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Eunice Durham ou a ideologia que se quer passar por não ideológica

24/11/2008

Eunice DurhamEntrevista comentada pelo filósofo Paulo Ghiraldelli Jr: a Ideologia de direita de Eunice cega sua pesquisa?
Revista Veja: Edição 2.088 – 26/11/2008

Monica Weinberg e Edu Lopes

Entrevista: Eunice Durham
Fábrica de maus professores

Uma das maiores especialistas em ensino superior brasileiro, a antropóloga não tem dúvida: os cursos de pedagogia perpetuam o péssimo ensino nas escolas
“Os cursos de pedagogia desprezam a prática da sala de aula e supervalorizam teorias supostamente mais nobres. Os alunos saem de lá sem saber ensinar”
Hoje há poucos estudiosos empenhados em produzir pesquisa de bom nível sobre a universidade brasileira. Entre eles, a antropóloga Eunice Durham, 75 anos, vinte dos quais dedicados ao tema, tem o mérito de tratar do assunto com rara objetividade. Seu trabalho representa um avanço, também, porque mostra, com clareza, como as universidades têm relação direta com a má qualidade do ensino oferecido nas escolas do país. Ela diz: “Os cursos de pedagogia são incapazes de formar bons professores”. Ex-secretária de política educacional do Ministério da Educação (MEC) no governo Fernando Henrique, Eunice é do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas, da Universidade de São Paulo – onde ingressou como professora há cinqüenta anos.
Sua pesquisa mostra que as faculdades de pedagogia estão na raiz do mau ensino nas escolas brasileiras. Como?
As faculdades de pedagogia formam professores incapazes de fazer o básico, entrar na sala de aula e ensinar a matéria. Mais grave ainda, muitos desses profissionais revelam limitações elementares: não conseguem escrever sem cometer erros de ortografia simples nem expor conceitos científicos de média complexidade. Chegam aos cursos de pedagogia com deficiências pedestres e saem de lá sem ter se livrado delas. Minha pesquisa aponta as causas. A primeira, sem dúvida, é a mentalidade da universidade, que supervaloriza a teoria e menospreza a prática. Segundo essa corrente acadêmica em vigor, o trabalho concreto em sala de aula é inferior a reflexões supostamente mais nobres.

——–Eunice está correta no que fala do curso, mas errada ao apontar as causas que aponta. A carreira do magistério não é atraente do ponto de vista financeiro, então, o curso de pedagogia atrai os piores alunos, os que fogem de vestibulares difíceis. Eles chegam ao ensino superior, por exemplo, sem saber matemática, e lá no curso vão tentar aprender metodologia do ensino de matemática. Ora, deveria a universidade “recordar” todo o curso de ensino médio que não fizeram? Alguns não fizeram direito nem mesmo o ensino das séries elementares. É impossível para a universidade fazer isso. (PGJr)
——–O erro mais crasso da Eunice é achar que algum curso de pedagogia valoriza a “teoria”. Nenhum faz isso. Caso você olhe a bibliografia das disciplinas do curso de pedagogia você tenderá a acreditar que sim, mas quando entra na sala de aula, verá que não. Não há qualquer inflação de teoria. O que se ensina não é teoria alguma. Com muita dificuldade o que se pede para as alunas de pedagogia é que reproduzam nas provas e trabalhos algumas respostas que os professores colocam no quadro ou ditam ou mandam tirar dos livros. Eunice parece que nunca entrou na sala de aula de um curso de pedagogia. Caso houvesse uma inflação de teoria, até seria bom. Mas a mentalidade dos professores do curso de pedagogia é avessa a isso. (PGJr)
 
Essa filosofia é assumida abertamente pelas faculdades de pedagogia?
O objetivo declarado dos cursos é ensinar os candidatos a professor a aplicar conhecimentos filosóficos, antropológicos, históricos e econômicos à educação. Pretensão alheia às necessidades reais das escolas – e absurda diante de estudantes universitários tão pouco escolarizados.

O que, exatamente, se ensina aos futuros professores?
Fiz uma análise detalhada das diretrizes oficiais para os cursos de pedagogia. Ali é possível constatar, com números, o que já se observa na prática. Entre catorze artigos, catorze parágrafos e 38 incisos, apenas dois itens se referem ao trabalho do professor em sala de aula. Esse parece um assunto secundário, menos relevante do que a ideologia atrasada que domina as faculdades de pedagogia.

