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Dona Maria Thereza Goulart, eterna primeira dama

16/11/2008

Maria Thereza Goulart, 1963

Música de Juca Chaves, no link que está aqui: “Dona Maria Thereza

 

O coronel Jarbas Passarinho não se conforma de ter perdido a guerra ideológica que ele imagina que foi travada contra a Ditadura Militar pelo que ele chama de “esquerda”. Como alguns outros poucos que sobraram do “Movimento de 64”, e que quiseram ficar justificando o Golpe Militar, Passarinho não se conforma em ter de deixar esse mundo e ficar para a história como vilão. Eu também não me conformaria; todavia, não há como reverter as coisas. O que foi feito, foi feito.

Passarinho e outros revisionistas da história querem que ao menos uma parte da juventude seja alimentada por outra versão do que ocorreu nos anos 60. Quer que a juventude acredite que eles, os golpistas, derrubaram um presidente eleito pelo voto popular porque tal presidente iria “implantar o comunismo”. Caso Passarinho tentasse uma via menos bruta de torcer a história, ele teria mais sucesso.

Jango gostaria de fechar o Congresso e fazer as “reformas de base”? De fato Jango queria as reformas, mas ele não tinha qualquer pretensão de fechar o Congresso e, através de uma ditadura, fazer passar as reformas. É muito menos verdadeiro, também, que as reformas tivessem algo de “comunista”. Menos forte ainda é a idéia de que Brizola era comunista e que iria dar guarida para Prestes. Tudo isso é mentira. O próprio Golpe de 64 mostrou que isso era mentira. Pois a reação ao Golpe foi tão pífia que ficou evidente que nada havia de articulado entre militares de baixa patente, sindicatos, Jango, Brizola e o PTB. Nada! Os soldados que acreditaram nas mentiras de Carlos Lacerda e de Castelo Branco ficaram estupefatos ao ver que toda a gritaria de Jango e Brizola era só gritaria mesmo. Inclusive, logo de pois do Golpe, alguns soldados não entendiam o que havia ocorrido de fato. Assim, caso Passarinho quisesse fazer passar outra versão, melhor seria ele dizer: demos um golpe porque fomos enganados por Lacerda e pelos generais.

Os militares deram um golpe em favor de um partido político, a UDN. Depois, quando viram que Lacerda iria submetê-los à caserna novamente, deram um golpe nos parceiros golpistas civis. Quando veio a reação de grupos de esquerda, após 1967, ficaram felizes, pois então puderam ter “um pouco de ação”. Como o Brasil não tinha capacidade de lutar fora do país, pois se recusou a participar da Guerra da Coréia e, com isso, não conseguiu se atualizar no campo militar, a saída dos militares foi a “guerra interna”. Para se dizerem heróis tiveram de inventar um inimigo e torturar uns pobres coitados aqui mesmo. Raro foi a vez que pegaram alguém que não fosse inocente. Quando pegaram algum esquerdista, o fizeram de modo tão fácil que mais uma vez ficou claro que não havia comunistas no Brasil. Os poucos que havia não conseguiram nunca se organizar.

Os militares quebraram muita gente que nunca havia sequer sabido o que era comunismo. Na “guerra suja” brasileira, acabaram ficando com a fama de mais sujos que a esquerda. Perderam a guerra ideológica. Perderam principalmente porque governaram mal. Foram incompetentes do ponto de vista técnico.

Passarinho é daqueles que teme que seus netinhos e outros olhem para os livros de história e apontem o dedo para ele do mesmo modo que nós, hoje, apontamos o dedo para Médici e Pinochet, e do mesmo modo que nossos país e avós apontaram para Mussolini. Mas Passarinho tem de se conformar. Ele perdeu. Ele ficou do lado errado, e perdeu.

A indenização concedida à Dona Maria Thereza e a anistia a Jango completam o ciclo iniciado com o filme “Jango”, em 1979. Foi ali que começou a recuperação da figura do presidente. Essa indenização à dona Maria Thereza não é como a indenização paga a tantos outros que disseram por aí que “mereciam”. Estes foram os que se auto-proclamaram heróis. Disseram a si mesmos: “fizemos cartuns todo dia, adoidados, contra a Ditadura”. Não! Não é isso. Os que fizeram o que nada mais era do que os seus próprios trabalhos, não poderiam ter indenização. Não perderam dinheiro com isso. Ao contrário, ganharam. Mas Jango não. Ele foi realmente difamado. Verdadeira ou não a hipótese dele ter sido envenenado no exterior por agentes brasileiros, ele realmente morreu no exílio por culpa da Ditadura Militar. Depois de morto, continuou a ser caluniado. Paulo Francis chegou a escrever, já com Jango morto, que diziam que o presidente “não controlava a mulher”. Dona Maria Thereza, já aqui no Brasil, ficou calada. Não podia responder. Foi até melhor, pois Francis já estava naquela época de afirmações racistas que o levou para um fim triste.

