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Maurício “Dinamite” Tragtenberg (1919-1998)

12/11/2008

Mauricio

 

[Veja o vídeo aqui!]

“Você leu o Maurício Tragtenberg? Quem? Não sei quem é!” Sim – é isso que tem ocorrido na universidade brasileira. Esta não é a resposta só de um aluno, já a encontrei também na boca de professores. Será que o jovem ministro da Educação, Fernando Haddad, leu Maurício Tragtenberg? Mas já ouviu falar, não?

Daqui a pouco escutaremos a mesma coisa a respeito de Florestan Fernandes. Pois se já ninguém sabe nada sobre Luís Pereira ou Maria Alice Forachi, então não custa nada essa completa barbárie em que vive a universidade brasileira – e a USP não tem conseguido fugir à regra nos cinco últimos anos – chegar até mesmo a Florestan. Mais alguns anos e teremos uma geração inteira de alunos de Ciências Sociais capazes de ler o ridículo socialistóide Boaventura de Souza Santos e não ter lido nada de Fernando Henrique Cardoso ou Francisco Weffort.

Mas volto ao professor Maurício Tragtenberg. Dia 17 de novembro terá se passado dez anos de seu falecimento. Já? Sim! Já! Uma década e um de nossos mais inovadores intelectuais tornou-se um desconhecido. Uma amostra de quem foi Maurício pode ser tirado de um trecho de sua análise, de 1978, sobre a universidade brasileira:

“a política de ‘panelas’ acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve?”[1]

Em 1978 Maurício denunciava o que hoje virou a regra institucionalizada pelo governo democrático: publique qualquer lixo e encha seu Currículo Lattes, ninguém vai ler mesmo, mas você terá uma ajuda de custo em dinheiro e poderá ostentar o título de professor universitário que ministra aulas na pós-graduação. Ora, ora isso nada vale. Ser professor da pós, hoje? Bela droga! Mas, para os medíocres que fizeram o nome de Maurício e de outros grandes desaparecer, é tudo. A mediocridade de 1978 tinha um nome: Ditadura. A mediocridade de hoje tem um nome: Mediocridade.

Creio que abandonei a vida universitária na hora certa. Larguei aquilo porque vi que ser filósofo e ser professor de instituições que beneficiam a mediocridade são coisas incompatíveis. Mas agora, do modo como as coisas andam, penso que foi sorte eu nem ter me aposentado, eu simplesmente ter abandonado aquilo. Já imaginou andar nos corredores universitários de hoje e encontrar coleguinhas professores, com aqueles óculos retangulares achatadinhos que virou modinha na USP de agora, e descobrir que eles nunca leram Maurício Tragtenberg? Eu conseguiria não ser processado e até preso por dar um “pedala robinho” em um colega desse tipo? Não creio que me conteria.

O triste é saber que não foram os jovens que trouxeram a barbárie, eles apenas estão usufruindo dela. Os que trouxeram a barbárie foram colegas do Maurício. De 1998 para cá ou, melhor dizendo, de 1994 para cá temos visto os intelectuais apoiarem primeiro FHC no seu desmonte da educação brasileira e, depois, Lula, fazendo o mesmo. Não há qualquer política no sentido do cultivo de nossa própria tradição e de nossos próprios escritores. E isso é obra dos próprios intelectuais que estiveram no governo e estão no governo. Eles têm incentivado exatamente aquilo que Maurício denunciou no trecho que expus acima.

E mediocridade é estampada nas revistas. Abro um site e vejo lá em uma revista de curso de pós-graduação: “aprovada pelo Qualis”. Mas o que é isso? Que vergonha! Como que os professores se submetem a essa inquisição, a essa afronta imposta pelos órgãos de fomento à pesquisa. Como que é possível dar aval para o julgamento que é completamente político feito pelos órgãos de fomento para conceder bolsas e dinheiro para eventos? Como que todos se transformaram nisso, nessa coisa horrorosa que fazia Maurício ficar enojado da universidade brasileira e, então, culpar a Ditadura e o capitalismo?

Nisso, Maurício errou. O capitalismo não é o culpado de termos uma geração de professores universitários que, uma vez no poder, sentiram inveja dos grandes que passaram e, então, não só não souberam honrar seus nomes como fizeram questão de apagá-los. E a Ditadura foi menos culpada ainda, pois vivemos sob democracia desde 1985 e não nos tornamos mais generosos e honestos por isso.

Maurício Tragtenberg foi um inovador. Foi ele quem re-introduziu o pensando libertário no meio universitário e, principalmente, no campo da pedagogia. Foi ele quem esfregou no nariz de um monte de marxistas imbecilizados o pensamento vigoroso de Max Weber. Foi ele quem soube fazer as primeiras críticas da nossa burocracia, em especial a burocracia escolar. Maurício Tragtenberg – se você é professor e não quer ser medíocre, pegue na biblioteca os livros desse meu amigo. Ele foi um dos grandes. Mas se prepare: esses livros ainda são, mais do que no tempo da Ditadura, altamente subversivos. Será que você consegue segurá-los, ou você já cedeu à “era Janine Ribeiro”, ou seja, a era onde o papel do intelectual é aplaudir o governo Lula? Caso você seja assim, um abaixa-cabeça ou um labe-saltinhos – como os muitos que agora estão na USP – não pegue os livros do Maurício. Não servem para você. Maurício era dinamite.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

 


[1] TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. Sã Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed.

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