———Eis o problema da Eunice: sabe pesquisar de um modo que talvez seja igual ou pior ao dos professores que critica. Pois o que é colocado nas diretrizes oficiais nem de longe é cumprido nos cursos. Qualquer pessoa sabe disso. É incrível que a Eunice seja ingênua a esse ponto aos 75 anos! Meu Deus! Como ela pode achar que o que lê nessas diretrizes oficiais tem algo a ver com a prática real da sala de aula de formação de professores? Ninguém, ninguém mesmo acreditaria nisso! (PGJr)
 
Como essa ideologia se manifesta?
Por exemplo, na bibliografia adotada nesses cursos, circunscrita a autores da esquerda pedagógica. Eles confundem pensamento crítico com falar mal do governo ou do capitalismo. Não passam de manuais com uma visão simplificada, e por vezes preconceituosa, do mundo. O mesmo tom aparece nos programas dos cursos, que eu ajudo a analisar no Conselho Nacional de Educação. Perdi as contas de quantas vezes estive diante da palavra dialética, que, não há dúvida, a maioria das pessoas inclui sem saber do que se trata. Em vez de aprenderem a dar aula, os aspirantes a professor são expostos a uma coleção de jargões. Tudo precisa ser democrático, participativo, dialógico e, naturalmente, decidido em assembléia.

————-Eunice está presa a um modelo decrépito da esquerda dos anos 80. E assim mesmo, a um tipo de esquerda. Por exemplo, o “democratismo” foi combatido por Dermeval Saviani, um educador de esquerda, nos anos 80.  O que Eunice aponta é verdadeiro quando vemos um ou outro professor do curso de pedagogia ficar gritando contra “globalização” e “neoliberalismo”. Isso é fato. Mas esse pessoal é minoria. A maioria dos professores envereda pelo ensino de técnicas didáticas e por psicologia. Muita psicologia. Entendem pouco do que lêem, é verdade, mas não é por serem de esquerda que fazem um serviço ruim, é porque são ruins mesmo. Caso fossem de esquerda e fossem competentes, a ideologia não criaria o problema que parece criar. A maioria dos cursos de pedagogia possui poucas matérias teóricas e os professores dos últimos anos dominam os cursos, e tais professores não são os de sociologia, antropologia, história ou filosofia. Eunice não sabe o que fala, não conhece o curso de pedagogia. Mais parece um Jânio quadros chamando do Fernando Henrique, em 1985, de “candidato melancia”. Parece que Eunice parou no tempo. Todavia, penso que o problema da pesquisa dela está no excesso de ideologia. É muita ideologia de direita para poder dar conta de uma possível (e talvez imaginária) ideologia de esquerda. (PGJr)
 
 Quais os efeitos disso na escola?
Quando chegam às escolas para ensinar, muitos dos novatos apenas repetem esses bordões. Eles não sabem nem como começar a executar suas tarefas mais básicas. A situação se agrava com o fato de os professores, de modo geral, não admitirem o óbvio: o ensino no Brasil é ainda tão ruim, em parte, porque eles próprios não estão preparados para desempenhar a função.

———-Isso é verdade, e o corporativismo é base de sustentação disso. Mas Eunice se esquece que a formação que ela pede não foi dada aos professores, enquanto que foi dada a outros profissionais. Por isso mesmo os cursinhos pegavam para professores os profissionais liberais.  Faz tempo que a sociedade não confia nos cursos de formação de professores . (PGJr)
 
Por que os professores são tão pouco autocríticos?
Eles são corporativistas ao extremo. Podem até estar cientes do baixo nível do ensino no país, mas costumam atribuir o fiasco a fatores externos, como o fato de o governo não lhes prover a formação necessária e de eles ganharem pouco. É um cenário preocupante. Os professores se eximem da culpa pelo mau ensino – e, conseqüentemente, da responsabilidade. Nos sindicatos, todo esse corporativismo se exacerba.