A indenização nas mãos de Dona Maria Thereza corresponde ao dinheiro que Jango ganharia como advogado que era. Não é muito dinheiro. Não é uma indenização. É menor do que a concedida para aqueles que não sofreram o que ela sofreu. Afinal, até Lula tem a indenização dele!

Esta indenização para Dona Maria Thereza, nossa eterna e verdadeira primeira dama, é a indenização que veio mais tarde de todas. O importante agora é aproveitar o momento para mostrar que Jango foi um homem dedicado ao seu país, que era um estancieiro que nada tinha de comunista ou anti-democrático. Que tinha um semblante risonho e bondoso que de fato espelhava sua alma. Como outros presidentes, ele teve o azar de ver a inflação subir em seu governo. E como outros, ele apostou que podia pressionar o Congresso para obter reformas, sem notar que alguns do Congresso, a bancada da UDN, conspirava contra ele da forma mais covarde e torpe que se poderia ter. O Marechal Castelo Branco andava do lado de Jango, dando-lhe “proteção”, enquanto ao mesmo tempo conspirava contra o presidente. Ingênuo e crédulo na democracia, Jango imaginava que os militares poderiam discordar das reformas, uma vez que estavam mais ligados aos ricos que aos soldados, cabos e sargentos e ao povo. Mas não acreditava que os militares fossem impatrióticos e viessem a tentar um golpe. Jango errou, eles eram impatrióticos. Não todos, mas a cúpula, sem dúvida, pouco tinha de altruísta.

Jarbas Passarinho berra, grita e esperneia. Envelheceu e sabe que foi derrotado. A indenização de Dona Maria Thereza, dada no dia 15 de novembro de 2008, no dia da República, sela a derrota daqueles que por mais de 20 anos fizeram do nosso país um quintal. É claro que há gente na revista Veja e em outros cantinhos que gostaria que Passarinho tivesse razão. É aquele pessoal que finge de liberal, mas confunde Foucault com Marx e mostra que além de reacionários são incultos. Não são inteligentes. Não são liberais. Então, a revista Veja, através da meia dúzia de sempre, tenta inventar mais mentiras ainda que as de Passarinho. São forças das trevas. Devem ficar lá, nas catacumbas. Estão sem coleguinhas de caserna.

O governo Lula não honra seus compromissos com a democracia e com a esquerda. Lula honra apenas o compromisso com sua própria família. Lula será o eterno homem do “mensalão”. Prometeu não perder o governo e de fato não perdeu – promessa que vem pagando corretamente para os que lhe deram apoio.

A oposição que temos não tem garra, pois, afinal, descende um pouco da UDN, só sabe agir com respaldo militar. Nunca houve nesse país um partido de mais gente covarde que a UDN. Então, sem oposição, Lula vai de Ibope em Ibope ferrando o país. Mas é melhor assim, que cada brasileiro faça sua própria besteira, votando no PT, do que não podermos fazer nenhuma besteira e, assim, ter de agüentar todas as besteiras de gente da Veja e de gente como Jarbas Passarinho, um dos piores ministros da Educação que já tivemos. O erro nosso dá para consertar. O erro dos ditadores não permite conserto.

A democracia é um bom regime. É um regime em que todos pagam aqui mesmo a sua construção do inferno, sem poder jogar nas costas dos outros a sua própria burrice. Gosto disso.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

One Comment leave one →
  1. renatoaogimenes permalink
    19/11/2008 21:24

    Os gritos de Jarbas Passarinho são expressão do mais puro ressentimento. Chega a ser patético: o projeto do “Brasil Grande” foi derrotado, e a versão de guerra de combate ao comunismo por ele propagada, também – ainda que ela volte, via Olavo de Carvalho e outros.

    Agora, que existe uma espécie de “história oficial da esquerda”, bem, ainda existe: a história que se baseia nos velhos conceitos de “modo de produção”, ou que ainda pressupõe uma teleologia, ou um movimento linear e progressivo em direção à esta “alguma coisa” que ainda se chama de revolução. Digo isso porque a esquerda (PSTU, parte do PT, PSOL – aqui em Belém, com certeza) tem enormes dificuldades para viver em pluralidade de idéias, e mais do que isso, têm medo de que iniciativas populares não ligadas a partidos frutifiquem. Esse me parece ser um grande desafio político para um futuro próximo: tornar a esquerda mais democrática e fazê-la romper com o populismo.

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