na cidade, imbatível nos atropelamentos. Gentil. Mas preconceituoso, só latia para negro, homem de chapéu e pobre. Quanta vergonha! Mas depois de um tempo, acho que por causa dos ventos americanos do “politicamente correto”, ele parou de invocar com determinados setores sociais. Manteve apenas seu profissionalismo, de latir à noite para intrusos. Embora ninguém soubesse quem era o intruso, pois ele voltava tarde para casa.

O Leão durou muito tempo. Eu fiquei adulto e ele velho. Minha avó teve de conceder a eutanásia para ele. Viveu mais de vinte e dois anos. Atravessou a década de setenta e oitenta. Viu chegar a Anistia e as eleições Diretas para Governador e, enfim, a democracia. Um cachorrão, no bom sentido, é claro.

Meus quarto e quinto cachorros foram um cockier e um poodle. Fêmeas. A poodle está lá na casa da minha mãe, a Luana que virou Bolinha. Era da minha filha e foi rebatizada quando a Paula arrumou uma amiga chamada Luana. A cockier morreu esses dias, era a Emília.

Emília foi criada com gatos e jamais soube se era ou não totalmente canina. Era faminta, gulosa, gorda, mal-criada e espaçosa. Era linda. Branca de orelhas cor de mel e máscara perfeita. Esnobava. Deve ter comido um rato envenenado e não reagiu aos remédios. Os rins pararam e morreu. Foi o primeiro cachorro que não pude enterrar. Tempos modernos: a prefeitura passou e levou o corpo, lá do veterinário mesmo. Triste. Muito triste. Gozado, nunca imaginei que enterrar os mortos era algo tão necessário para o luto bem feito.

Perder um cachorro quando já se é adulto é algo estranho. Quando se é criança, o choro vem fácil, sabe-se lá por qual razão. Ou seja, há razão, claro, que é a morte. Mas não lembramos, hoje, o tipo de sentimento que apareceu no aperto do coração para provocar o choro. Mas a perda do cachorro quando se é adulto tem uma implicação detalhada: todo o tempo da vida dele reaparece não como tempo da vida dele, mas nosso tempo; ele nos devolve não sua vida, mas nossos impasses. O emprego que não deu certo, a mulher que não deu certo, o filho que não liga mais para você ou que até mesmo o odeia. Não sou um nostálgico e sou uma pessoa de sucesso. Uma benção caiu sobre mim uma vez que trabalho exatamente na minha vocação. Mas isso não quer dizer que eu não tenha um passado, e que esse passado não tenha contrariedades. Quando a Emília morreu, por esses dias, ela trouxe todo o passado à tona. Pois ela era a companheira dos infortúnios pequenos da vida.

Fui pai e mãe de meus dois filhos. Emília ajudou nisso. Sem ela, teria sido mais difícil. Ela era atabalhoada, mas sabia bem o que representava. Não posso reclamar, restou a Bolinha. Companheira, a Bolinha adorava ficar embaixo do meu computador, nos meus pés, como cão de guarda. Aquele terrível e poderoso poodle toy cão de guarda! Não fica mais, pois mora na casa da minha mãe – não é o lugar para onde todos os cachorros vão, quando se divorcia e quando os filhos crescem? Eles não deixam os cães para nós e nós não deixamos nas casas das avós deles?

Agora, a Fran, minha esposa, vive querendo uma cachorro; mas não se cria cachorro em apartamento. Ela sabe disso. Cachorro em apartamento é dor de cabeça para donos e para o cachorro. O apartamento fica mal cheiroso, para dizer o mínimo. E o cachorro fica maluco. Hoje em dia um cachorro maluco, o que é bem diferente do velho “cachorro louco”, pode precisar de acupuntura e tratamento psiquiátrico. Ora, eu que não tenho nem carro, para não ter de trabalhar a mais para sustentar a máquina, não poderia trabalhar a mais para pagar médico de cachorro. Nem de gente eu consigo!

São as limitações do tempo e do lugar. Uma nova era. Nessa nova era os filósofos não podem mais ter cachorros. Acabei então descobrindo que faço parte, agora, de um proto-grupo social, os Sem-Cachorro. Mas, durante alguns dias, estarei bem acompanhado. Barak Obama ainda não achou o cachorro ideal para suas filhas. Por enquanto, nós, os Sem-Cachorros, temos até presidente americano no clube. Não é chique? O certo seria Obama convocar a primeira reunião do grupo nos Estados Unidos. Adoraria conhecer a Casa Branca.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, um sem-cachorro.

PS: estranho esquecimento este: tive a Princesa, um São Bernardo, que tive de doar. Acho que a culpa de doar criou o mecanismo de esquecimento. Só agora, ao publicar o texto, me dei conta!

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