———-Como se vê, Eunice acha que política educacional é algo da decisão individual dos professores. Ela não entende como funciona uma nação e um país. Ela acha que o professor ruim vai ter de chegar para ela e dizer: Dona Eunice, eu sou uma besta, vou estudar mais 4 anos e vou aprender tudo correto, para ganhar 400 reais por mês (o piso? Ahh, o piso!). Ela, Eunice, não entende que os professores possuem culpa individual, mas que isso não nos faz parar de termos de pensar em um nível que é o da política educacional. Caso pudéssemos deixar por conta de cada pessoa a sua própria formação, seria simples e fácil. Mas não é assim. Nesse aspecto, Eunice parece ser uma pessoa aquém de poder ter participado de formulação de políticas públicas de uma pessoa como o FHC, dono de um currículo invejável e uma pessoa que escreveu bons textos de política educacional. Aliás, o que me assusta na universidade, mais do que o curso de pedagogia, é que a USP coloque a Eunice em um núcleo de “políticas públicas”. Ora, se política pública pudesse ser pensada assim, como decidida por cada cidadão, por culpa pessoal, então as coisas seriam completamente diferentes.

———— Acho que Eunice imagina estar numa Igreja, não é um país moderno. Ela imagina que as coisas devam acontecer assim: o professor se considera pecador, culpado, e por arrependimento irá confessar e, então, redimido, irá melhorar. É exatamente isso que sai das linhas da sua entrevista. (PGJr)
 
Como os sindicatos prejudicam a sala de aula?
Está suficientemente claro que a ação fundamental desses movimentos é garantir direitos corporativos, e não o bom ensino. Entenda-se por isso: lutar por greves, aumentos de salário e faltas ao trabalho sem nenhuma espécie de punição. O absenteísmo dos professores é, afinal, uma das pragas da escola pública brasileira. O índice de ausências é escandaloso. Um professor falta, em média, um mês de trabalho por ano e, o pior, não perde um centavo por isso. Cenário de atraso num país em que é urgente fazer a educação avançar. Combater o corporativismo dos professores e aprimorar os cursos de pedagogia, portanto, são duas medidas essenciais à melhora dos indicadores de ensino.

———–Do modo como Eunice fala eu temo que ela queira os sindicatos atrelados ao Estado, e sem greves. Esse é o paraíso para não liberais, tanto fascistas quanto comunistas: um país em que o movimento sindical seja amigo do governo. Nesse caso, não sei se ela chega a ser melhor ou pior que o Lula, mas ambos se parecem com Vargas e com Mussolini.
———–Eu gostaria que os sindicados funcionassem como o CEPERS lá do Sul funcionou nos anos 70 e 80, fazendo discussão teórica junto com sindicalismo reivindicativo. Mas isso acabou. Isso também acabou nos Estados Unidos. As pessoas que faziam alguma discussão na rede de ensino fundamental acabaram por migrar para o ensino superior. E isso por fatores também econômicos que Eunice quer ignorar. (PGJr)

A senhora estende suas críticas ao restante da universidade pública?
Há dois fenômenos distintos nas instituições públicas. O primeiro é o dos cursos de pós-graduação nas áreas de ciências exatas, que, embora ainda atrás daqueles oferecidos em países desenvolvidos, estão sendo capazes de fazer o que é esperado deles: absorver novos conhecimentos, conseguir aplicá-los e contribuir para sua evolução. Nessas áreas, começa a surgir uma relação mais estreita entre as universidades e o mercado de trabalho. Algo que, segundo já foi suficientemente mensurado, é necessário ao avanço de qualquer país. A outra realidade da universidade pública a que me refiro é a das ciências humanas. Área que hoje, no Brasil, está prejudicada pela ideologia e pelo excesso de críticas vazias. Nada disso contribui para elevar o nível da pesquisa acadêmica.

