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As aventuras da filosofia

16/11/2008

Palhinha da coleção nova da Brasiliense, com três volumes. Escrita por Paulo Ghiraldelli Jr. Aguarde o lançamento no início de 2009. Curta aqui um pedaço, no texto ou no podcast.

Guerra de Tróia1. A Guerra de Platão

Tudo começou com uma guerra. Uma guerra de comportamentos na Grécia Antiga. A guerra do filósofo Platão contra o rapsodo Homero.

Homens do tipo de Homero andavam de cidade em cidade e cantavam versos sobre como havia sido a vida dos gregos em tempos remotos. As pessoas escutavam atentas; aquilo era como que uma escola popular itinerante. Todos tomavam aqueles versos como um saber, e de fato era o conhecimento que precisavam para entender de onde tinham vindo e como eram seus heróis e deuses, ou seja, os seus modelos de comportamento ou ao menos os elementos indiciais de como agir em sociedade, como tomar decisões, criar filhos e serem cidadãos.

Homero foi o responsável por obras básicas de nosso mundo ocidental: a Ilíada e a Odisséia. A Ilíada conta a Guerra de Tróia, a Odisséia conta a viagem de Ulisses de volta da Guerra para a sua casa, a ilha de Ítaca. Talvez nunca venhamos saber se alguma coisa do que é contado nesses versos realmente aconteceu. Digo “alguma coisa” por uma razão: ainda que a guerra tenha acontecido ou que Ulisses tenha realmente enfrentado uma aventura para voltar para casa, o que Homero contou envolve a participação de deuses e entidades sobrenaturais. Mas era justamente isso que importava no tipo de pedagogia que vinha da atividade de Homero, a idéia de falar de um passado grandioso. Todos podiam escutar sua história, e assim se fazia a “educação popular” do povo grego: ninguém escapava de tomar contato com essa base mínima de conhecimentos para conseguir viver na sua própria cultura e, por saber aquilo e acreditar naquilo, se sentir pertencente àquela cultura. Eis então o modo de se saber tudo o que era necessário para ser um grego. Todavia, todos concordavam com o que os rapsodos do tipo de Homero cantavam em seus versos?

Platão não concordava com aquilo. Aquele tipo de saber o incomodava profundamente. Paara ele, não se tratava de um saber, não era conhecimento. Alguém que soubesse tudo da Ilíada e da Odisséia poderia ser um grego, mas nem por isso poderia fazer vingar na nação grega a cidade justa. O que Homero contava implicava em disputas entre deuses, rivalidades entre facções políticas e desavenças entre indivíduos. O que Homero contava não ajudava em nada o objetivo de Platão de gerar um saber político capaz de fazer o povo grego viver bem, em uma cidade onde imperasse não a disputa e os feitos sobre duelos de honra, e sim as regras de convivência postas pela justiça. A justiça não poderia ser a justiça de cada um ou de cada deus, mas de todos, da cidade. Deveria ser antes a Justiça que a justiça.

Platão escreveu A República com esse intuito. Foi sua guerra particular contra Homero. Foi sua obstinação no sentido de implantar uma reforma cultural e educacional na vida grega. Olhado a partir de hoje, podemos dizer que Platão redescreveu o que era ser grego. E colocou em andamento uma reformar semântica, a batalha que levou a palavra “mito” a ser compreendida de uma maneira diferente daquela utilizada por Homero.

Mito vem do grego mýthos, que quer dizer mensagem, conselho, narrativa ou rumor. Do modo como Homero a utilizava, ela era a “palavra proferida”. O verbo coligado, mythéomai, queria dizer narrar, contar, nomear, anunciar, deliberar sobre si. Mito era a palavra utilizada para denominar a narrativa cuja verdade era garantida pelo testemunho dos outros, os que davam fé a tal narrativa. Após Platão, o saber de Homero passou a contar como menos verdadeiro. Foi por essa via que a palavra “mito” ganhou sua conotação atual. O próprio Platão passou a usar a palavra mito para denominar o conjunto de narrativas sobre feitos fabulosos, fantásticos e sem ligação com a verdade; e então aos poucos a expressão “lendas e mitos” ganhou a conotação de um relato que, de fato, é garantido pelo testemunho de outro, mas que exatamente por ser assim garantido não poderia ganhar o crédito de relato verdadeiro. Platão deslocou para a sua praia a noção de verdade. A filosofia, e não a história narrada é que poderia apontar para a verdade. A atividade da razão, segundo o que ele, Platão, veio a entender tal atividade, e não a atividade do escutar e transmitir, é que deveria servir para a perquirição da verdade. Platão estava convencido que a educação grega assentada na escuta e transmissão de “lendas e mitos” não iria fazer dos gregos um povo melhor.

Aliás, para ele, o que importava não era que as pessoas fossem ou não gregas, fossem ou não atenienses. Platão não era Sócrates, um aferrado a Atenas. Para Platão o importante é que as pessoas, de qualquer lugar, pudessem organizar suas vidas políticas – a vida da cidade. O autogoverno pessoal só poderia ter um bom desempenho em uma cidade capaz de se autogovernar corretamente. O importante era o império da Justiça. Antes viver bem que viver como grego. Ou ainda: que os gregos e todos os outros pudessem viver bem, o que não poderiam fazer senão de um modo político, ou seja, fazendo com que a cidade capaz de acolher os homens fosse a cidade justa.

Foi assim que a filosofia se tornou o pólo oposto do mito. Foi pela revolução platônica contra o status quo homérico que a filosofia buscou ter o monopólio da verdade. Até poderíamos dizer que foi assim que a própria filosofia se iniciou. Todavia, a tradição de nossa historiografia aponta para outra situação como sendo a origem da filosofia. E essa tradição se fez a partir dos olhos antes de Aristóteles do que de Platão.

Discípulo de Platão, Aristóteles foi um dos primeiros filósofos a utilizar o método de escrever sobre filosofia a partir de um levantamento geral do que fizeram aqueles que ele poderia eleger como os seus antecessores. Nessa atividade, ele elegeu não só Platão como seu antecessor, mas também os que ele próprio chamou de “os pré-socráticos”.

2. Os filósofos de Aristóteles

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