———-Eunice não entende a função das humanidades. Eu também acho que até a filosofia pode e deve servir o mercado de trabalho. Mas, em humanidades, deve haver um respiradouro, algo com mais cautela em relação ao mercado. Aliás, nas outras ciências também é assim: a ciência não progride quando voltada para o mercado, ela progride para o mercado exatamente quando voltada para objetivos amplos que, inclusive, podem ser também os do mercado.
———Neste ponto Eunice lembra Renato Janine Ribeiro, que até pouco tempo era “o homem de Lula na CAPES”. Ele chegou a dizer que com 200 dólares se fazia um mestrado inteiro em ciências humanas. Bastaria Eunice e Renato assistirem o History Channel para ver o que é gasto em uma pesquisa verdadeira em ciências humanas. Mas duvido que ambos consigam ligar a TV com o sistema de controle remoto de hoje em dia.  Eles vivem no passado, não conseguem olhar para o Brasil de hoje. Ambos, por cegueira ideológica, pregam combates que não temos mais que reproduzir. Ninguém pode pensar em termos de “exatas versus humanas” na pesquisa atual, muito menos em “técnicos versus humanistas”. Isso é passado. (PGJr)
 
Um estudo da OCDE (organização que reúne os países mais industrializados) mostra que o custo de um universitário no Brasil está entre os mais altos do mundo – e o país responde por apenas 2% das citações nas melhores revistas científicas. Como a senhora explica essa ineficiência?
Sem dúvida, poderíamos fazer o mesmo, ou mais, sem consumir tanto dinheiro do governo. O problema é que as universidades públicas brasileiras são pessimamente administradas. Sua versão de democracia, profundamente assembleísta, só ajuda a aumentar a burocracia e os gastos públicos. Essa é uma situação que piorou, sobretudo, no período de abertura política, na década de 80, quando, na universidade, democratização se tornou sinônimo de formação de conselhos e multiplicação de instâncias. Na prática, tantas são as alçadas e as exigências burocráticas que, parece inverossímil, um pesquisador com uma boa quantia de dinheiro na mão passa mais tempo envolvido com prestação de contas do que com sua investigação científica. Para agravar a situação, os maus profissionais não podem ser demitidos. Defino a universidade pública como a antítese de uma empresa bem montada.

———-A crítica dela à universidade é correta. Todavia, na prática, a ação que ela tem como profissional é idêntica ao que critica, apenas feita de modo a bancar posições outras. A universidade brasileira é corporativa e mal administrada. Mas quando ela esteve no governo e o Paulo Renato foi ministro, qual a política que ofereceram para a universidade para mudar isso? Nenhuma! A leva de reitores que empossaram nada tinha de diferente dos “reitores do PT”, que ela odeia (PGJr).
———Eunice não tem proposta para a universidade brasileira, nenhuma. Ela e o grupo FHC e Paulo Renato são tão ruins quanto o Grupo do atual ministro. Fazem exatamente a mesma coisa no ensino universitário. Nada foi feito e nada é feito para tirar o ministro da educação da condição de “babá de greve” e “caçador de reitor corrupto”.
——–Agora, quero que notem que ela fala que a situação piorou na “abertura política”. Vejam só do que ela tem saudade! Ainda que ela esteja se referindo somente ao problema interno da universidade, sua fala é perigosa, a cada três palavras, duas são ideológicas – ideologia de direita, é claro. Ela imagina que ter ideologia de direita é não ter ideologia, então, pensa estar falando de um ponto de vista da Verdade (com V). É triste ver que uma pessoa com Fernando Henrique trouxe gente assim para seu governo. Triste mesmo! (PGJr)
 
Muita gente defende a expansão das universidades públicas. E a senhora?
Sou contra. Nos países onde o ensino superior funciona, apenas um grupo reduzido de instituições concentra a maior parte da pesquisa acadêmica, e as demais miram, basicamente, os cursos de graduação. O Brasil, ao contrário, sempre volta à idéia de expandir esse modelo de universidade. É um erro. Estou convicta de que já temos faculdades públicas em número suficiente para atender aqueles alunos que podem de fato vir a se tornar Ph.Ds. ou profissionais altamente qualificados. Estes são, naturalmente, uma minoria. Isso não tem nada a ver com o fato de o Brasil ser uma nação em desenvolvimento. É exatamente assim nos outros países.

———-Eunice não fala coisa com coisa neste trecho. Neste trecho específico, então, ela mostra desconhecer uma estatística que sai todo dia na imprensa. O ensino público brasileiro superior corresponde a algo em torno de 15% do bolo do ensino universitário. Portanto, o que ela defende é o que já temos. Ela não sabe disso? Será que 75 anos estão pesando e, então, ela não acompanha mais os jornais? Mas que coisa, com 75 anos vários outros professores, nos Estados Unidos, estão ativos e acompanham tudo. Eunice parece uma pessoa que está falando de outro país, não do Brasil. Ela não vê a estatística? (PGJr)
 
As faculdades particulares são uma boa opção para os outros estudantes?
Freqüentemente, não. Aqui vale a pena chamar a atenção para um ponto: os cursos técnicos de ensino superior, ainda desconhecidos da maioria dos brasileiros, formam gente mais capacitada para o mercado de trabalho do que uma faculdade particular de ensino ruim. Esses cursos são mais curtos e menos pretensiosos, mas conseguem algo que muita universidade não faz: preparar para o mercado de trabalho. É estranho como, no meio acadêmico, uma formação voltada para as necessidades das empresas ainda soa como pecado. As universidades dizem, sem nenhum constrangimento, preferir “formar cidadãos”. Cabe perguntar: o que o cidadão vai fazer da vida se ele não puder se inserir no mercado de trabalho?
 Nos Estados Unidos, cerca de 60% dos alunos freqüentam essas escolas técnicas. No Brasil, são apenas 9%. Por quê?
Sempre houve preconceito no Brasil em relação a qualquer coisa que lembrasse o trabalho manual, caso desses cursos. Vejo, no entanto, uma melhora no conceito que se tem das escolas técnicas, o que se manifesta no aumento da procura. O fato concreto é que elas têm conseguido se adaptar às demandas reais da economia. Daí 95% das pessoas, em média, saírem formadas com emprego garantido. O mercado, afinal, não precisa apenas de pessoas pós-graduadas em letras que sejam peritas em crítica literária ou de estatísticos aptos a desenvolver grandes sistemas. É simples, mas só o Brasil, vítima de certa arrogância, parece ainda não ter entendido a lição.

————-Agora a Eunice começa a faltar com a verdade. Nos Estados Unidos ninguém faz curso técnico no sentido que ela afirma. Não o equivalente do nosso curso técnico. O nosso curso técnico, até pouco tempo, não tinha qualquer status. E de fato era um ensino ruim, estreito, salvo poucas escolas. Só o conglomerado Senai-Senac-Sesi é que tinha algo condizente com a realidade e, assim mesmo, pouco capaz de colocar um técnico no mercado de trabalho com inteligência aberta, ampla, aquele técnico que  consegue usar a “inteligência de transferência”, tão exigida nesse âmbito. O resto era ruim. Nos Estados Unidos o que é chamado de técnico é feito com status de curso superior. É diferente. Eunice desconhece a realidade americana, mesmo tendo dinheiro para ir ver lá, nos Estados Unidos, como funciona. Lamentável. (PGJr)
 
Faculdades particulares de baixa qualidade são, então, pura perda de tempo?
Essas faculdades têm o foco nos estudantes menos escolarizados – daí serem tão ineficientes. O objetivo número 1 é manter o aluno pagante. Que ninguém espere entrar numa faculdade de mau ensino e concorrer a um bom emprego, porque o mercado brasileiro já sabe discernir as coisas. É notório que tais instituições formam os piores estudantes para se prestar às ocupações mais medíocres. Mas cabe observar que, mesmo mal formados, esses jovens levam vantagem sobre os outros que jamais pisaram numa universidade, ainda que tenham aprendido muito pouco em sala de aula. A lógica é típica de países em desenvolvimento, como o Brasil.

—–Eunice erra os termos, e isso mostra um problema já complicado da própria entrevista. Ninguém é menos escolarizado, como ela diz, no caso – pois todo mundo deve ter a mesma quantia de anos de escola para fazer faculdade. Todo mundo que vai para o ensino superior vai com o mesmo número de anos de escola. Ela confundiu “menos escolarizado” com “menos capaz”. E isso é grave. Isso mostra falta de rigor, e espelha o fato dela não estar sendo capaz de prestar a atenção na própria entrevista. Então, isso assusta, pois mostra que ela talvez não esteja concentrada na atividade que está fazendo. Isso depõe contra o que diz acima e, enfim, acaba explicando um pouco a falta de rigor da tal da pesquisa que ela apresenta (PGJr.)
 
Por que num país em desenvolvimento o diploma universitário, mesmo sendo de um curso ruim, tem tanto valor?
No Brasil, ao contrário do que ocorre em nações mais ricas, o diploma de ensino superior possui um valor independente da qualidade. Quem tem vale mais no mercado. É a realidade de um país onde a maioria dos jovens está ainda fora da universidade e o diploma ganha peso pela raridade. Numa seleção de emprego, entre dois candidatos parecidos, uma empresa vai dar preferência, naturalmente, ao que conseguiu chegar ao ensino superior. Mas é preciso que se repita: eles servirão a uma classe de empregos bem medíocres – jamais estarão na disputa pelas melhores vagas ofertadas no mercado de trabalho.

———Eunice erra mais uma vez. O diploma superior é alimentado pela burocracia brasileira. Por isso todo mundo o quer.  A forma de administração das companhias no Brasil (e o RH no Brasil) valoriza o diploma por uma questão cultural, da nossa tradição portuguesa. Portugal ficou como uma espécie de província inglesa, decadente, e passou a administrar tudo com pouca eficácia. Os cargos foram sendo ocupados lá e aqui por conta de apadrinhamentos e, em determinado momento, contava o diploma, entre os apadrinhados. Não era necessário realmente fazer a empresa pública funcionar, dado que o que funcionava, de fato, era o reino britânico, a real metrópole. Esperava-se que só o setor público fosse assim, por essa herança maldita, mas no Brasil o setor privado copia a administração do setor público. Todo escalonamento e carreira baseado no papel do diploma. Esse é o problema. Eunice tinha tudo para saber disso.  Mas … Não pode acusar a burocracia e a forma de administração brasileira, uma vez que ela própria é fruto desse tipo de administração. Quando passou no governo, reproduziu isso. (PGJr)
 
A tendência é que o mercado se encarregue de eliminar as faculdades ruins?
A experiência mostra que, conforme a população se torna mais escolarizada e o mercado de trabalho mais exigente, as faculdades ruins passam a ser menos procuradas e uma parte delas acaba desaparecendo do mapa. Isso já foi comprovado num levantamento feito com base no antigo Provão. Ao jogar luz nas instituições que haviam acumulado notas vermelhas, o exame contribuiu decisivamente para o seu fracasso. O fato de o MEC intervir num curso que, testado mais de uma vez, não apresente sinais de melhora também é uma medida sensata. O mau ensino, afinal, é um grande desserviço.

——-Esperar que o mercado dê conta a escola ruim é mesma coisa que esperar Papai Noel. Eunice espera o Papai Noel. Mas é um Papai Noel que é pior do que o mercado, que é a intervenção do MEC sem que seja oferecido, para a escola decadente, qualquer apoio técnico. (PGJr)
 
A senhora fecharia as faculdades de pedagogia se pudesse?
Acho que elas precisam ser inteiramente reformuladas. Repensadas do zero mesmo. Não é preciso ir tão longe para entender por quê. Basta consultar os rankings internacionais de ensino. Neles, o Brasil chama atenção por uma razão para lá de negativa. Está sempre entre os piores países do mundo em educação.
Sim, o Brasil está na pior. Ficou ruim com Paulo Renato e se mantém ruim com Fernando Haddad. Eunice serviu ao governo do MEC do primeiro, mas, do modo que pensa, poderia tranquilamente servir o segundo, o do Lula. A catástrofe seria a mesma. As burocracias de PT e PSDB possuem uma retórica levemente diferente, mas se igualam na prática. (PGJr)

2 Comentários leave one →
  1. razionale permalink
    24/11/2008 23:15

    tá certo professor Paulo, são interessante suas colocações, pegou meio pesado com a senhora de 75 anos, mas procede o que o senhor falou.
    Gostaria apenas de sugerir que colocasse outra formatação, os seus comentários em vermelho e identado, que tal?
    abraços
    Rodrigo

  2. 05/06/2013 15:55

    Li até o meio do fim. Cansei de ver as asneiras de Eunice, haahahha. Depois de comparar EUA com Brasil, vi que a nossa importante antropóloga (colega, portanto) se tornou uma ranzinza, cheio de preconceitos. Seria bom ela reler o que ela mesmo tão brilhantemente escreveu em “Cultura e Ideologia”. E praticar…

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